POESIA AO AMANHECER – 47 – por Manuel Simões

Gilberto Mendonça Teles – Brasil

( 1931  –   )

FOZ

Na foz do rio, o vento desenrola

a linha de um discurso nunca dantes:

a eloquência das ondas numa escola,

o silêncio dos astros nos sextantes.

(Na foz do rio aquela voz premente

também se desdobrou pelo oceano:

seguiu o rumo incerto da corrente,

foi como a espuma de um desgosto humano.)

Na foz do rio, a rede que se lança

tem a forma da imagem que não trinca:

esta linguagem cheia de esperança,

esta saudade que se faz longínqua.

(Na foz do rio aquela voz não finda,

se mistura à folhagem e algo espreita:

talvez a cena de uma história linda,

alguma arte de amar, sempre imperfeita.)

(de “Hora Aberta”)

Poeta e ensaísta, há muito que se distinguiu no panorama cultural brasileiro. De entre os seus livros de poesia: “Alvorada” (1955), “Estrela-d’Alva” (1956), “Planície” (1958), “Fábula de fogo” (1961), “Pássaro de pedra” (1962), “Sintaxe invisível” (1967), “A raiz da fala” (1972), “Arte de amar” (1977), “Hora aberta, poemas reunidos” (1986), “Plural de nuvens” (1994), “Sonetos” (1998).

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