POESIA AO AMANHECER (27) – por Manuel Simões

Casimiro de Brito – Portugal

( 1938 –   )

“AFASTO-ME DE MIM QUANDO ME APROXIMO”

Afasto-me de mim quando me aproximo

Do fio da fala; quando pesco raízes

Para os homens. Afasto-me do jovem

Pescador que fui de conchas nas areias

Do sul. O sol nascia comigo no azul

Solene; o sol e as gaivotas, o desenho

De suas patas na manhã. Ninguém de nós

Sabia nada – nem eu nem o sol nem as aves

Sabíamos nada não havia nada para saber nada

Para dizer sob o lago celeste que nos

Envolvia. Pescador de palavras ainda sou –

Ainda colecciono o rumor da cal ainda ouço

A flauta rouca o pó complacente que envolve

Dentro de mim as coisas todas.

(de “Na via do Mestre”)

Foi co-director dos “Cadernos do Meio-Dia” (1958-1960) e um dos poetas do movimento “Poesia 61”. Autor de uma extensa obra poética, estreou-se com “Poema da solidão imperfeita” (1957), a que se seguiram, entre outros volumes: “Negação da morte” (1974), “Labyrinthus” (1981), “Opus Affettuoso” (1997), “O amor, a morte e outros vícios” (1999), “Na via do Mestre” (2000), “Da frágil sabedoria” (2001). Tem vindo a publicar fragmentos avulsos do seu monumental “Livro das quedas”.

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