SENILIDADE DO CAPITALISMO – 4 – Entrevista a Samir Amin – por Pedro Oliveira

(Conclusão)

Com a necessidade de o sistema aplicar a violência não há o perigo de que se instale algum tipo de neofascismo?

Samir Amin – Talvez, não sei, depende da luta. Apesar de estar preocupado – eu não sou um especialista na perspectiva da cultura – não creio que mesmo nos EUA, com todas as limitações deles, se chegue a esse ponto. Quanto à Europa, sou mais otimista, pois há tradições político-culturais do partido, da esquerda, que não permitiriam que as coisas resvalassem assim. A democracia quase se torna uma piada com as eleições, e pode gerar uma ditadura odiosa, que as pessoas receberiam com prazer, pensando: “vamos massacrar”. Mas, ao mesmo tempo, essa democracia da tradição radical inscreve-se totalmente no neoliberalismo. O resultado: a Argentina de hoje. Qual é a saída? Há duas: uma ruim e outra boa. A ruim é o restabelecimento de uma ditadura violenta, para chegar à mesma coisa: ao neoliberalismo. Na verdade, é o que os americanos e os europeus querem. E, provavelmente, é o que quer a classe dirigente argentina, seja ela ex-peronista ou ex-radical. Percebe-se, assim, que todos os discursos sobre o mercado, sobre a democracia, podem levar a uma ditadura, não necessariamente militar, mas policial. Essa é uma saída possível. A segunda saída, à esquerda, passaria pela convergência muito ampla de forças políticas e sociais, englobando as classes populares – o principal setor – e as classes médias usadas pelo neoliberalismo. Elas poderiam impor a democracia, com uma conotação social – não diria socialista. Ou seja, com a redistribuição, a retomada da produção, com a proteção ao mercado interno, aspectos necessários na Argentina. Isso seria remar contra a maré, porque as forças políticas argentinas foram tão massacradas e assassinadas pela ditadura, que para as forças democráticas que emergiram dela não será fácil construir um futuro diferente, humanizado. Não digo que seja impossível. É difícil, e desejo que consigam. Isso significa que chegamos a um ponto em que a democracia burguesa, sem conflitos sociais, ou se torna social – com o socialismo –, atendendo às necessidades reais das pessoas, de forma objetiva, o que não significa que será construída em dois tempos – mas há gestões burguesas possíveis – ou, de outra forma, será construída pela violência.

Talvez fosse bom destacar a cumplicidade europeia.

Samir Amin – Sim, até agora é um fato, e se acentuará se o projeto europeu for tomado ao pé da letra, pois as burguesias européias vivem desse projeto de construir a grande Europa, a maior potência econômica, sobre uma base de tradição democrática, etc e tal. Eu uso o termo retraimento do projeto europeu. Actualmente, eu chamo o projeto europeu de vôo europeu com um projeto americano. Não existe mais distinção, seja no nível econômico, com o controle de todas as instituições econômicas, e agora o principal é o Mercado Comum Europeu. Eu chamo o Banco Mundial de Ministério da Propaganda, pois se encarrega de fazer discursos do tipo: “vamos cuidar dos pobres, da pobreza, da saúde”. O fomentador, como não administra a relação dólar, euro, marco e iene, é uma autoridade monetária colonial exercida sobre os outros. O outro fato é o Clube de Capital Transnacional, com um único Estado por trás: os EUA. A gestão econômica agrada aos europeus, como vimos no episódio do Comitê Europeu, que convocou os fundos europeus, e associou-se aos americanos para pressionar o Terceiro Mundo. E agiu de forma européia. Os governos europeus, incluindo-se aí os governos socialistas, preocupam-se com a política da gestão econômica, sob o comando americano, o que é uma posição que pode lhes proporcionar um capital transnacional europeu. No domínio político-comunitário temos a OTAN, que se tornou a expressão da comunidade internacional. E o que é a OTAN? É uma aliança assimétrica de governo. Não se concebe a OTAN intervindo sem a bênção americana. É inconcebível! No entanto, aceita-se o pacto. Será durável? Eu, que sou otimista, acho que não. Não porque o capital transnacional europeu entre em conflito com o americano. Essa é uma ilusão, mas uma ilusão alimentada pelo nacionalismo europeu, que quer fazer valer o euro e a futura força armada européia. E a diferença entre o euro e o dólar é a fragilidade do projeto europeu. Atrás do dólar há um Estado: o Estado americano. Há um Tesouro, que é o Tesouro americano. Há um presidente, que é o presidente dos EUA, que toma as decisões. E o que há por trás do euro? Um conglomerado de banqueiros irresponsáveis, mesmo perante seus próprios governantes, mesmo diante do governo europeu, que não existe. Portanto, não é nada. Parece piada. Mesmo as pessoas de esquerda da Europa, mais precisamente da França, defenderam idéias européias e não francesas. É claro que os europeus podem constituir-se numa força militar comum européia, pois eles têm a tradição militar, mas não é preciso aprender o francês ou o alemão quando se entra numa guerra. Nisso, eles podem ser melhores do que os americanos e fabricar uma força militar européia. Mas a questão não é essa. A quem obedeceria esse exercito europeu? Um general pode ser francês ou alemão, pois eles têm uma boa tradição, mas não é esse o problema, e sim o comando político: o vôo europeu dos americanos. Na minha opinião, uma mudança não pode ocorrer a partir de um credo ingênuo e, infelizmente, ele se manifesta até na esquerda na Europa. O capital transnacional europeu tem seus interesses próprios. Eles têm interesses comuns com o capital transnacional americano e sabem disso. Eu havia dado o exemplo de Tony Blair, que fez de sua aristocracia operária o que antes haviam feito com os hindus. O francês não caminha com os americanos na mídia, reivindica a exceção cultural, assumindo interesses intelectuais que não entram em contradição frontal com o capital. Mas a Europa não é só o capital europeu. Na minha opinião, o sucesso do Attac como movimento social assinala a diferença. O partido socialista e o governo socialista fazem uma política neoliberal hegemonista, em sentido único, e neste momento em que o partido comunista aceita o governo socialista e mesmo se teoricamente, na retórica, há alguma reticência verbal, ele está no governo, aceitando a mesma política neoliberal hegemónica americana. Attac actua politicamente fora do partido de esquerda, das forças da esquerda e, em alguns meses, recebeu o apoio de milhões de militantes reais, mais do que os do partido comunista ou de outro partido qualquer, a tal ponto que são os outros que lhe vão fazer a corte, com todo o perigo que isso comporta. É só um exemplo, pois sabemos que eles não farão uma revolução. Mas nós sabemos que na Europa há um potencial de rejeição real ao neoliberalismo americano. Na minha opinião, vai acontecer algo. Como e quando, não sei. A priori não quero dizer que serão os partidos comunistas que irão se regenerar e salvar a sociedade, ou se serão os outros. Não quero dizer nada nessa linha, porque não tenho uma bola de cristal, mas talvez nem um lado nem o outro faça nada, o que seria uma catástrofe. E isso pode acontecer na nossa história, mas acho que há um potencial real na Europa, que conserva a esperança.

Qual é o papel da China?

Samir Amin – Faz um ano que não disponho de muita informação nova a respeito da China. Li um artigo, em várias línguas, com um ponto de interrogação a respeito do “socialismo de mercado”, que é a expressão oficial e as alternativas não são finais, mas são como etapas ou uma transição. Li a colocação das condições que poderiam ser aceitáveis ou não uma solução definitiva, uma última etapa como o momento actual, com a condição de que o socialismo de mercado seja uma combinação da produção capitalista e de regulamentação social – não socialista, social – e natural, isto é, assegurar pelo menos o direito da regulamentação da distribuição da renda em grande escala, com 1. Uma redistribuição das redes de abastecimento de água, para atender as populações desfalcadas pela história e pela geografia; 2. Assegurar a solidariedade nacional; 3. Um grau de controle das relações com o exterior, que permitiria impedir ser subalternizado pelo capital internacional dominante. Quando examinamos esses três elementos, na realidade chinesa nos últimos vinte anos, o efeito é discutível, pois não é nem zero nem 100, fica nos 50, isto é, há uma dimensão desse peso político de regulamentação real e forte. É o motivo pelo qual há quem não esteja satisfeito com a China. Os americanos estão berrando a troco do quê? Se não estivesse acontecendo nada, não se incomodariam, mas muitos chineses dizem – com todo o direito e com razão – que é muito pouco, principalmente em nome da democracia comunista. É uma democracia que não renunciou ao utopismo comunista. Quem pensa dessa maneira? A classe dirigente, o establishment chinês pensa poder concretizar esse sonho sem necessidade de falar. ___________ [*] Pedro de Oliveira é jornalista e membro da direção nacional do PCdoB.

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