(os diálogos) – Herberto Helder

(autor desconhecido)

(os diálogos)

Mandaram-me fazer um electro-encefalograma para ver como ia o meu ritmo alfa. Eles tinham desconfianças, falavam de estados crepusculares. Divertido. Nada de estados crepusculares, o ritmo alfa estava óptimo. E cumprimentaram-me muito. «A sua cabeça é sólida.» Bem, eu tinha uma cabeça sólida. Era uma coisa ale­gre. Encontrei-me algumas vezes ainda com o psica­nalista. Nessa altura ele interessava-se particularmente pelo Apocalipse. Falávamos durante horas sobre a besta com a grande prostituta de escarlate assentada entre os cornos, sobre os cavalos, os sete candelabros e os terríficos gafanhotos de rosto humano e cabelos longos como os das mulheres. Eu saía do consultório fervendo de inspiração. Escrevi enormes poemas apoca­lípticos e o psicanalista pôs-se a examiná-los. Foi um bom tempo. Mas eu tinha uma cabeça sólida, um belo ritmo alfa. Então, com a minha sólida cabeça, comecei a pensar na morte. Estudei os melhores venenos em livros da especialidade, as mais subtis combinações de drogas e, com receitas que arranjava entre os médicos amigos, organizei uma boa colecção. Gosto da palavra suicídio. A frequência dos is como golpes, as duas sibi­lantes e a última consoante, malignamente dental, fasci­nam-me. Mas bastava-me o prestígio da palavra e o jogo de coleccionar comprimidos mortais. Como alegria, imaginei alguma coisa: Uma cidade marítima com torres brancas, espancada pela luz, e navios que saíam das águas vibrantes para todas as partes. Havia uma árvore sumptuosamente inocente no meio da cidade. Na pri­mavera cobria-se de espinhos e dava flores monstruosas cor de púrpura. As mães não deixavam as crianças brincar perto da árvore. Durante dias e dias a luz espan­cava a cidade. Nada havia a fazer com as minhas metamorfoses interiores. Vagueava pelas ruas e entrava em todos os bares. Os bêbedos formam uma maçonaria. Andávamos pela cidade à procura uns dos outros, bebía­mos no meio de inextricáveis conversas. Um deles disse-me que eu tinha um espírito religioso. Gostei, ficámos amigos, passámos a beber juntos falando do espírito religioso. «Também sou um espírito essencial­mente religioso», disse-me ele uma noite, quando já nos movíamos como batráquios num pântano de cerveja. E eu confessei que a minha juventude fora uma viagem violenta e fulminante através de medos e alegrias bru­tais. «Estive no meio do escuro, não podia dormir. Ou tremia apenas do júbilo de ter um corpo, uma voz, de viver entre luz e chuva e grandes nuvens sobre os campos.» O costume. Comecei a estar farto. Enfim, uma pessoa não se embebeda somente para as miúdas per­versões da memória, para a obliquidade de invenções avulsas, a trivialidade dos equívocos da emoção. Cha­teia-me ser um pequeno monstro sensível. «Merda», disse eu, «tenho uma cabeça sólida. Não me vou deixar apa­nhar por tentações biográficas, a memória, os mitos que as culturas, marginais ou não, parecem querer que eu adopte. Não sou um símbolo da imaginação alheia.» «Bebe», respondeu o amigo. «Não bebo mais, estou farto, vou-me embora para um lugar onde ninguém me mexa nem eu me possa mexer muito, estou cansado de me mexer.» Depois apareceram as pessoas que ajudam, que têm planos para a nossa glória. Comecei a ter medo. En­tão fiz a mala. «Merda, merda, merda», sibilava baixi­nho. Esta é realmente a minha embaraçosa chegada à maturidade. Não serve para espectáculo, nem dá nada como exemplo ou símbolo. Tenho de inventar a minha vida verdadeira.

(in Herberto Helder, Photomaton & Vox, Assírio & Alvim)

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