DIÁRIO DE BORDO, 25 de Setembro de 2012

Nos anos sessenta, para alguns de boa memória, para outros nem tanto, nem uma coisa nem outra para os que têm menos de cinquenta anos, a não ser talvez uma ideia vaga de que terão constituído um tempo de grandes fantasias, nos anos sessenta, continua Diário de Bordo, começou-se a falar com bastante insistência nos tempos livres. Tempos livres seriam os tempos do dia em que os cidadãos não estavam nem a trabalhar, nem a dormir, nem a comer. Os tempos do dia em que poderiam pensar fazer algo que não fosse rotineiro, nem obrigatório. Poderiam ser de diversão, de distracção ou de procura de uma ocupação não obrigatória, não essencial à sobrevivência, que desse gosto a quem a desenvolvesse.

O desemprego era baixo na altura, nos países mais industrializados. As chamadas classes médias conseguiam ter acesso a habitação razoável, pôr os filhos na escola, cuidar da saúde segundo padrões razoáveis. Na realidade, não será exagero afirmar que nunca tantas pessoas tinham disfrutado de um nível de vida tão bom. Os meios de comunicação, sobretudo a televisão e o cinema transmitiam para todo o mundo, para os que viviam melhor e para os que viviam pior, essa ideia de que havia muita gente a viver relativamente bem sobre a terra. Esse modo de viver tão atraente incluía o poder dispor no dia-a-dia de algumas horas livres, que se podiam ocupar da maneira mais agradável possível.

Chegou-se a falar numa civilização dos tempos livres. O Público, em 21 de Março de 1999, numa reportagem sobre os Domingos Portugueses, escrevia: “Estamos a caminho da sociedade do lazer? As horas de trabalho diminuem, as reformas antecipadas vulgarizam-se, a indústria de descanso explode…” Realmente a redução do horário de trabalho, o aumento dos salários e dos rendimentos de um número considerável de pessoas permitiram o crescimento de indústrias e serviços ligados à diversão e ao turismo. As actividades culturais conheceram um florescimento inegável. As actividades de ocupação de tempos livres para jovens e também para idosos (chamadas de convívio) foram institucionalizadas. O reconhecimento da importância dos tempos livres foi generalizado.

A crise global que nos afecta desde há alguns anos está a pôr em causa este reconhecimento. Ninguém vai contestar o valor dos conhecimentos que nos podem advir de uma viagem por centros culturais importantes, a importância de ter férias num local diferente daquele onde habitualmente se vive, ou quanto agradável é poder ao teatro ou ao cinema regularmente. Mas a insegurança crescente destes últimos anos está a desviar a nossa atenção destes objectivos, só alcançáveis quando se dispõe de um rendimento regular e excedentário em relação às nossas necessidades habituais, ou de meios consideráveis só acessíveis a minorias. O enorme crescimento do desemprego, a constatação repetida de que a maioria da população só tem acesso a meios de pagamento através do trabalho, o espectáculo da especulação e da crise financeiras, criam o sentimento de que o tempo sem trabalho é um tempo de prejuízo e de potencial sofrimento, abarcando todas as horas em que não se está ligado a um posto de trabalho. Um desempregado, como qualquer pessoa sem recursos, não tem tempos livres. Para além da falta de dinheiro, não se sente capaz de os usufruir. A insistente (e quase sempre exagerada) propaganda à volta de excessos pretensamente cometidos em termos de ócio e de consumo minam a capacidade do cidadão comum de procurar actividades que não sejam remuneradas. E assim a civilização dos tempos livres terá sido apenas mais uma vaga utopia (se preferirem chamar-lhe fantasia, estão á vontade) dos anos sessenta. Diário de Bordo tem pena.

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