POESIA AO AMANHECER (24) – por Manuel Simões

Manuel Alegre – Portugal

( 1937 –   )

REGRESSO A ÍTACA

Conheces a casa pelos cheiros e os ruídos

As sombras na parede a certas horas

Uma jarra de rosas sobre a mesa

E a Primavera no quintal com seu perfume

De terra e musgo e buxo e flores de limoeiro

Conheces a casa até por sua música

Que é um branco silêncio povoado

Por móveis e tapetes ecos vozes

Este devia ser o teu lugar sagrado

Aquela Ítaca secreta em que pensavas

Quando buscavas um caminho ou um destino

Mas eis que chegas e algo está mudado

É certo que na vila os velhos te reconheceram

Como a Ulisses o fiel porqueiro

Porém na casa algo está diferente

O teu próprio retrato te parece um outro

E mais do que nunca sentes-te estrangeiro

Por isso o teu exílio é sem remédio

(de “Chegar aqui”)

Com “Praça da Canção” (1965) e “O Canto e as Armas” (1967), uma autêntica epopeia às avessas, tornou-se um caso extraordinário de popularidade nas letras portuguesas. Poeta da errância em sentido físico e existencial, quase todos os títulos sucessivos navegam à volta desta componente: “Um barco para Ítaca” (1971), “Nova do Achamento” (1979), “Atlântico” (1981), “Chegar aqui” (1984), “Sonetos do obscuro quê” (1993), até ao recente “Nada está escrito” (2012).

 

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