EM VIAGEM PELA TURQUIA – 6 – por António Gomes Marques

(Continuação)

«Anulada a contrapropaganda dos amigos de Tiago, Paulo parte de Antioquia da Pisídia para Éfeso. Acompanha-o um novo irmão, Caio, de nome, natural de Derbe. Ao calor do Verão de 53, o grande portador da Boa Nova segue por uma estrada poeirenta: rio de secura, entre margens verdes. Atravessa algumas cidades: Apameia, Colossos, Laodiceia, amodornadas na calmaria doentia. Percorre extensões desertas. Caminha asfixiado, com uma brasa na boca e ilusórios marulhos de água, nos ouvidos. Haverá uma fonte, na terra? Que doce alívio quando se aproxima do Cadmo, coberto de neve! Refresca os olhos na vista da neve, enquanto o suor a ferver lhe escorre da testa aureolada. Atinge as alturas do monte. Desce-o, e sobe nova montanha, que se ergue, entre as águas do Meandro e as do Caistro. É dos seus cumes, também nevados, que Paulo descobre um panorama fabuloso: a Iónia!, o prado da Ásia, de que rezam os sacros versos de Homero, – imenso nome de anónimos pastores… É um panorama transcendente, como a Judeia. A Iónia e a Judeia, o Prado dos deuses e o Deserto dum Deus; a manada e o boi solitário.

Lá está Éfeso, branca de mármore, junto a um lago azul, em comunicação com o mar azul por um canal. Ao norte, a cidade apoia-se nas vertentes do Prion e do Coressos. É para esses lados que se encontra o Serapeum e o anfiteatro; como, para nordeste, já liberto do casario acumulado e além da estrada de Magnésia, o célebre templo de Artemisa, reconstrução do que fora incendiado por Erastrato. Enriquece ainda a bela cidade um teatro, onde cabem cinquenta mil espectadores, o Pritaneu, o Fórum, o templo de Apolo. Nas cercanias do lago, porto de mar, palpitante de asas, alongam-se terras cultivadas e pântanos, com cisnes brancos, anjos a nadar no lodo.

                       

                  O Grande Teatro, a Ágora e, ao fundo, o Mar Egeu

Nas ruas, a mesma turba de Antioquia e das grandes metrópoles de então: judeus, romanos, gregos, egípcios; vadios, soldados, meretrizes, retóricos, tocadores de flauta, dançarinos (o homem saiu do orango, mas o orango não saiu do homem), malfeitores, gladiadores, mercadores e viajantes da Aventura, enamorados das velas dos navios, almas irmãs do vento.

Mas a cidade transborda de povo mediterrâneo e asiático, durante as festas em honra de Diana, protectora de bandidos, servida por eunucos e prostitutas, tão sagradas como ela e a Vénus de Pafos… Havia procissões de ébrios e bacantes e de toda a casta de gente dissoluta, iluminada de uma

 

Ao fundo, o Grande Teatro, o mais antigo do Mundo, com a cávea encostada ao Monte Pion.Em primeiro plano, a avenida onde S. Pauloterá tido a loja para venda dos seus produtos

espécie de misticismo crapuloso. Uma tremenda mascarada, nas ruas, nas praças e em volta do Santuário evolando-se num barulho infernal, que batia de encontro às alturas do Prion, brônzeas, duma seriedade distante, volvidas para além da comédia humana, para além da vida.

Paulo entra nesta nova Antioquia, pela estrada de Hierapólis. Áquila e Priscila recebem-no, de braços abertos, e em sua casa, talvez num desses bairros pobres, que se estendiam desde a estrada de Magnésia até às proximidades do templo de Artemisa, no sopé da colina, que tem hoje o nome de Aía-Salouk. Prometeu voltar e voltou, o que é bem raro, um milagre! Voltar, aparecer mais uma vez, é um milagre que se faz, no ar, como o nascimento da luz, porque nos mostra a esperança radiante.

Paulo abraça-os e beija-os, conforme o rito da amizade cristã. Retoma a sua existência quotidiana. Fabrica coberturas de tendas e anuncia Jesus Cristo, o deus vencedor da morte, libertador dos escravos, remissor dos nossos crimes. A cada palavra do apóstolo, novas figuras se revelam, luminosas, na sombra em que jaziam, apagadas. São figuras novas, rompendo da antiga tela a desfazer-se. Uma delas, é Epéneto, as primícias da Ásia em Cristo. Mas […].

A igreja de Éfeso prospera. Conta novos fiéis, a diaconisa Maria, Trifena e Trifosa, Pérsis, Tíquito e Trófimo. Ganhará uma força irradiadora, como a de Jerusalém e Antioquia.

Paulo continua a sua prédica, num lugar público, cerca do ginásio e da Porta de Magnésia, onde a estrada deste nome desemboca na estrada que liga a cidade ao templo de Artemisa ou de Diana. É ali que ele anuncia Jesus aos transeuntes. Ouvem-no os famintos, como certos enfastiados, que gozaram tudo e a quem tudo enjoa. Atolados em tédio, asfixiados quase, procuram ainda uma tábua de salvação, seja ela uma labareda do inferno. E há labaredas nas palavras do apóstolo. Mas o número dos enfastiados inconformáveis é bem menor que o dos escravos e famintos. Estes também encontram o que desejam, nas palavras de Paulo: um Senhor de natureza divina, ao qual se identifiquem, libertando-se. O que existe é o acto libertador e não a liberdade. O que existe é um esforço contra a escravidão. A liberdade é apenas uma deusa do moderno Paganismo.

Paulo dá aos escravos um Senhor libertador. É o Cristo, enviado do Espírito Santo, ou Deus humanizado, isto é, adaptado ao meio planetário. Assim a luz do sol se transforma em luz de azeite para alumiar o interior escuro dos casebres. Jesus apareceu, no mundo, como o Sol aparece no interior dos casebres, feito lume no ar ou claridade na candeia. O modo é o mesmo.

Jesus, Eros sobrenatural, nasceu da Pobreza, mãe do Amor. Nasceu por invocação angustiosa. Nasceu, chamado pela noite, que é sede de luz; e pela sede de água que é o deserto, irmão do remorso de Paulo. Mas, neste deserto, ondula a seara eterna.

(Continua)

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