A GUITA NA GAITA – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

 Praia, vento, o papagaio rasgou-se, partiram-se as varetas. Corriam as lágrimas pela cara do Joãozinho. Não podíamos ficar assim. 

 

            – Já sei!        

            – O quê, pai, o quê?

          – Tu é que vais ser o papagaio. Abre bem os braços. Assim! Agora tira o pirolito cá para fora!

          – Para quê, pai?

          – Para poderes voar é preciso amarrar-te a guita na gaita.

Rebolou-se na areia, a rir. Soluçou a-gui-ta-na-gai-gai-ta. Chorava de rir. Mas convidou-me ainda:

 

          – E depois, pai? Conta.

            – Depois tu sobes bem alto e eu fico cá em baixo a esticar a guita para tu não caíres, como aconteceu ao papagaio. Até as gaivotas vão ficar assustadas com a altura a que vais subires. E ficas lá em cima, a balançar de um lado para o outro. E hás-de ver o mar todo. E hás-de ver Lisboa, hás-de ver Portugal inteiro. Depois eu dou-te mais guita e hás-de ver a Espanha. Depois a França e então vais dizer adeus para o Toino que está em Paris, a trabalhar. E o Toino vai apontar para ti e vai dizer: aquele passarão, lá muito no alto, é o meu mano mais novo, é o Joãozinho. E os franceses vão pensar que o Toino é maluco.

          – E depois, pai? Conta.

          – Depois começa a anoitecer e a ficar frio. E o que é que tu me dizes?

          – Eu digo: ó pai, puxa! puxa que eu quero descer.

          – E o que é que eu faço?

          – O pai enrola a guita, enrola, enrola, e eu desço.

          – E onde é que está amarrada a guita?

          – A guita na gaita.

 Voltou a rir. Muito. Estava feliz com a viagem lá pelos ares, e eu com ele.

 Durante o almoço, na tasca; durante todo o santo dia tive que lhe contar e recontar a história do menino-papagaio.

 Quando, à noite, a mãe o foi deitar, ainda falou na guita e na gaita e adormeceu a rir.

 Foi um domingo bem passado.

 In MATA-CÃES

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