Joseph Stiglitz é um senhor de quase setenta anos, que parece ter feito algumas coisas importantes na vida. Entre elas, contam-se uns trabalhos que demonstram o funcionamento assimétrico dos mercados e que estes só funcionam perfeitamente em circunstâncias excepcionais. Pôs assim em causa a teoria económica clássica, que assente no princípio do funcionamento perfeito dos mercados. Foi por isso que recebeu o Prémio Nobel da Economia em 2001, em conjunto com George A. Akerlof e A. Michael Spence. Tenham presente que essa teoria económica clássica é um dos principais suportes ideológicos dos governos da UE, com destaque para o português.
Em Maio do ano passado escreveu um artigo para a Vanity Fair intitulado Of the 1%, by the 1%, for the 1%, portanto, Sobre os 1%, pelos 1%, para os 1%. Nesse artigo começa assim: “Os americanos têm observado protestos maciços contra regimes opressivos que concentram riqueza maciça nas mãos de uma pequena elite. Mas na nossa democracia, 1 por cento das pessoas levam quase um quarto do rendimento da nação – uma desigualdade que os próprios ricos vão acabar por lamentar.”
O título do artigo levou ao lema dos Occupy Wall Street: Nós somos os 99 por cento. Assim saltou à vista de toda a gente o terrível conflito de classes que está a destruir o nosso planeta, pois é verdade que, apesar de toda esta exposição aos olhos da opinião pública, a maioria das pessoas continua descrente, não só dos políticos em geral, mas mesmo das possibilidades de inverter esta situação, deixando-se arrastar pelas gigantescas operações de lavagem ao cérebro postas em acção através da comunicação social e dos restantes sistemas de reprodução ideológica, que funcionam integrados nas diferentes instituições e sistemas sociais em que nos integramos.
Joseph Stiglitz não aparenta o perfil de um ideólogo político. Deu uma excelente entrevista para o El País do domingo passado (a Sandro Pozzi e Colin McPherson), dia 16 de Setembro, em que recorda que a desigualdade num contexto de crescimento económico foi o tema da sua tese de doutoramento. Afirma ainda que o sentimento que está a apoderar-se de muitos americanos de se estar a esfumar o sonho de uma sociedade de igualdade justa, de igualdade de oportunidades, é para eles devastador. É claro e directo a afirmar que a austeridade vai rebentar com a economia, e que isso se está a ver na Espanha, na Grécia ou no Reino Unido (não fala de Portugal). Que reduzir o Governo vai levar os EUA à mesma situação da Europa, e que isso será um desastre. Recorda que até o FMI já percebeu e diz que a desigualdade é má para a economia porque faz aumentar a instabilidade.
Este senhor põe em causa o sistema capitalista, sem dúvida. No trecho do artigo do Vanity Fair que reproduzimos acima denota alguma ingenuidade, parecendo acreditar na possibilidade de, um dia, os ricos lamentarem uma concentração de riqueza tão grande. E a entrevista não incluía nenhuma pergunta sobre o imperialismo. De qualquer modo, Stiglitz diz-nos que quase metade da população norte-americana é pobre ou tem rendimentos abaixo da média. E que os ricos dizerem que compensam a sociedade com obras de filantropia não é alternativa. Dá ideias muito importantes sobre o desastre que é o capitalismo, embora não o renegue. Na entrevista informa que pretende lançar um debate sobre O preço da desigualdade. Como a divisão social põe o nosso futuro em perigo. Será interessante acompanhar.


Num acrescento rápido ao muito bom texto de Diário de Bordo sobre um dos mais importantes economistas da actualidade, Joseph Stigltz, referiram-se aqui três livros fundamentais editados em Portugal, lamentavelmente bem esquecidos, A grande desilusão, edição de uma editora que talvez já não exista, A Terramar, Os Ruidosos Anos 90 , da mesma editora, Tornar eficaz a Globalização editado pela Asa, mais tarde comprada pela Leya, com a qual nada tenho a ver. Mais recentemente publicou Freefall: America, Free Markets, and the Sinking of the World Economy , que constitui uma das melhores obras sobre a crise que já li e mais recentemente ainda publicou The Price of Inequality, livro que ainda desconheço.
Deixo um conselho aos utilizadores desta barca, dou uma sugestão aos leitores que procuram perceber as regiões banhadas pelas águas por onde esta nau viaja, dou um conselho aos que se querem considerar como candidatos a perceberem bem melhor os mecanismos infernais com que a globalização nos tritura, leiam Stiglitz, procurem em saldo os livros citados que em Portugal foram editados e não foram escoados pelos editores, sobretudo a Grande Desilusão. Procurem, não darão o tempo por perdido.
Júlio Marques Mota