POESIA AO AMANHECER (21) – por Manuel Simões

João Vário – Cabo Verde

( 1937 – 2007)

 

FRAGMENTO DE “EXEMPLO RELATIVO”

E então subimos aquele grande rio

e as portas do Ródão, chamadas. Era em abril,

dois dias depois da neve

e da cidade dos nevões, na serra.

E olhámos para os penhascos da beira-rio,

as oliveiras, o xisto, a cevada

as ervas de termo e as colinas.

E, junto da via férrea, os homens do país

miravam-nos como se fôssemos nós

e não eles os mortos desta terra,

homens do medo e do tempo da discórdia

que trazem para o cimo das estradas

a malícia que vai apodrecendo

seus pés neste mundo e em terras de outrem.

Que fazeis do mundo e da sua chama imponderável, ó homens,

perdidos que estais, hoje como ontem,

entre a casa e o limiar?

E evocámos, mais uma vez, esse provérbio sessouto.

E, na verdade, porque regressaremos,

após tantos anos, a este tema?

Será que a morte nos ensinou

a olhar para o homem com pavoroso êxtase?

(de “Exemplo relativo, 1968)

Pseudónimo de João Manuel Varela, tendo usado ainda os nomes de Timóteo Tio Tiofe e de G.T. Didial, estes correspondentes ao poeta da caboverdianidade e da África, enquanto João Vário é um autor influenciado pela cultura ocidental. Licenciou-se em Medicina em Portugal mas exilou-se na Bélgica,  tendo-se dicado à investigação científica em vários centros internacionais. Depois da independência trabalhou como neurologista tanto em Angola como em Cabo Verde. Estreou-se com o livro “Horas sem carne” (1958), depois renegado. Participou em “Êxodo-fascículo de poesia” (Coimbra, 1961) e publicou “Exemplo geral” (1966) e “Exemplo relativo” (1968). Seguir-se-iam outros “exemplos” e a reunião na obra monumental “Exemplos- Livros 1-9” (2000).

 

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