CARTA DE PARIS – PELOS CABELOS – por Manuela Degerine

Ilustração: Maria Madalena (igreja de Notre-Dame de Écouis).

Acaba de ser inaugurada em Paris, no museu do “Quai Branly”, uma exposição organizada pelo comissário Yves Le Fur: “Cheveux chéris” (Queridos Cabelos).

Lisos ou frisados, presos ou soltos, curtos ou compridos, ruivos ou brancos, naturais ou coloridos, os cabelos exprimem o nosso corpo, a nossa personalidade, o nosso estatuto, a nossa saúde, isto é, resultam de uma herança, de um estado, de uma opção individual, mas também nos inserem numa época e numa cultura, agindo perante imagens e valores coletivos – mesmo quando os negam. A cabeleira comprida e a cabeça rapada, como Yves Le Fur o lembra, podem ter, consoante o contexto, conotações equivalentes: “os cabelos compridos tanto afirmam o selvagem como o artista, o sem-abrigo, o rei franco ou o eremita. A renúncia pode manifestar-se pela tonsura ou pelo crescimento do cabelo. A cabeça rapada pode representar o monge, o bonzo, o skinhead.” A partir de um número limitado de possibilidades, cada indivíduo ou sociedade atribui-lhes, num determinado momento, um valor dentro do seu sistema.

Esta exposição traça-nos uma antropologia do cabelo através da pintura, da fotografia, da escultura, de múltiplos objetos e de elementos multimédia. Começa com um confronto de esculturas negras e brancas, representando europeus, africanos, asiáticos: sublinhando a variedade – e a estética – da aparência capilar. E estrutura-se em três partes.

Na primeira – “Frivolidades?” – encontramos a loira, a morena, a ruiva e seus respetivos estereótipos: o anjo loiro, a morena aventureira, a ruiva diabólica… Representadas por numerosas imagens.

A cor, o tamanho e o modo de pentear o cabelo aparecem, ao longo da História, como símbolos de sedução ou de perdição, de virtude ou de pecado, de poder ou de renúncia. Lembremo-nos de Sansão e Dalila, por exemplo. De Maria Madalena, cuja cabeleira primeiro simboliza o pecado e, depois do encontro com Jesus, passa a representar a penitência; vemos uma escultura de Notre-Dame d’Écouis: os cabelos ocultam todo o corpo da Santa. De Luís XIV e suas perucas. Das convenções: até ao século XX as tranças ou carrapitos sugeriam um controlo dos instintos femininos; o cabelo solto era reservado à intimidade e por conseguinte erotizado. Talvez por isso a escritora e fotógrafa Ella Maillart, da qual vemos o retrato de uma “rapariga da juventude comunista”, criticasse a imposição do lenço às mulheres – numa Rússia que apregoava a igualdade dos géneros.

Na nossa sociedade a mudança de género é ainda realçada pelo penteado, cabelo curto masculino, cabelo comprido feminino, embora esta distinção já não tenha conotações de género.

A segunda parte da exposição – “A perda” – põe em evidência as figuras da renúncia. O corte do cabelo feminino foi, durante séculos, um signo de morte simbólica: as mulheres cortavam-no quando entravam para o convento e algumas ofereciam-no à família. E no fim da Segunda Guerra, em França, houve cidades onde o raparam publicamente às mulheres que tinham sido amantes de alemães. Aliás a perda do cabelo, durante uma doença ou quimioterapia, é angustiante para os doentes; mesmo sabendo-a transitória. E algumas fotografias expostas bem o lembram: o envelhecimento conduz à perda do cabelo.

A terceira parte da exposição – “Poderes do Cabelo” – mostra como noutras sociedades (Congo, China, Equador, Índia, etc. ) ele é utilizado em acessórios, preso, solto ou tecido. Em contextos rituais os cabelos adquirem poderes mágicos e são por isso usados em colares, amuletos, armas e túnicas; e servem igualmente de mediadores com o Além.

A exposição “Queridos Cabelos” pode ser visitada em Paris no museu do “Quai Branly” de 18 de setembro de 2012 a 14 de julho de 2013. Não voltaremos a olhar distraidamente para o cabelo – o nosso e o dos outros.

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