POESIA AO AMANHECER (31) – por Manuel Simões

Ruy Duarte de Carvalho – Angola

( 1941 –   )

ENSINAMENTO ORAL DO KORÉ (A VOZ DOS KARAW)

Terceira tirada

Como o punho da lança

como abóbada celeste

como o filho único da altura

acalmai-vos, eis-me aqui

oh sopradores do crepúsculo.

Abóbada celeste

filho único da altura

ave surda-muda

labareda acesa que não atinge o osso.

Obscura é a palavra

embainhada até para os velhos mestres

e mesmo o fundador

foi procurar sabê-la mais além.

Há coisas úteis na casa do amigo

e há coisas úteis na do inimigo:

não será pois de recorrer às duas?

Pela paz se alcança a paz

e o que há para além da paz.

Labor imenso!

Transformação!

O que se ensina agora existe desde sempre.

E é casa já também

o pátio que precede a construção

(de “Ondula, savana branca”)

Poeta, ficcionista, cineasta e antropólogo, com frequência a sua poesia resulta do tratamento concedido a testemunhos da expressão oral africana. Foi um dos autores que contribuiu decisivamente para a modernidade da poesia angolana no início da década de 70. Fez a sua estreia como poeta com “Chão de oferta” (1972), a que se seguiram: “ A Decisão da Idade” (1976), “Exercícios de crueldade” (1978), “Sinais misteriosos…já se vê” (1980), “Ondula, Savana Branca” (1982), “Lavra Paralela” (1987), “Hábito da Terra” (1988), “Ordem de esquecimento” (1997) e “Observação directa” (2000). Em 1989 recebeu o Prémio Nacional de Literatura de Angola.

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