Assinalou-se há dias o Dia Mundial da Música. Que aqui neste blog é todos os dias… A este propósito gostaria de partilhar convosco como se passou o meu sábado de 22 de Outubro, onde, na Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito do projecto Opus Tutti, participei no II Encontro Internacional Arte Para a Infância e Desenvolvimento Humano.
Dizem os organizadores em email enviado aos participantres: “Foi um dia repleto de música tecida com os fios que a ligam a outras artes e às pessoas. Falámos de intersubjectividade, de afectos, de partituras gráficas animadas, de questões de formação de recursos humanos em experiências imersivas, apresentámos as novas criações para a primeira infância, observámos as respostas (e perguntas!) dos bebés, escutámos as palavras de investigadores e a de educadores, começamos a construir um Manifesto Para a Arte na Infância, ouvimos vozes, harpa, violoncelo, “gamelão”, pianos de brincar, clarinete, caixas de música”. Ficou no ar a tentativa de distinguir entretenimento e arte. Talvez possa ser que o primeiro traz uma satisfação momentânea e o segundo uma satisfação que se prolonga no tempo.
Sabemos que a música pode produzir reacções fisiológicas. O medo e a alegria podem ser acompanhados por transpiração, excitação com determinados andamentos rápidos. Tristeza ou serenidade pode ser provocada por andamentos mais calmos. Estas reacções ocorrem independentemente da “vontade” do ouvinte. Outros estudos mostraram que a música activa as mesmas zonas cerebrais que participam do processamento de emoções. Pois tudo isto pode ser visto nas faces dos bebés que, acompanhados dos pais assistiam ao acto de “fazer sons” que lhes chamassem a atenção.
Didier Anzieu, pedopsiquiatra francês, avançou com o conceito de envelope sonoro que corresponde a um estado muito precoce da formação do Eu, e que é como que um “um espelho sonoro ou uma pele audiofónica em que a sua função será zelar pelo aparato psíquico e pela aquisição da capacidade de dar significado e de simbolizar”. E falar de música é falar da voz de quem de mais perto acompanha um bebé: “A voz da mãe é a da música; a música, é da voz da mãe.”(Piérre Paul Lacas). E é aqui que a música pode ter a função de consolidação da vinculação do bebé à mãe. As canções de embalar são universais …e a criança sente-se envolvida num banho melódico, unida a quem para ele canta, sente-se confortável, apaziguada e relaxada.
Adolfo Coelho (1883) afirmou “os contos e rimas infantis parecem ser como o leite materno, que nenhuma preparação, por mais adiantada que esteja a ciência, poderá igualar”(1). Este autor chamou a estas criações literárias “pedagogia de amas”. Mal imaginava ele como a ciência viria a dar-lhe razão!
E continua: “ Da fórmula constam, essencialmente, ritmo e melodia, determinadas pela regularidade métrica e pela sonoridade das palavras, com relevo para a alternância de acentos fortes e fracos, para a rima e para as repetições. Constam ainda, gestos e mímica ligados intimamente à linha prosódica e também processos de carácter poético ou lúdico que alimentam a criatividade, com particular relevo para o nonsense. O seu modo de transmissão – de viva voz – pressupõe a proximidade, o prazer do contacto físico dos interlocutores e a permanente adequação comunicativa”(2).
(1) Elementos Tradicionais da educação, Lisboa, Livraria Universal
(2) Jogos e Rimas infantis, 1994, Porto, Asa



