A CANOA VOADORA – por Raúl Iturra

O título do texto pode induzir em erro. Parece ser um conto de fadas, mas é uma realidade que rende lucro. A Grã-Bretanha, quando era apenas o reino da Inglaterra, começou a explorar o mundo e apoderar-se de territórios ultramarinos que pertenciam a povos menos evoluídos.. Entre outros, os Massim da Nova Guiné no arquipélago da Kiriwina da Nova Zelândia[1]. Não se trata, pois, nem magia, nem de história de fadas – é uma realidade. A etnia Massim, espalhada por todas as ilhas do arquipélago, carece de produtos em várias delas, enquanto outras os produzem em grandes quantidades. A necessidade de trocar produtos e pessoas para se reproduzir, faz parte da definição do seu modo de vida. Para estas trocas, é necessária uma canoa para circular entre as ilhas. Chamam-lhe a canoa voadora pela rapidez com que é manobrada.

Cada ilha é habitada por um clã do povo Massim, de diferente consanguinidade, o que permite estabelecer um comércio de bens de que haja défice para trocar por bens de que haja abundância. Parte dos bens, são as mulheres, que casam com alguém da ilha, continua a ser filha do seu pai, e irmã dos seus irmãos, os que herdam os filhos que tornam a sua ilha, passando a ser o irmão mais velho o pai das crianças masculinas púberes, os educam e os criam. As filhas da mulher ficam na ilha em que nascem e são entregues como esposas secundárias ao progenitor das crianças ou a outros membros do clã.

Por não existir contrato escrito, o sinal de troca são presentes em forma de colares e braceletes, que se distribuem entre os parceiros da troca de bens, como parte do acordo de troca denominado reciprocidade, teorizado mais tarde por Marcel Mauss no seu livro de 1924[2]

O que existe em todas as ilhas são árvores, que são escolhidos para fabricar a canoa que é usada para o comércio de bens e de troca de mulheres. O mágico da ilha, após uma cerimónia ritual, escolhe a árvore mais conveniente, é escavada pelos adultos, até fabricar uma canoa leve que não se afunde com o peso das pessoas e bens e dos argonautas que a navegam. Se uma canoa se afunda, a responsabilidade passa a ser do mágico, que deve compensar os bens perdidos com os seus próprios.

O título de este ensaio parecia ser um conto de fadas, mas é uma realidade factual até o dia de hoje. Os Massim são comerciantes e vendem as suas posses quer a outros membros do povo, ou a estrangeiros que se deliciam em comprar produtos exóticos para levar com eles.

Este facto é, como defino no artigo citado antes. O Anel do Kula, sendo Kula, na língua Massim, sinónimo de comércio.


[1] As Ilhas Trobriand (conhecidas oficialmente hoje como ilhas Kiriwina) é um arquipélago de 450 km² de ilhas de coral, situado na costa oriente da New Guinea. São parte de uma nação conhecida como Papua-Nova Guiné, situada na Milne Bay Province. A maior parte da população consiste em 12,000 habitantes nativos, que habitam a ilha principal, Kiriwina, sítio onde estão sediadas as instituições governamentais, conhecida como o sítio de Losuia. São parte da Comunidade Britânica. Autónomas, reconhecem como soberana Isabel II de Windsor. Foram estudadas entre 1914-1924 pelo fundador de Antropologia Britânica, o polaco inglês Bronislaw Malinowski (Cracóvia, 7 de Abril de 1884New Haven, 16 de Maio de 1942), discípulo de Émile Durkheim e pelo cientista Finlandês Edward Westermarck, professor em Londres (20 de Novembro de 1862 em Helsínquia, falecera a 3 de Setembro de 1939, em Lapinlathi, distrito de Helsínquia), que ensinou a Malinowski o trabalho de campo e o diário dos factos quotidianos, referido por mim em

 http://aventar.eu/2010/07/27/edward-alexander-westermarck/

[2] Maus, Marcel, 1924: Essai sur le don. Formes et raison  de l’échange dans les sociétés archaïques, em L’Année Sociologique, Nouvelle Série, vol. I, Félix Alcan, Paris. Há uma versão portuguesa em Edições 70, 2002, Lisboa.

1 Comment

  1. Escrevi este texto convicto, após de passar exames de língua portuguesa, de saber escrever em luso-europeu. As críticas recebidas convencem-me que não. Mas, não é apenas com os meus textos que as críticas aparecem. Há uma forma regular de escrita no blogue necessária de respeitar. Felizmente temos coordenadores que fixam essa liberalidade gramatical, que é permitida apenas aos poetas e romancistas, como o caso dos meus amigos Mário Vargas Llosa e Isabel Allende. Os primeiros textos do Mário eram sem vírgulas, escrito propositadamente, como me confidenciara um dia na nossa Britânica Universidade onde ensinávamos. Ele ganhou o prémio Nobel de Literatura, eu, parece que em nenhuma das sete línguas que uso vou ter aprecio! Escrevo estas linhas para me desculpar com os leitores e os coordenadores que se esmeram no afã de se escrever a moda de Pessoa… Agradeço. O interessante é que o leitor entenda que existem várias formas de vida e, estou certo, apos correções, que o elo do texto tenha sido bem-sucedido….
    Raúl Iturra
    lautaro@netcabo.pt

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