“PORQUE A REALIDADE NÃO SUPORTA QUE LHE RESPEITEM AS APARÊNCIAS” – EXPOSIÇÃO SURREALISTA – LISBOA, 1949 – III por clara castilho

 

 

Leio e surpreendo-me. Com a irreverência, com a ousadia (tendo em conta o momento social em que ocorreu), com o humor. E com uma certa saudade, no sentido em que gostaria de ver algo parecido.

Continuo a transcrever .

Os artistas falando:

 ALEXANDRE O’NEILL

 PORQUÊ?

  • Porque perdi o medo de me surpreender.

  • Porque “a poesia deve ser feita por todos, não por um (1)

  • Porque ao sórdido amor mesa-de-família-camade-casal e às convenientes – e, muitas vezes, adversárias – instituições que o servem e que serve, oponho, tanto em mim como nos outros, a feroz realidade do DESEJO.

  • Porque a realidade não suporta que lhe respeitem as aparências.

  • Porque deixei de opor destruição a criação, para ficar a saber que “quem se destrói não se cansa” (2).

  • Etc.

(1)   Lautréamont
(2)   Provérbio surrealista

***

ANTÓNIO PEDRO

 PORQUE SOU SURREALISTA?

 1º – Porque assim me apeteceu.

2º – Porque um dia descobri que no céu só havia nuvens e na terra transformações. Nesse dia, despovoando-se os abismos fictícios da invenção do homem, descobri também que o seu povoamento era conveniente para tudo o que não é conveniente. E porque assim me apeteceu.

3º – Porque um dia descobri que, no homem como nas cebolas, havia uma série de capas sobrepostas para lhe taparem o que, lá dentro, é realmente de aproveitar. Nesse dia, verificando que todos esses entraves eram, de facto, muito mais tenebrosos do que as cadeias em que se fala de liberdade, descobri também que o encontro com a liberdade tem a vantagem de ser inconveniente para tudo o que não é conveniente. E porque assim me apeteceu.

4º – Finalmente, e sobretudo, porque assim me apeteceu.

 

***

FERNANDO AZEVEDO

 PORQUE SOU SURREALISTA?

 Porque, tendo eu a realidade por autêntica, válidas me são as minhas transformações por via dela, e válidas as suas por via de mim.

                                    Nota – Nada se perde, nada se cria: tudo se transforma

                                             (De um Compêndio de Física Elementar)

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