Júlio Marques Mota, Professor catedrático na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, é um colaborador assíduo que não precisa de ser apresentado.
Por favor não me ofereçam um Ferrari. Todos nós hoje sabemos que a Europa está em vias de capitular face ao domínio global do Sueste asiático e mais particularmente da China. As entradas para o domínio comercial e industrial para a Europa estão-lhes a ser oferecidas. Sines pertence aos asiáticos, de Singapura, creio, os portos de Pireu pertencem directamente à China, oHavre em França segue o mesmo destino. A zona da antiga base da NATO perto de Poitiers, será um grande entreposto comercial chinês, Londres aguarda a chegada de investimentos chineses para desenvolver as suas infra-estruturas, os parques de energias renováveis instalam-se pelos países europeus que foram decapitados pela política de austeridade imposta por Bruxelas e desejadas pelos mercados financeiros , Portugal, Grécia, Irlanda, grande parte das patentes europeias sobre fibras ópticas foram compradas pela China, possivelmente posicionar-se-ão como compradores da ANA e da TAP, quem sabe, o fundo soberano de investimentos chineses para a Europa, CIC, avisa, que estão mais interessados na aquisição de empresas do que em comprar directamente a dívida pública, e com essa posição fazem disparar as taxas de juro, daí o falar-se agora em crise da deflação da dívida pública, e para rematar o ministro da Economia alemão considera que a China já fez um grande esforço em valorizar o yuan! Só se diz isso porque a China ainda não arrasou o mercado europeu de automóveis made in China, tão bons ou melhores do que os que são produzidos na Europa e a metade do preço.
Com a capitulação do continente europeu criada pela desregulação dos mercados globais e acelerada pelas políticas de austeridade impostas por Bruxelas como se essa capitulação fosse o seu objectivo final, ecom as chaves da Europa a virem depois a serem entreguespor Merkle, Durão Barroso e Christine Lagarde aos senhores Hu Jintao e Wen Jiabao, vai haver mudanças na Europa e o quadro de valores pode ser aquele que é praticado pelas altas instâncias do poder na China. Nessa hipótese ter um Ferrari pode vir a ser um perigo. Por isso, por favor, não me ofereçam um Ferrari.
Mas, pelo sim pelo não, podem mesmo assim serem tentados e então aqui vai uma fotografia.
Na China os Ferrari são de mau agoiro – por BricePedroletti
(Pequim, correspondente)
Apresentação de um Ferrari 458 Italia emNankin, na zona Este da Chinaem Maio de 2012.
É pelosFerrari que os escândalos aparecem na China comunista: o Ferrari de cor vermelha, em que BoGuagua, o filho de BoXilai, supostamente utilizou para um encontrocom a filha do embaixador americano em Pequim, no início de 2011, era – quando a fotografia do Ferrariapareceu como “caixa” do Wall StreetJournal, 26 de Novembro do mesmo ano –o prenúncio do colapso da famíliaBo.Xilai
Quando a informaçãose verificou ser parcialmente falsa, vários meses depois, o casal BoXilai já estava envolvido numescândalo ainda mais terrível e vertiginoso: o assassinato do inglês Neil Heywood.
É novamente um Ferrari que ensombra o debate político na China: um Ferrari, de cor preta, ao volante do qual estava LingGu, 20, filho de um outro executivo do Partido Comunista Chinês (PCC), LingJihua, ter-se-á matadona madrugada de 18 de Março, acompanhado por duas jovens numa via periférica de Pequim.
A lei do silêncioque tinha envolvido na altura o acidente provocouum frenesi de especulações na Web sobre a identidade do falecido, que desde essa altura nãofoi confirmada. As duas jovensficaram gravemente feridas.
Lutas pelo poder na proximidade do 18º Congresso
LingJihua é, nada mais nada menos, o chefe da direcção-geral do comité central do PCC, o equivalente a chefe de gabinete do presidente chinês. Ele é originárioda Liga da juventude,[ os Jotas que em Portugal todos nós conhecemos bem] a que também pertenceuHu Jintao – ooposto do “filho do Príncipe”, de que BoXilai era um dos representantes.
Isto faz seguramente mais de dois meses, que circulamnos media chineses de além-mar, caixa de ressonância dos tabus do mundo político, rumores sobre o envolvimento do filho de LingJihua no acidente.
Um professor de relações internacionaisda Universidade de Pequim, que ensinoualgumas disciplinas a LingGu em 2007-2008, falou ao LeMonde ,sobre a confirmação por colegas do jovem em que,segundo estes, LingGunão vem às aulas desde meados de Março.
A atribuição de seu pai LingJihua, em 1 de Setembro, a uma nova posição política, ade chefe de departamento da Frente Unida do PCC- encarregado das ligações com as minorias étnicas e com as “entidades não-comunistas” –relançou o caso, segunda-feira, 3 de Setembro, nas páginas do jornal em inglês deHong Kong, o South China MorningPost.
LingJihua, 55 anos, de que se falava para a Direcção Política do PCC , até mesmo para o seu Comité Permanente aquando do 18ª Congresso em18 de Outubro, foi assimmarginalizado.
Outros analistas sãomais cautelosos: as alterações nas posições à frente dadirecção-geral tiveram lugar em Setembro. E, pelo menos, um ex-chefe do departamento daFrente UnidaLiuYandong,acedeu à Direcção Política do PCCem 2007.
Uma coisa é clara: o caso confirmaa intensidade das lutas à medida que se aproxima realização do Congresso. “Estes ataques contra os filhos dos líderes são uma maneira de esconder a natureza política dos confrontos”. “Prefere-se alvejar mais o estilo de vida do que oas filiações políticas”, observou o sinólogo Jean-Philippe de Beja, a viver emPequim.
Brice Pedroletti (Pékin, correspondant), En Chine, les Ferrari sont des mauvais présages, Le Monde, Setembro de 2012

