ANÁLISES SOBRE A CRISE, OLHARES SOBRE A EUROPA, OLHARES SOBRE O CRIME QUE CONTRA ESTA OS SEUS DIRIGENTES ESTÃO A COMETER

E agora é sobre a Alemanha que falamos , não sobre a Grécia, Espanha, Itália, Irlanda ou Portugal! Por Satyajit Das – I

A Alemanha é financeiramente vulnerável. Independentemente do rumo dos acontecimentos, enfrenta custos esmagadores.

A gangrena é uma infecção  mortífera  que provoca  múltiplas lesões destruidoras dos  tecidos. O tratamento é feito com  antibióticos e com uma terapia hiperbárica para inibir o crescimento de quaisquer bactérias  mortais. Mas se isso falhar, é necessária a amputação. A Alemanha pode estar em grande perigo, pelo facto de ter  deixado para demasiado  tarde  o tratamento para extirpar as partes do corpo já em gangrena na zona-euro.

Oh Mas que bonita crise ….

Até à data, a Alemanha tem assumido uma parte muito pequena da crise da dívida europeia .

A economia alemã é uma das poucas economias que têm crescido desde 2008. O desemprego é baixo e os trabalhadores têm recebido aumentos salariais.

As taxas de juros dos títulos do governo, os Bunds, estão agora a níveis extraordinariamente baixos como nunca estiveram até aqui . Em 23 de Maio de 2012, as notas do tesouro a dois anos foram  emitidas com  cupão zero e deram aos investidores uma taxa de rentabilidade de 0,07% ao ano, o que levou o Financial Times a publicar a informação com o título: Oh Schatz: No Cupon (a nota do tesouro a dois anos, é conhecida por  Schatz). Uns poucos dias depois, as obrigações  foram emitidos a  zero por cento. Pouco tempo depois, o rendimento dos títulos de 2 anos foi negativo. As baixas taxas de juro  reflectem tanto o facto de que os investidores estão a pagar para terem o dinheiro em porto seguro , como o de que os investidores estão a fugir dos outros mercados europeus.

Politicamente, a importância da Alemanha nunca foi tão grande. A chanceler Angela Merkel cavalga sobre a Europa como um Bismarck feminino (o ponto de vista alemão) ou como um Gorgon (o ponto de vista grego).

O sucesso da Alemanha é baseado numa economia fortemente enraizada  na industria transformadora. É também o resultado das reformas estruturais promovidas pelo chanceler Gerhard Schröder, especialmente do mercado de trabalho. O aumento recente de 4,3 % nos salários obtidos pelo influente sindicato IG Metal é o maior aumento desde 1992. Curiosamente, o sindicato fez muito pouco progresso nas negociações recentes na questão de maiores  controles sobre os contrato de trabalho, que as empresas utilizam para uma maior flexibilidade e para uma maior capacidade de acção sobre os custos salariais.

Mas uma parte significativa do crescimento da Alemanha tem sido impulsionada pela zona-euro.

As taxas de câmbio favoráveis na base da criação do euro aumentaram  artificialmente o poder de compra de países como Itália, Espanha, Portugal e Grécia. A moeda comum levou a uma fortíssima queda nas taxas de juros nos países  mais fracos da Zona Euro, assim  como  a uma pressão à descida dos seus spreads de crédito. Estes deixaram de estarem expostos ao risco da desvalorização, uma característica persistente do pós-guerra na história económica do Sul da Europa, e em que  os credores emprestaram generosamente a esses países. A dívida era alimentada pelo consumo abastecido e o investimento impulsionou o crescimento.

Os exportadores alemães foram os principais beneficiários desse crescimento. Os bancos alemães e as instituições financeiras ajudaram a finança a  crescer . Era a versão europeia do Chimerica, onde a China financiava os compradores americanos para lhe comprarem os  seus produtos, concedendo-lhes  empréstimos sobre os seus excedentes comerciais.

Os exportadores alemães também beneficiaram de um euro barato, recebendo assim um subsídio significativo devido à inclusão das economias mais fracas como a  Itália, a Espanha, Portugal e a Grécia em termos da moeda comum. Esta vantagem de custos favoreceu os resultados alcançados pelos exportadores alemães, especialmente nos mercados emergentes da Europa Oriental e da Ásia.

Mas os bons tempos estão a  terminar.. A questão é se o Wirtschaftswunder (o milagre económico no  pós-segunda guerra mundial) termina em  Götterdämmerung (o crepúsculo dos deuses) ou em Weltuntergang (o fim do mundo).

Fetiches alemães  …

Os pontos fortes da Alemanha, especialmente as exportações, o seu fetiche,  são também as suas fraquezas. As exportações representam mais de 40% de seu Produto Interno Bruto (“PIB”), em comparação com menos de 20% no Japão e cerca de 13% nos os EUA. O excedente na  conta corrente da Alemanha, é maior do que o da  China, quando medido em percentagem do seu PIB, é uma fonte de orgulho na Alemanha. As exportações têm sido responsáveis pela maioria  do crescimento da Alemanha nos últimos anos.

A Alemanha é fortemente dependente de um bem delimitado leque de indústrias, basicamente nos bens de investimento – automóveis, máquinas industriais, produtos químicos, electrónicos e equipamento médico. Estes sectores representam um quarto do seu PIB e são a maior parte das exportações.

A melhoria da competitividade alemã também pode estar a ser exagerada. A Alemanha entrou na zona-euro com uma taxa de câmbio sobrevalorizada. Este facto levou a exagerar-se a extensão do ajustamento da Alemanha.

O sector de serviços na Alemanha  é fraco e  com menor produtividade do que nos países comparáveis. Enquanto se argumenta que a Grécia deve desregulamentar as suas profissões, na Alemanha muitas profissões continuam a ser altamente reguladas. O comércio e as  profissões são regulamentados por complexas regras técnicas e por normas enraizadas nos sistemas das corporações  medievais. Os participantes estrangeiros sentem frequentes vezes  que essas regras são  difíceis  e caras  para aí andar.

Um estudo da OCDE aplicado a 27 países considera que a regulação alemã dos serviços profissionais é mais apertada do que em quase todos os outros ​​. Um estudo da Comissão Europeia sobre três sectores profissionais em 13 países concluiu que a Alemanha tem mais mecanismos de protecção sobre cada um dos sectores que todos os outros países, excepto num deles. Os alemães argumentam que a desregulação seria prejudicial e levaria a uma diminuição da qualidade ou representaria riscos.

Apesar do prestígio internacional do Deutsche Bank, o sistema bancário da Alemanha é bastante frágil. Vários bancos alemães precisaram de apoio do governo durante a crise financeira.

Altamente fragmentado (em parte devido ao forte envolvimento do governo alemão) e com baixa rentabilidade, os bancos alemães, especialmente os dos Länder alemães (Estados), que detêm os Landsbanks, debatem-se com problemas. Eles têm uma grande exposição ao risco face à dívida soberana europeia, ao sector do imobiliário e aos produtos financeiros estruturados.

Antes de 2005, os Landesbanken foram capazes de contrair empréstimos a taxa de juro baixa, assentes na garantia dos governos estatais. A UE considerou que estas garantias eram consideradas como subsídios. Antes da abolição destas garantias, os Landesbanken emitiram grandes quantidades empréstimos garantidos pelo Estado com maturidades até Dezembro de 2015. Com um acesso limitado aos depósitos na banca de retalho (principalmente detidos pelos bancos hipotecários conhecidos como  Sparkassen) e sem garantia do Estado, a capacidade dos Landesbanken  para se refinanciarem na altura do vencimento da dívida junto dos mercados internacionais continua a ser uma incerteza.

Enquanto insiste com os outros países para reduzirem a sua dívida pública, o nível da dívida pública alemã é alto, é cerca de 81 % do PIB. O Bundesbank, banco central da Alemanha, afirmou que os níveis de dívida pública permanecerão acima de 60% (o nível estipulado pelos tratados europeus) por muitos anos.

As finanças públicas alemães também são vulneráveis ​​aos problemas demográficos de uma população em rápido envelhecimento e em decrescimento. Com um número crescente de trabalhadores a passar à aposentação, as receitas fiscais vão diminuir e as pensões e os custos dos cuidados de saúde vão aumentar.

(continua)

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