A recente decisão da UNESCO que proclama a cidade do Rio de Janeiro como patrimônio cultural da humanidade, além de tantas outras consequências, serve também para aproximar novos milhões de admiradorees àquela que os brasileiros sempre consideraram o ponto crucial de uma existência. “Cidade Maravilhosa” para o coração da gente de todas as regiões do Brasil, norte, nordeste, centro, sul , agora faz-se igualmente luz dos olhos da humanidade mais desejosa de encantamentos.
O Rio foi sempre um patrimônio do homem. Isto desde aquele que a natural ousadia navegadora lusitana levara às imensidades do Atlântico e que se encontrara, quase que de-repente,, diante da entrada convidativa da baía de Guanabara e que nela penetrara, guiado pelo incansável saltarelar em grandes festas de grupos de golfinhos, até o heróico Estácio de Sá que em 1565 primeiramente a concretizaa para todos os olhos. Logo em seguida à fundação, o jovem herói luso-brasileiro termina os seus dias de vida na defesa de sua maravilhosa invenção, lutando contra a cobiça de invasores sem raízes, nem horizontes claros.
A Cidade maravilhosa é um mundo debruçado entre mar e floresta; mundo de praias de areias brancas e de um verde que vem dos altos. Alcançando o Alto da Boa Vista, logo se participa desse verde quase eterno que se distende até o distante sul da Barra da Tijuca.
Subindo pelas curvas ondulantes dos jardins do Alto da Boa Vista, chega-se a uma das entradas para a amável Floresta da Tijuca. Esta é um convite a longas descobertas. De imediato o feliz explorador se confronta com a “Cascatinha” que cai das altas pedras cobertas de árvores e flores, formando um manto aquoso de benéfica presença, como o véu de uma esposa sempre em festa. Continuando a subida, mais adiante logo encontra-se uma magnífica pintura de Cândido Portinari, colocada no interior da pequena e ingênua Capela Mayrinck. Dali em diante o frequentador da floresta mágica se confrontará sempre com uma selva não selvagem, mas acolhedora e benfazeja. Nela pode-se caminhar com serenidade e, no caso de cansaço, serão enconttrados tantos daqueles bancos sempre prontos a propiciarem repouso.
Na Floresta da Tijuca o ar é sempre puro. Do verde de muitas matizações o oxigênio se livra e tudo conforta. Assim se vai por quilômetros e quilômetros até chegar às descidas que mostram os espaços ensolarados da zono sul da Cidade.
A praia de Copacabana se distende por oito quilômetros de areia fina e branca, sempre frequentada pelos cariocas sedentos de luz e calor. Entre as ondas movimentadas dos diversos Postos e a longa, harmoniosa fila de edificícios que jamais superam as medidas legais que deixam ver longe, a larga faixa arenosa – resultado do trabalho técnico dos especialistas portugueses para isso convidados pelas autoridades brasileiras para juntamente com os colegas da terra modernizarem a famosa Copacabana – é separada das quatro grandes pistas nas quais transitam as centenas e milhares de carros e ônibus de norte a sul – de sul a norte, está o calçadão famoso de Burle Marx. São oito quilômetros de uma composição geométrica que se faz abstração no ar salgado e sob a brisa que sempre corre. Por ali vai a gente, num viavai tranquilo, vez em quando interrompido para uma água de coco ou para um suco das variada frutas tropicais. São muitos os quiosques-bares que os oferecem e nos quais o carioca também se senta até mesmo para um chopp.
Partindo do Posto 1, na ponta do Leme, passando pela elegante arquitetura do Hotel Copacabana Palace, o calçadão caminha na direção do Forte, do qual partiram os jovens tenentes que souberam mudar a fisionomomia republicana do Brasil. Numa curva que leva a Ipanema – a mesma Ipanema de Vinicius de Morais – Burle Marx retorna com os seus desenhos que estão também até nos vestidos das turistas que alegres passam, tudo num sempre agradável ar, conforto do carioca que continua a caminhar entre areia e abstração.
De Copacabana, assim como por tantos outros pontos da Cidade, os olhos alcançam ao longe e em alto o Corcovado. Ali está a estátua do Cristo Redentor, símbolo admirado tanto pelos que crêem, quanto pelos leigos que o contemplam atraídos pela beleza da imagem confundida entre as alturas e os baixios das ondas atlânticas.
O Cristo Redentor foi inaugurado em 1931 e desde então recolhe os olhares de milhões e milhões de pessoas de todas as nacionalidades . Do alto do Corcovado os olhares nào só do monumental Cristo Redentor contempla toda a cidade, passando do verde da Floresta ao azul remansoso da baia de Guanabara e ao grande movimento das ondas do Atlântico pelas muitas praias cariocas. Do alto da Gávea, os olhares atravessam muitos bairros – Gávea, Leblon, Ipanema, Copacabana, Leme, Botafogo, Flamengo, Glória, até o Centro da Cidade Maravilhosa, chegando à Cinelândia, entrando pela avenida Rio Branco e então confrontando-se com a esplêndida arquitetura neo-clássica do Teatro Municipal, da imponente Biblioteca Nacional, uma das dez maiores bibliotecas públicas do mundo, e mais adiante a elegante estrutura do Museu Nacional de Belas Artes, repositário da história artística brasileira e de um sempre vivo confronto com os movimentos artísticos internacionais. No mesmo Centro, ao lado dos magníficos exemplos da arquitetura pública neo-clássica que caracteriza a ação da Monarquia no Brasil, desde 1818, com D. João VI, neste mesmo centro surge a surpreendente estrutura de uma arte moderna a mais revolucionária, o Palácio Gustavo Capanema, construído em 1934, em plena modernidade cultural vinda de 1922, obra-prima da criatividade de Le Corbusier, realizada por seus jovens discípulos brasileiros, tendo à frente a estrela nascente de Oscar Niemeyer. Desde então, a arquitetura moderna passa a ser aquela oficial do Estado Brasileiro, com o seu culme na gigantesca obra que em 1960 entrega ao mundo Brasília, nascida dos gênios de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. A partir deste 1960 o Rio de Janeiro cede a Brasília o seu centenário galardão de capital política do Brasil para fazer-se definitivamente a sua capital cultural, patrimônio da humanidade.
Por tudo isso e muito mais mais, o Rio é um mito lírico –
“Rio de Janeiro é a minha febre
quero estar sempre no Rio
inundado de maravilhas
quero ser cego se não tenho
as maravilhas do Rio.
Rio de Janeiro é a minha febre
sinto quanto mais vivo
nela quanto quente é o ar
que respiro sem cessar
e bebo sem cessar.
Rio de Janeiro é a minha febre
envolvente coinvol
gente
mais que presente
presença quente.
Rio de Janeiro é a minha febre.”
(Sílvio Castro, “Rio de Janeiro”, in Gira Mu(o)ndo ,RJ, 2003)
