EM TEMPO DE CRISE, DE FARO COM TRISTEZA, COM RAIVA E COM AMOR, TAMBÉM. Por Júlio Marques Mota.

(conclusão)

PARTE IV

Como exemplo da combinatória Estado nacional e movimentos de capitais, em que o Estado nacional tem com função principal “regular”, ou seja  garantir a desregulação que interessa aos capitais, ele, Estado,  é então a garantia de que esta desregulação  chega a bom porto, e como exemplo  temos a reforma de desregulação anunciada   para a City por Gordon Brown, em Maio de 2005,  garantindo-se por essa via que a situação inglesa seria então caracterizada pela linha  cujos extremos são mobilidade de capitais e Estado nacional. “

E de repente, digo ao meu amigo mais recente de todos os que tenho ou que ainda não tenho. Esta  é também a situação de Portugal neste momento,  ou seja de Estado nacional autónomo com desprezo  total pelo que é a Democracia e com um  respeito absoluto pelas exigências estabelecidas e impostas  pelos mercados de capitais, o lado da parte do baixo do triângulo acima. A Democracia assim vai embora, ou melhor, já se foi embora. Talvez a cortiça, a deslocalização desta indústria se insira neste quadro. Repare que a função do Estado neste esquema é a de garantir que toda a liberdade é dada aos capitais  e o resto, todo o resto, toda a sociedade se deve sujeitar aos interesses que estes expressam e não é pois por acaso que alguns já chamam ao sistema actual a ditadura dos mercados. Mas repare-se que há aqui um outro exemplo bem característico : olhe para aquele prédio em obras de restauro, que está ali em frente. Se a fiscalização do Ministério do Trabalho ( será que esta existe ?) aqui aparecesse  metade dos trabalhadores desaparecem, estão ilegais e ilegais neste  trabalho também. Tudo faz parte do mesmo: a desregulação absoluta. Os trabalhadores nacionais são  rejeitados porque se consideram com direitos e não aceitam posições de escravatura, sendo a seguir forçados a ir para os centros do desemprego, os outros  trabalhadores  na sua maioria entrados ilegalmente são bem vindos  a este mercado ilegal forçando os custos de mão-de-obra a preços inauditos, como por exemplo, a 10 euros por dia de trabalho. A criação assim de um mercado mundial de trabalho num quadro de recessão leva  obrigatoriamente a que a mão-de-obra aceite remunerações em saldo. Ora a situação de quadro político e económico caracterizado pela linha de baixo do triângulo acima é aquela que  vigora neste momento em muitos dos países da zona Euro sendo assim e INTENCIONALMENTE a crise utilizada  como uma ferramenta para destruir o modelo social europeu. Viro-me para os meus amigos e acrescento: se formos à zona de Chelote, perto de Faro, se formos  às múltiplas  estufas, se virmos aquelas mulheres às centenas em fila percebemos que nunca terão as câmaras de televisão como as dos jogos olímpicos, não terão  estandartes, não terão  palmas, são gente do mundo que a nada tem direito para além da precariedade absoluta como garantia. Tudo isto faz parte do mesmo esquema do nosso triângulo acima, concluo.

Viro-me e fixo os meus interlocutores. Não é só o nosso Gaspar, que claramente nada tem a ver com  Belém nem com Cristo,  a defender a submissão á lógica internacional do mercado de trabalho nacional. Mão amiga recomendou-me o Boletim do Banco Central Europeu do último mês de Agosto e que se pode ler aí? Reparem:

“Em relação à competitividade, dado o nível baixo de competição, mais reduções significativas nos custos unitários do trabalho e excesso nas margens de lucro são particularmente urgentes, especialmente nos países onde o desemprego é muito elevado. Para conseguir isso, em primeiro lugar, a flexibilidade no processo de determinação dos salários tem de ser reforçada, por exemplo, se for o caso, pelo relaxamento da legislação da proteção do emprego, a abolição dos mecanismos de indexação de salários, a redução dos salários mínimos e a permissão da negociação salarial ao nível da empresa.”

Mais explícito não se pode ser ao nível das Instituições europeias a querer-nos enviar para o modelo social do Sueste Asiático ou, no nosso do nosso triângulo, a enviar-nos para a linha de baixo em  que os Estados nacionais na sua submissão à lógica da mundialização se afastam cada vez mais da Democracia.  E não será que em termos  de Democracia, Bruxelas não é também já uma miragem, bem longe dos ideais dos seus fundadores, Monet  e Schumann, bem longe dos seus dinamizadores, Delors, Helmut Schmidt, Mitterrand?  Não estará aqui o nó górdio da questão?

E de Faro com amor também.

Mudo de assunto, viro-me para o meu amigo carpinteiro já gasto de tanto trabalhar em talha dourada e com madeira cuidadosamente bem cortada e digo-lhe. Um amigo meu está a recuperar uma Igreja. O trabalho é delicado. Arranjo-lhe trabalho para um mês talvez. Que acha?

Todos nos calámos. Sabíamos que tinha dois filhos em idade de final de adolescência, sabíamos que tinha uma mulher também ela cansada de limpar escritórios e casas dos seus proprietários, martirizada ela pelas quimioterapias, pelas radioterapias. Sabia tudo isso.

Gostava, precisava, balbucia.

Gostava?

Enquanto questiono olho pelo canto do olho não a televisão que o jogo já tinha acabado, mas as mãos daquele homem que naquela noite se retorciam com alguma dor patenteada na cara e escondida nas mãos retorcidas. E de repente na minha cabeça, Fiat Lux, entendi!

Aguardei a resposta. Diz-me: e se eu levasse um outro profissional comigo. Sempre era metade do tempo.

E metade do dinheiro acrescento eu.

Certo, mas sabe tenho dois filhos em idade um pouco difícil, tenho uma mulher doente que de repente pode precisar de mim. Carta de condução não tem, mas nestes casos de que lhe serviria, se precisasse de urgência? Se precisasse de uma companhia que a levasse ao Hospital?

E de novo vejo as duas mãos a apertarem-se e uma tristeza no olhar que na noite não procurava a luz do sol que não havia, que na noite procurava o infinito onde alojar a sua angústia, a angústia de ficar solidário na dificuldade mas que essa angústia lhe queimava as entranhas das suas necessidades financeiras. Optar! Aqui nenhuma arbitragem seria possível assumir ou aconselhar por alguém. Estamos no domínio do que é profundamente pessoal. E de repente eu compreendi, que foi com homens e mulheres deste calibre que se venceu a selvajaria dos tempos de outrora, que é com homens e mulheres deste calibre que se luta contra os impasses de agora, que é com homens e mulheres deste calibre que se há vencer as dificuldades do futuro e que foram todos eles a que ao longo dos séculos transportaram  o estandarte a letras douradas que nos indica o sentido de Civilização. E Fiat Lux, de repente percebi que a História não é só a luta de classes como o proclamava Marx, a história é também a história de homens e mulheres singulares que sabem dar individualmente sentido à palavra solidariedade e porque não, á palavra AMOR, também.

E escolheu, levar o amigo com ele.

Face a esta resposta, penso que escolheu receber apenas metade do valor da pequena empreitada para reparar uma Igreja e para reparar um Cristo que nela estava materialmente degradado, muito degradado mesmo pelo sentimento da realidade económica e social do presente. Ironias de um destino amargo, o da reparação de Cristo aqui em questão e na situação em questão. Só um homem com a disponibilidade de uma criança encantada por um finalidade por ela sonhada e bem desejada, só um homem  com mãos finas de uma verdadeiro relojoeiro capaz de construir o relógio do Mundo, só um homem com a habilidade do artista capaz de refazer num só quadro as pinturas por todos os grandes artistas sonhadas, só um homem  com uma  alma e uma bondade de um tamanho que vai para além dos limites deste mesmo  mundo será talvez capaz de reparar este  Cristo muito degradado. Será isso agora possível?

Portanto, de Faro, com amor também. E é tudo.

Júlio Marques Mota

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