EM COMBATE – 169 – por José Brandão

Batalhão de Caçadores 1916

MOÇAMBIQUE

1967-1969

 Certo dia pela tarde, chega-me a informação de que estou mobilizado para Moçambique e que devia preparar-me para me apresentar no dia seguinte no B. Caçadores nº. 10, em Chaves. O meu destino final era o BCaç.1916, Compª. 1710.

Colocado no 1º. GCAM, Povoa do Varzim, desde o fim da recruta, pensava já não ser mobilizado dado o tempo então decorrido. Foi com algum espanto e até de raiva com que recebi a notícia. Passado o primeiro choque, lá fui fazer a mala, receber a Guia de Marcha e comunicar à família a triste noticia.

Embarquei pela noite no comboio que partiu da Póvoa. Chegado ao Porto transferi-me para o que me levou até Chaves. Se não estou em erro cheguei ao quartel a meio da tarde.

Saímos de Lisboa, a 12 de Abril de 1967, embarcados no navio “Niassa”, comigo, partiram centenas de militares com destino ao desconhecido, nas nossas mentes pairavam um conjunto de fantasias e de mitos que iludiam o perigo evidente da jornada.
Cruzamos as silenciosas e calmas águas do golfo da Guiné, aportamos na linda e encantadora Luanda e dobramos o inóspito cabo. Atracamos a 2 de Maio de 1967, em L. Marques (Maputo), cidade de rara beleza, muita florida aliada à radiante iluminação da mesma e das jovens atraentes e bonitas. Nacala foi outro local que deixou marcas banhada por uma baía de águas profundas e envolvida de uma floresta verdejante.
Chegamos ao largo de Mocimboa da Praia, a 10 de Maio. Termina aqui o 1º. Capítulo da nossa “aventura” Marítima. Um imenso areal impede a aproximação do navio ao cais. A descarga de bens e pessoal é feita com o apoio de várias barcaças, que num vaivém permanente, colocam tudo e todos no cais.

Pouco antes de aqui chegarmos, a azáfama e as preocupações eram imensas. Era o equipamento, os sacos a mala, receber e dar ordens num corrupio infernal que promoviam certa desorientação.

Quando se dá o início da descida, em fila e um de cada vez, super carregados, por uma escada “portaló” que vista de cima era de uma altura que nos arrepiou, digo mesmo que me atemorizou, fomos descendo até as barcaças que nos esperavam e nos conduziam a terra.

Quando a pisei, senti um misto de alívio e liberdade, as péssimas condições do navio, aliado a cheiros, à comida e à longa viagem, contribuíram para esse sentimento.

Em terra, somos confrontados com ordens e contra ordens, num constante rodopio de movimentos que se destinavam a dar ordem e disciplina à desordem reinante. Passado algum tempo, horas talvez, tudo voltou à normalidade. Fomos dispersos e condicionados em locais onde dormimos no chão.

A noite foi longa, pela manhã assumimos as viaturas que nos destinaram, eram largas dezenas e de vários tipos, num percurso em picada de cerca 200 km, partimos então em direcção a MUEDA, que nos levou 2 dias a alcançar.

A coluna militar, composta por centenas de militares (chekas) os quais foram por ela distribuídos, levava também bagagens e toda uma logística de apoio ao esforço da guerra. As indicações que nos transmitiram foi de manter a arma em posição de fogo e prestar muita atenção à possibilidade da existência de minas pessoais e, em caso de ataque saltar para o mata e aguentar.

Toda essa concentração e cuidados só foram possível mantê-los durante algum tempo. O calor, o cansaço, a picada e a própria pressão levaram-nos ao descuido, descontracção e a certa displicência.

Certa altura a coluna parou, olhamos uns para os outros e num impulso simultâneo saltamos para o mato. As necessidades fisiológicas foram o pretexto para tal risco, mas, olhando a mata demos pela presença de uma laranjeira carregado de laranjas. Foi um assalto, bolsos cheios até não poder mais, voltamos as viaturas, não faltando um aviso de um dos oficiais que por ali se encontrava, sobre a imatura e perigosa atitude.

Retomada a marcha, distribuímos as laranjas por aqueles que não tinham ido ao “assalto”. A sua cor amarela não iam enganar e pensamos… excelentes. Abertas as laranjas, a avidez provocada pela secura que nos ia na garganta era grande, levamo-las rapidamente à boca e, eis que num ápice cuspimos o que tinha-mos na boca. Afinal o que aconteceu? As laranjas eram amarelinhas mas o seu interior era amargo e com muita acidez. Só mais tarde vim a saber, em Mueda, que as laranjas daquela região são comidas após maior maturação e mudança de cor.

Certo dia pela tarde, chega-me a informação de que estou mobilizado para Moçambique e que devia preparar-me para me apresentar no dia seguinte no B. Caçadores nº. 10, em Chaves. O meu destino final era o BCaç.1916, Compª. 1710.

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