Ruy Duarte de Carvalho – Angola
( 1941 – )
ENSINAMENTO ORAL DO KORÉ (A VOZ DOS KARAW)
Terceira tirada
Como o punho da lança
como abóbada celeste
como o filho único da altura
acalmai-vos, eis-me aqui
oh sopradores do crepúsculo.
Abóbada celeste
filho único da altura
ave surda-muda
labareda acesa que não atinge o osso.
Obscura é a palavra
embainhada até para os velhos mestres
e mesmo o fundador
foi procurar sabê-la mais além.
Há coisas úteis na casa do amigo
e há coisas úteis na do inimigo:
não será pois de recorrer às duas?
Pela paz se alcança a paz
e o que há para além da paz.
Labor imenso!
Transformação!
O que se ensina agora existe desde sempre.
E é casa já também
o pátio que precede a construção
(de “Ondula, savana branca”)
Poeta, ficcionista, cineasta e antropólogo, com frequência a sua poesia resulta do tratamento concedido a testemunhos da expressão oral africana. Foi um dos autores que contribuiu decisivamente para a modernidade da poesia angolana no início da década de 70. Fez a sua estreia como poeta com “Chão de oferta” (1972), a que se seguiram: “ A Decisão da Idade” (1976), “Exercícios de crueldade” (1978), “Sinais misteriosos…já se vê” (1980), “Ondula, Savana Branca” (1982), “Lavra Paralela” (1987), “Hábito da Terra” (1988), “Ordem de esquecimento” (1997) e “Observação directa” (2000). Em 1989 recebeu o Prémio Nacional de Literatura de Angola.

