O caos ou a segurança: a hora da decisão aproxima-se
Estou cansado das notícias que leio, dos telejornais que não vejo mas que adivinho. Saio até à Rua de Santo António, pela fresca da manhã que se avizinha quente.
Penso, hoje que não vou à praia, vou escrever uma crónica. Tema? Não tenho. Penso nisto, vejo que não tenho tema mas imediatamente penso que é melhor não me preocupar e mais, penso ainda que é suficiente dar um pontapé na realidade para o encontrar uma vez que analisar a realidade seja naquilo que for faz com que a sua análise ultrapasse qualquer ficção que sobre esta mesma realidade se possa previamente conceber .
Lembro-me da Maria, a da Rússia, num encontro exactamente a um sábado e lembro-me da crónica sobre as Marias, onde se falava dos ladrões da Troika, do BCE, da Comissão Europeia, do FMI, dos assaltos que são feitos de forma organizada e legalizada aos direitos e aos bolsos de cada um dos portugueses que trabalham ou trabalharam. Veja-se o esforço espantoso que é feito para que os Governos por esta Europa fora estejam todos eles ao ataque dos direitos de quem tem emprego como se a saída da crise exija o alargamento da possibilidade dos despedimentos, como se a saída da crise exija a redução das condições salariais para aquelas que existiam no tempo dos nossos bisavós e como se não exija a responsabilização dos principais agentes que geraram a crise.
Desço a rua, passo por uma loja que teve quatro empregadas, passo por um patrão que tentou ao limite que estas mesmas empregadas se despedissem, para ficarem sem direitos a nada. Levado a Tribunal tentou tudo para nada pagar mas no limite, a pagar, queria então pagar segundo a nova legislação que ainda nem sequer estava aprovada! Não conseguiu. Os factos remontavam à vigência da anterior legislação do trabalho. Nada a fazer, pagou. Aguarda agora reconstituir parcialmente os seus quadros com gente a menor preço e com menores direitos.
Com a crise, as vendas baixam, os empregados ficam, nalguns casos, excedentários e os patrões aproveitam descarregando sobre aqueles uma parte desses mesmos custos, reduzindo os salários, reduzindo o valor das indemnizações enquanto votam no governo que a crise amplia. O adjectivo é único: são patrões que são assim transformados em ladrões. Um outro mecanismo que passa também ele não pela redução de efectivos mas pelo desemprego, pela precariedade dos que trabalham é a criação de situações de instabilidade que forcem os empregados a despedirem-se. Depois são substituídos por gente mais nova com menos direitos e com ordenados mais baixos. Não haverá assim nenhum custo de despedimento e os patrões podem fazer as substituições que entenderem e quase que aos salários que entenderem! Mais ainda, a prática desonesta destes senhores leva a violar a própria concorrência, pois fica-se com estas práticas perante outros agentes económicos mais sérios, e portanto no mesmo espaço e como concorrentes entre si, os empresários honestos e desonestos ficam em situações concorrenciais diferentes, a favor destes últimos. A virtude, neste quadro, não compensa. Uma outra forma de violência se instala assim na realidade empresarial portuguesa.
A precariedade como prática é agora a realidade instalada nas vidas de homens e mulheres que outrora conhecerem empregos estáveis, exactamente os mesmos que têm agora, mas em que estes agora se transformaram num inferno por efeito da desregulação promovida pelo Governo de Passos Coelho e imposta pela Troika. São noites e dias trágicos que cada elemento trabalhador transporta para casa e muitas vezes carregando o lar de uma tensão que outrora não existia. Estabilidade familiar, estabilidade para as nossas crianças, foi coisa que houve, foi coisa que os ladrões governamentais e seus acólitos pela calada da noite aos trabalhadores estão a roubar. Para estes patrões que assim procedem e são cada vez mais na rua de Santo António a que me refiro assim como nas ruas paralelas, para além das muitas lojas já fechadas com as pessoas para casa enviadas, para estes patrões nada há a dizer, com o comportamento destes não se preocupa o nosso Governo e logicamente assim porque é um governo ao serviço destas mesmas personagens. Segundo uma regra de ouro: o que interessa aos capitais, interessa ao governo porque segundo o governo isso é o que interessa à democracia. Simples, a regra que rege estes senhores. Entretanto cria-se toda uma sociedade á beira de um ataque de nervos, de um rastilho que tudo pode fazer saltar.
Saio da rua de Santo António. Dirijo-me à Igreja do Carmo. Passo pelo café que tem como nome O seu café. É sábado, pela manhã. Olho para a esplanada lateral, vejo um velho amigo meu, marceneiro de longa data, de braços musculados e bronzeados de a trabalhar de sol a sol tanto prego ter pregado na madeira e, quem sabe, se na vida também. Sento-me. Dou-lhe uma ideia do que vinha a pensar sobre os problemas do emprego em Faro, no País. Falo-lhe dos despedimentos forçados, com redução global de pessoal depois deste vir a ser renovado com gente mais nova, com menos direitos, com menos salários. Até quando, digo eu em voz alta?
Até quando? Interroga-se também ele. Até que uma bomba qualquer rebente?. Dou-te um exemplo: uma loja foi fechada. Antes, o patrão despediu a empregada, sem nada, saiu de mãos a abanar. Digo-lhe espanta-me que não tenha acontecido nada ao patrão. O marido dela é bem fresco, é de origem cigana.
De origem cigana, pergunto eu?
Sim de origem cigana. Integrou-se. Conheço mais casos, continua ele. Neste caso não aconteceu nada, há filhos a sustentar, há medo das consequências. Mas um dia, pode não haver filhos a sustentar, um dia pode em qualquer dos casos perder-se o medo por se sentir que não há nada mais a perder. Tudo depende da capacidade de resistência de cada um. Há sempre alguém que verga, que pode desencadear a seguir um movimento em cadeia. Segundo li terá sido assim em Londres. Se assim acontece, em Portugal, não sei mais o que pode acontecer.
Calo-me ao ouvir esta visão da realidade. Visito a Igreja, volto à esplanada e volto agora com o meu amigo retorno à Rua de Santo António. Estou cansado de ver lojas a anunciar que compram ouro, pratas, jóias. Lojas que foram lojas de uma outra coisa, lojas que fecharam, lojas que pela mudança de ramo deram aso a mais desemprego ainda. Mas eis que vejo uma loja bem diferente: mantém o seu ramo de actividade e junta-lhe uma nova actividade a de compra de ouro, pratas e jóias. Leio um quadro antigo inserido na parede onde se descreve a actividade inicial e este reza assim:
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Galeria das Patacas |
| Antiguidades |
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Coleccionismo |
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Moedas e selos |
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Coins/ Stamps |
Por cima numa placa preta a letras douradas num formato bem maior lia-se também:
Compra-se ouro usado ao melhor preço.
O meu amigo vira-se para mim e diz-me que enquanto houver ouro para aqui colocar as pessoas vão suportando o seu desespero. Quando acabar, a hipótese de bombas por muitos sítios no nosso país poderem começar a rebentar pode ser uma realidade, martelou, não com o martelo que utilizou na vida e com que muitos pregos pregou, mas com o martelo que tem o peso da gravidade da situação do desemprego que também o atingia. E ele bem sabia do que falava.
Deixamos a zona da Igreja de S. Pedro e voltamos para a rua de Santo António. Volto a pensar no teorema de Mundell, que representa o conjunto das incompatibilidades:
No quadro do capitalismo não se pode ter nunca em conjunto política monetária autónoma, taxas de câmbio fixas e liberdade de movimentos de capitais. Apenas se podem reunir duas características duas a duas, como por exemplo movimentos de capitais e taxas de câmbio fixas, perdendo-se a autonomia de política monetária, como por exemplo política monetária autónoma e taxas de câmbio fixas mas neste caso perdendo-se a mobilidade dos capitais, ou ainda como terceira hipótese podemos ter política monetária autónoma e movimentos de capitais, perdendo-se a hipótese de câmbios fixos.


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