Manuel Alegre – Portugal
( 1937 – )
REGRESSO A ÍTACA
Conheces a casa pelos cheiros e os ruídos
As sombras na parede a certas horas
Uma jarra de rosas sobre a mesa
E a Primavera no quintal com seu perfume
De terra e musgo e buxo e flores de limoeiro
Conheces a casa até por sua música
Que é um branco silêncio povoado
Por móveis e tapetes ecos vozes
Este devia ser o teu lugar sagrado
Aquela Ítaca secreta em que pensavas
Quando buscavas um caminho ou um destino
Mas eis que chegas e algo está mudado
É certo que na vila os velhos te reconheceram
Como a Ulisses o fiel porqueiro
Porém na casa algo está diferente
O teu próprio retrato te parece um outro
E mais do que nunca sentes-te estrangeiro
Por isso o teu exílio é sem remédio
(de “Chegar aqui”)
Com “Praça da Canção” (1965) e “O Canto e as Armas” (1967), uma autêntica epopeia às avessas, tornou-se um caso extraordinário de popularidade nas letras portuguesas. Poeta da errância em sentido físico e existencial, quase todos os títulos sucessivos navegam à volta desta componente: “Um barco para Ítaca” (1971), “Nova do Achamento” (1979), “Atlântico” (1981), “Chegar aqui” (1984), “Sonetos do obscuro quê” (1993), até ao recente “Nada está escrito” (2012).

