DIÁRIO DE BORDO de 16 de Setembro de 2012

Incontornável, como se costuma dizer, o tema das manifestações de ontem. Os números são impressionantes e um pormenor que deveria preocupar o governo é que não houve a habitual manipulação de partidos e sindicatos. Se a houve, ficou submersa na indignação genuína. Centenas de milhares de pessoas em quarenta cidades, numa das maiores provas de descontentamento popular que ocorreram no nosso País. Fala-se em 660 mil pessoas. Havia a palavra de ordem da organização, pouco criativa, sem qualidade – «Que se lixe a troika!». Mas ficou submersa no meio de milhares de outras que cada um criava a seu gosto. Houve de tudo – petardos, pedras e garrafas arremessadas, e até o esboço de uma imolação pelo fogo – cépticos como somos sobre a eficácia das manifestações, não podemos deixar de avaliar esta movimentação popular como um indício de que há um vulcão prestes a entrar em actividade.

O PSD desvaloriza o que aconteceu ontem. É um erro grosseiro de avaliação ou então é uma posição táctica. Disparatada. O presidente da República convoca o Conselho de Estado. Oxalá a Esquerda não faça também uma má avaliação. A Esquerda, temo-lo dito, não pode estar dividida por princípios ideológicos que nenhum sentido fazem no contexto social e histórico que vivemos. Lenine, Estaline, Trotsky, Mao-tse-tung não são para aqui chamados. Se não se unir e enfrentar a hidra capitalista, a Esquerda não serve para nada – é um ornamento parlamentar a legitimar o simulacro de democracia em que vivemos.

Este governo vai cair. Mas se é substituído por um executivo PS, sobretudo se liderado  pelo actual secretário-geral, tudo fica na mesma.  – o PS é uma «sensibilidade» do Partido único que desde há décadas nos oprime. Tem socialistas no seu interior, mas estão arredados do centro de decisão.

Unidade de Esquerda. Não uma Frente nem uma plataforma. Os movimentos e partidos de esquerda ou se libertam das respectivas tralhas ideológicas e se fixam na realidade objectiva, ou não vão a lado nenhum. Ontem, a escumalha neo-liberal foi avisada. Seria bom que a Esquerda acordasse.

2 Comments

  1. Faz-se com frequência comparação das manifestações de dia 15 com a do Primeiro de Maio de 1974. Em termos de números talvez não se tenha atingido o mesmo volume. Mas, mais importante do que o volume de manifestantes, é o espírito de unidade que ainda existiu nesse distante Primeiro de Maio e o que parece ter prevalecido nas manifestações de anteontem. Políticos e dirigentes sindicais foram assobiados. Ou o sectarismo partidário e o carreirismo político são ultrapassados e erradicados, confinados, ou quando este miserável governo cair, logo aí teremos o circo montado e tudo preparado para que outros carreiristas, corruptos e incompetentes, trepem ao poleiro – e tudo começa de novo…

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