Faz hoje 38 anos, num belo sábado outonal, Portugal acordou em pé de guerra. O povo da esquerda preparou-se para um dia de luta – a direita ameaçava atacar. A esquerda militar não estava unida – o primeiro-ministro, Vasco Gonçalves, não se entendia com Otelo, o comandante do COPCON. Mas a direita sofria de miopia – quem não era spinolista era comunista. Dessa perspectiva, as divergências que se verificavam no poder, eram invisíveis – os «comunistas» estavam a conduzir o país para um desastre, diziam.
Uma manifestação sob o slogan de “Maioria Silenciosa” fora convocada por um grupo de individualidades onde avultava o nome de um membro da Junta de Salvação Nacional – o general Galvão de Melo. As paredes apareceram inundadas por um cartaz, graficamente mal concebido (o rosto do que parecia ser um atrasado mental…) e que proclamava apoio ao general Spínola e fidelidade ao programa do MFA. Recusava os extremismos e pedia firmeza. Os cartazes eram rasgados pelos piquetes dos partidos de esquerda. Montaram-se barreiras nas estradas – revistavam-se porta-bagagens. Mas o COPCON liquidara a iniciativa ao prender na sexta-feira, 27, cerca de setenta pessoas que se suspeitava estar ligadas à organização da manifestação. E a montanha pariu um rato – nada aconteceu. Ao fim da tarde, uma manifestação enorme percorreu as ruas de Lisboa. A «minoria ruidosa» existia. A «maioria silenciosa» nem por isso. A movimentação de direita teve como resultado a resignação de Spínola como presidente da República e a sua substituição por Costa Gomes – um homem de esquerda, mais «gonçalvista» do que «otelista», mas um moderador por natureza.
Viu-se depois, em 25 de Abril de 1975, quando das primeiras eleições para a Constituinte que a «maioria silenciosa» existia, embora sem a configuração ideológica, fascistóide, que Galvão de Melo e Spínola supunham e desejavam – PS e PSD obtiveram a maioria dos votos. E como ainda agora se insiste em fazer, somaram-se os votos do PS aos dos partidos de esquerda e criou-se a fantasia da «maioria de esquerda». A mentalidade eleitoralista vive da criação de maiorias. Somos governados por uma minoria, uma oligarquia, eleita pela maioria, ou seja pelos votos no PSD e no PS. Uma maioria de gente que não quer saber de argumentos políticos, que não é de esquerda nem de direita. Gente que muito simplesmente quer viver em paz. Mas viver em paz começa a ser um luxo que nem a todos é permitido. Desempregados, velhos com pensões de miséria, doentes sem dinheiro para os medicamentos, não é gente que viva em paz.
A minoria silenciosa vai ter de se tornar ruidosa. Em 15 deste mês já houve algum ruído. Mas não chega – os estúpidos crápulas do executivo, andam a elogiar quem se manifestou. Um truque velho como o mundo, mas que às vezes resulta. Temos de gritar mais alto.


