(conclusão)
Poder-me-ão dizer que isto tem a ver com a City apenas. Extirpem a Inglaterra da União Europeia e a questão está resolvida, poder-me-ao . Erro. A prova, imediata, directa, vem dar razão a uma antiga colega minha, a Margarida Antunes, de que a crise na Europa vinha da própria estrutura institucional e que portanto sem uma transformação total da mesma não haveria saída para a crise. Vê-se bem que assim é, vê-se bem que a minha antiga colega tem completamente razão. Vejamos então o exemplo bem caricato para anular a argumentação de que o problema é o problema da City e não dos servidores da City. Em 2006, a Inglaterra, pasme-se, a Inglaterra entrou em conflito com a Cadbury-Schweppes por evasão fiscal desta multinacional. Pasme-se. A questão foi decidida ao nível da justiça defendida e praticada pela União Europeia e a decisão do Tribunal de Justiça da União Europeia foi a seguinte:
A Inglaterra não poderia aplicar as suas defesas fiscais porque isto entraria em contradição com as leis europeias sobre a liberdade de estabelecimento que autoriza as sociedades a instalarem-se por toda a União Europeia onde encontrem o menor número de obstáculos possíveis.
A City Corporation, acima de tudo. A União Europeia, preto no branco a garantir também ela os interesses supremos do capital e da sua movimentação entre paraísos fiscais dentro do espaço europeu. Com se vê, é a subordinação aos interesses do capital que importa e estes estão simbolizados pela City e pela seita dos Adoradores do Templo Sagrado que esta sustentam e dinamizam. É a partir da pertença a esta seita que se compreende o trajecto profissional de António Borges, é a partir desta que se compreende igualmente o seu quadro de valores expressos pelo conjunto das suas tomadas de decisão, é a partir desta pertença que se pode compreender bem o trio acima falado pois para os adoradores do templo sagrado os paraísos fiscais são uma peça fundamental enquanto a minimização do papel do Estado deve ser levada até às suas consequências extremas, reduzi-lo às características mínimas que tinha no século XIX, ao tempo de Dickens, diríamos. É isto a que se é levado logicamente a pensar quanto a este sinistro personagem e assim somos levados a admitir que é a partir desta pertença à seita referida que se compreende que queiram agora colocar o país em saldo.
Explicado ao amigo marceneiro estes raciocínios este pega num documento, um manifesto contra a posição assumida por António Borges , onde se pode ler:
“Entendem também que esta espécie de bomba-relógio que paira sobre a RTP, acompanhada do anúncio do desmembramento dos seus meios de produção, compromete o futuro da empresa e está a prejudicar não apenas a prestação do serviço público, como impede o que devia ser a sua prioridade mais urgente: uma profunda reflexão sobre a forma de garantir o imperativo constitucional de independência face ao poder político e ao poder económico e a reforma a empreender na oferta do serviço público no quadro digital, acompanhando os modelos dos outros países europeus.“
Depois diz-me: vê, olha, mais uma bomba potencial que se pode somar a todas as bombas de que falámos e tenhamos a certeza de que caminhamos em cima de um barril de pólvora. O perigo de explosão é imediato: temos que estar atentos.
Meu amigo, continua ele, repara ainda num pormenor de que como economista que pressuponho sejas, ainda não me referiste. Braga de Macedo e António Borges, são politicamente assassinos da economia portuguesa desde longa data. Lembras-te que estes foram a parelha que conduziu a política do Banco de Portugal dos tempos em que ainda havia política não produzida, não comandada por Bruxelas? Lembras-te que os homens defensores do Escudo forte, da desinflação competitiva pela taxa de câmbio sobre – avaliada para o escudo foram exactamente estes senhores? Meu caro, a tua memória de professor é afinal bem curta. Lembra-te de um artigo uma reportagem que me aconselhaste a ler sobre Portugal sobre Borges, sobre Braga de Macedo que vinha no Financial Times, imediatamente a seguir à segunda vitória de Cavaco, para o seu segundo mandato de Governo.
Sentámo-nos no meu café do costume e pedimos duas águas. Lembro-me agora de tudo isto. Lembro-me de uma entrevista que lhes foi feita, lembro do desprezo com que Borges, montado bem alto no cavalo da sua incompetência falava dos empresários portugueses, falava de que tinham que ser eliminados. O burro. Não percebia que uma reestruturação leva anos a realizar, mesmo na base da taxa de câmbio do escudo sobre- avaliada, enquanto a perda de competitividade daí resultante é imediata. Perdemos capacidade competitiva, perdemos indústria, é lógico, digo-lhe. E digo que esse número especial do Financial Times valia a pena ser agora relido, ser revisto, ser repensado. Valia, valia isso tudo.
A resposta simples e directa do meu amigo fez-me lembrar que por detrás dela estava uma forte consciência política, um longo trabalho de formação. Pois é, diz-me, o bom ladrão volta sempre ao local do crime. Vem agora apanhar os despojos da situação criada.
Sentámo-nos no meu café do costume e pedimos duas águas. Em silêncio lembrei-me:
– das lojas em Faro a fechar
– lembrei-me das lojas de compra de ouro a abrirem
– lembrei-me do meu amigo João , cansado de à noite o emprego procurar para de dia não conseguir ir trabalhar
– lembrei-me da sua filha que de tanto estudar um dia na área de contabilidade se há-de talvez poder empregar
– lembrei-me do promissor chefe de mesa que nunca o será
E tudo isto foi a crónica (crónica nº1)
– lembrei-me do Bombeiro e do seu cansaço ou da sua falta de agilidade, lembrei-me do Algarve ardido, do país em cinzas (crónica nº2)
– lembrei-me de quem se estende na rua por estas calçadas mal arranjadas, num país de calceteiros desempregados mas onde se quer que venha a haver muitos caceteiros. Ainda hoje, na calçada que dá acesso ao largo da Alagoa, uma senhora na casa dos 40 anos caiu e mal, com a face na calçada por não se ter protegido na queda. Ficou mal, terá ido ao Hospital, não sei. A culpa foi dela, dir-se-á- (crónica nº3).
– lembrei-me de Maria, a da Rússia, que emprego pode agora não encontrar e que os seus netos pode não estar a poder financiar. Hoje quis presenciar a saída de um complexo de estufas e fiquei pasmado: o mundo à minha frente, era uma verdadeira torre de Babel, uma torre multicolorida pelas faces presenciadas. Comovi-me. Das 7 da manhã às 8 da noite muitos dias, é assim a vida naquela vida de quase escravatura nas estufas que nos alimentam (crónica nº 4). .
E agora, nesta crónica, a nº 5, lembro-me do meu amigo carpinteiro ainda a meu lado, lembro-me dos seus avisos sobre as múltiplas bombas, lembro-me do rapaz da Bodyshop que já não encontrei a trabalhar neste ano, ou porque se cansou de despedir jovens sem ética e sem nenhum profissionalismo nem respeito por ninguém ou porque foi ele mesmo despedido por não o fazer como deve ser, lembro-me dos jovens que abandonam os seus trajectos escolares, lembro-me dos muitos jovens que terminam os seus trajectos escolares sem nenhumas capacidades de resposta para a vida real, lembrei-me dos muito bons estudantes que por essa Europa andam a vaguear para emprego procurarem encontrar, lembro-me de que as escolas têm que ensinar a aprender e as empresas tem que ensinar a fazer, mas já não se faz nenhuma coisa nem outra, criando-se assim a nível da sociedade uma máquina potencial de destruição, lembrei-me dos múltiplos ladrões que são os patrões actuais, à procura de escavarem a roubar nos direitos de cada trabalhador, sejam os direitos do presente sejam eles os do futuro, com a precariedade mais absoluta assim instalada e sobretudo lembro-me sobretudo dos novos ladrões, encartados, legalizados, ministros de ignorância bem demonstrada e de desonestidade hoje bem cunhada ao serviço do novo Templo, o da City, com um desprezo total pelos povos que os elegeram.
Mas o meu amigo marceneiro sabe mais do que eu posso adivinhar, fruto possível de ligações políticas que desconheço, se é isto tem alguma relevância. Quando lhe faço a síntese do que me vai pela cabeça e pela alma, dispara-me: mas o que se passa com as lojas de Faro quanto a despedimentos passa-se a nível mais geral, de fábricas, de grandes unidades de serviços. E continuou. Dou-te um exemplo: uma das maiores câmaras do país tem como responsável pelos serviços de contabilidade uma empresa inglesa. Nesta empresa, a lógica tem sido de mandar fora os contabilistas seniores, não todos é claro, e recrutar gente nova pela mesma razão, ou seja, com menos direitos, com menos salários. Ainda mais recentemente, uma unidade de serviços reputada a nível nacional como empresa de referência, uma unidade criadora de software, reestruturou os seus serviços exactamente com o mesmo objectivo, reduzir, despedir, renovar a custo mais baixo. E meu caro, isto passa-se bem perto de ti, para os lados de Coimbra. Como é evidente isto, mais cedo ou mais tarde, só isto e por si mesmo, tornar-se de uma gravidade verdadeiramente explosiva, a aumentar as linhas de fractura que estão a arrasar a sociedade portuguesa. A luta de classes não morreu, por mais que vocês professores universitários a queiram enterrar. .
Tens razão, digo. E tenho a certeza de que tudo será socialmente arrasado se não derrotarmos rapidamente os adoradores do templo sagrado e o seu próprio templo, a City, se não arrasarmos os Durão Barroso, os Rompuy, os Passos Coelho, os Rajoy, e todos os que com eles comungam da mesma religião. Só assim é que Faro, só assim é que Portugal, só assim é que todos os países da Europa também virão a ser um espaço de empregos condignamente criados, condignamente remunerados. Se assim não for as múltiplas linhas de fractura assinaladas irão convergir e será então o caos.
De Faro, é tudo.

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