NA HOMENAGEM A HÉLDER COSTA, MEU AMIGO
por António Gomes Marques
Estava eu numa já longa conversa telefónica e que iria continuar por tempo indeterminado quando tocou o telemóvel; era o Armando Caldas. Atendi, pedindo, no outro telefone, uma pequena pausa. Queria o Armando dar-me conta de que se aproximava a “Semana Cultural” e eu ainda não havia marcado bilhetes.
«-Mandas-me o programa e eu respondo-te logo que o leia.»
«-Está bem, responde o Armando, a Dulce vai já enviar-to, dá-me o teu «e-mail». Pensando que eu estava a despachá-lo, acrescenta: «Mas espera, tenho mais um assunto a tratar contigo.»
Interrompi para dizer à pessoa pendurada no telefone fixo que iria desligar e que dentro de minutos voltaríamos a falar.
Retomando a conversa com o Armando, diz-me ele: «-Começamos a “Semana Cultural” a 8 de Outubro com uma homenagem ao Hélder Costa e, como julgo saberes, a Céu vai estar no Brasil nessa data, deixando uma mensagem que eu próprio irei ler; no entanto, preciso de mais alguém para falar do Hélder e, quer eu quer ele, entendemos que deves ser tu.»
Engoli em seco e disse o que não poderia deixar de dizer: «-Está bem, conta comigo.»
Logo de seguida, enquanto pensava «não escolheram um grande escriba, mas escolheram um amigo!», peguei no outro telefone e liguei para a pessoa com quem tinha estado a falar.
«-Desculpa, mas era o Armando Caldas, que acaba de me convidar para eu dizer umas palavras na homenagem ao Hélder Costa, que vai promover no próximo mês e…»
«-O Hélder Costa morreu?», interrompeu-me a pessoa do outro lado.
«-Não, que ideia foi essa? Nesta “Semana Cultural” só se homenageiam pessoas vivas!», disse eu desconcertado.
«-Neste país, habitualmente, só se homenageiam os mortos», diz-me a pessoa amiga e que bem sabe de quem estamos a falar. «Dá os parabéns ao Armando».
Perceberá agora a plateia a razão por que iniciei assim esta minha comunicação. De facto, no nosso país quase só se homenageiam os mortos, mas será Portugal um país onde os «mortos em pé» predominam? Quando é que passamos a homenagear só os vivos, e há muitos vivos para homenagear, como o Armando nos demonstra todos os anos, e passamos a recordar apenas os mortos quando, como exemplo a apresentar, deles necessitarmos? Quando quisermos dar um bom exemplo, invocamos D. Afonso Henriques, D. João II, Manuel Teixeira-Gomes, Aquilino Ribeiro, Carlos de Oliveira, Fernando Lopes Graça e, sei lá, muitos, muitos mais; quando quisermos invocar algum representante do mal, à minha geração salta logo um nome: Oliveira Salazar! As gerações ainda muito novas já têm quem se prepare para o suplantar, havendo vários candidatos: Passos Coelho, o seu técnico de contas Vítor Gaspar, que só conhece uma pátria: a burocracia de Bruxelas, e outros mais. Todavia, estes preopinantes, como diria Baptista Bastos, devem ter em atenção a enorme percentagem de portugueses a gritar «Basta!». Afinal, temos um povo real, solidário!
Legitimamente, entre a plateia para quem falo, poderá haver quem se interrogue: mas que tem isto a ver com o Hélder Costa? Na minha opinião tem tudo a ver. Vejamos:
Não há, julgo eu, no actual panorama da cultura portuguesa, pessoa mais empenhada no Teatro Português, sem que isso signifique descurar o Teatro em Portugal, do que Hélder Costa. É um autor genuinamente implicado com o tempo que vivemos, na defesa da sociedade justa, solidária, uma sociedade onde haja igualdade de oportunidades para todos.
Baseio esta minha afirmação não só na sua obra, do autor e do encenador, de que «Os Encontros Imaginários» constituem uma originalidade em Portugal e aos quais não se tem dado o devido relevo, mas também na sua disponibilidade para intervir como cidadão português onde necessário se torne.
Vou, agora, aproveitar parte de um texto que escrevi para um debate sobre Democracia, não vale a pena escrever a mesma coisa de outra forma e com outras palavras, como também não vale a pena descobrir o que já alguém descobriu.
Permitam então que me cite:
«Os pilares de qualquer sociedade verdadeiramente livre e, portanto, democrática, são a educação, a ciência (incluindo nesta a tecnologia) e a cultura. Olhando o Mundo em que vivemos fácil é verificar a distância a que o nosso país se encontra de outros que à UE pertencem, nomeadamente os nórdicos, fundamentalmente graças a um sistema de educação e de desenvolvimento cultural que não acompanhamos. Sem cultura não há progresso, sem cultura não há capacidade para dizer sim ou não conscientemente, sem cultura não há capacidade para escolher.
Bem sei que o ser-se culto não significa estar sempre do lado dos mais desfavorecidos, bastando lembrar, por exemplo, o caso de Martin Heidegger, um dos homens mais cultos do seu tempo e que não deixou de se juntar aos nazis.
Ultimamente, verifico que há muitas pessoas que se colocam a questão de «o que é ser de esquerda?» e, nos vários debates em que participamos, nos muitos artigos que vamos lendo e até em vários livros de autores que com esta questão se preocupam, muitas vezes sou levado a concluir que há muitas pessoas que abanam a cabeça a dizer sim, a dizer-se de esquerda mas que, na realidade, não têm a consciência real do que é ser de esquerda – se calhar nem eu! -, deixando-me a dúvida acerca do que as pessoas percepcionaram. Acabado o debate, a maioria vai para casa com a satisfação de ter participado em mais um acto de esquerda e talvez vá dormir descansado por ir convencido de já ter cumprido o seu dever.
Após o 25 de Abril pudemos verificar que havia uma maioria esmagadora que de esquerda se considerava e a situação que hoje vivemos é claramente demonstrativa de que as pessoas que tinham uma consciência real do que é ser de esquerda constituíam uma minoria.
Nunca chamei ao 25 de Abril uma revolução, dado que para mim só há revolução quando se dá uma transformação qualitativa ao nível do consciente, transformação esta que não aconteceu na maioria da população portuguesa após a instauração da democracia.
Houve com o 25 de Abril a possibilidade de dizermos o que queremos, mas não há, julgo eu, a consciência de que a liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro, não há uma consciência colectiva clara de bem, de mal, de história – quem somos, de onde viemos, para onde queremos ir -, não permitindo tomar consciência do mundo real em que vivemos e de que a realidade é possível de ser transformada pela acção conjunta dos homens. E essa acção conjunta também é a que permite a conquista da liberdade, acção essa que tem de ser permanente pois a liberdade, como a História da Humanidade bem o demonstra, nunca tem uma vitória definitiva. Adormecemos após o êxito de qualquer empresa que tenhamos empreendido e, de repente, tomamos consciência de que já não se mantém nenhum dos valores fundamentais que podem contribuir para a harmonia entre os homens, para o gozo da felicidade a que todos temos direito.
Diz-se, habitualmente, que casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão e, de facto, sem pão para o dia-a-dia de que vale a liberdade? Mas sem pão e sem cultura, outra forma de pão, não há consciência de grupo e sem consciência de grupo caímos no salve-se quem puder, na defesa da migalha, abrindo caminho para a instalação do medo, como hoje se verifica na sociedade portuguesa e de que este Governo se tem aproveitado, iniciando um retrocesso civilizacional a antes do 25 de Abril de 1974, não respeitando os acordos de empresa sequer, livremente negociados pelas partes, não respeitando a Constituição, levando mesmo uma central sindical, naturalmente pensando que os patrões portugueses – sim, os patrões, dado que empresários temos muito poucos em Portugal -, constituem um «reino de deuses», a assinar um acordo que acaba com os direitos, conquistados nos primeiros anos após o golpe do 25 de Abril, dos que trabalham por conta de outrem. Onde está a democracia?» Fim de citação.
Até agora, temos feito afirmações sobre o que da obra de Hélder Costa pensamos; sendo o momento de dela falar para demonstrar o que venho afirmando da mesma. Olhemos então para a obra do nosso homenageado e perguntemo-nos: não estarão todas estas preocupações inseridas em tudo quanto o Hélder tem escrito e dito?
Chegado este momento, parei a escrita, dirigi-me à estante e logo mudei de estratégia, pois seria obrigado a meter férias para reler todas aquelas peças. Parto do princípio que a ilustre plateia as leu e, como eu, as terá visto em palco. Aqueles que o não fizeram, agucem o apetite e vão a correr comprar os livros, com a certeza de que perderam o melhor e o que justifica os textos: os espectáculos. É mais uma diferença do teatro. É para o palco que os dramaturgos escrevem e apenas consideram o trabalho terminado quando vêem o seu texto confrontado com um público ou com os vários públicos. Há ainda algo que para mim, epicurista assumido, muito me interessa: sempre que falo ou discuto com o Hélder sobre os assuntos mais comezinhos –às vezes os mais importantes!- ou sobre as grandes questões, há sempre um sorriso ou uma piada e até mesmo, de vez em quando, uma brejeirice a que ele não resiste. O viver a vida é o mais importante, procurar ser feliz é a obrigação de cada um de nós! A obra de Hélder Costa fala-nos também disto. Mas já iremos à obra, permitam-me ainda uma pequena digressão pela obra de outros, concretamente de outros pensadores que à cultura se têm dedicado. Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, concluem assim a obra «A Cultura-Mundo Resposta a uma Sociedade Desorientada», editada em Portugal pelas Edições 70:
«Durante muito tempo, o objectivo da cultura foi identificado com a profundidade da alma, com a vida em obediência à razão. Esta vocação superior nunca foi tão obsoleta como agora, pois vivemos num mundo dominado pela superficialidade do imediato e do consumível. Para além desta, há, todavia, outra missão que lhe incumbe para o futuro: a de abrir a existência a dimensões diferenciadas, fornecer objectivos, distribuir as cartas para que se possam encetar novos caminhos e estimular potenciais diversificados dos indivíduos que não se reduzam apenas à compreensão inteligente do mundo. Com isto, regressamos, de algum modo, à função eterna, antropológica da cultura: educar e socializar os seres humanos, fornecendo-lhes objectivos – e, hoje, ao favorecer uma multiplicidade de projectos, de experiências e de horizontes de sentido, dar-lhes a possibilidade de “mudar a vida”. A cultura não é contra a paixão. Pelo contrário, ela é o que deve alimentar as paixões ricas e boas dos indivíduos. A cultura não deve apenas exaltar o que é profundo, mas também fazer algo que é mais importante para a maioria: limitar a desorientação e permitir a estima de si com actividades que mobilizem a paixão dos seres humanos para se superarem, para serem agentes da sua própria vida.»
Pergunto eu agora, aos que a obra de Hélder Costa conhecem: não está tudo isto nela contido?
«Para serem agentes da sua própria vida», é assim que termina a obra que acabamos de citar. De facto, não compete ao teatro encontrar soluções, ao teatro compete levantar problemas que nos obriguem a reflectir e, depois, mais conscientes, sermos agentes da nossa própria vida, mudando o que for necessário mudar, num trabalho colectivo e não individual, com a consciência de que só com o acordo de todos, ou mais provavelmente com a colaboração das minorias que, se se transformarem em maiorias, facilitarão e apressarão o resultado final, fazendo valer as nossas razões e conseguir o que deve ser o objectivo primeiro de qualquer ser humano: ser feliz em comunhão com os outros!
Estarei eu a filosofar? Que remédio, foi o que me ensinaram a fazer para saber escolher o caminho.
Ouçamos Epicuro, na sua «Carta sobre a Felicidade»:
«Mesmo que jovens, não devemos hesitar em filosofar. E nem sequer na velhice devemos cansar-nos do exercício filosófico. Pois para ninguém é demasiado cedo nem demasiado tarde para a purificação da alma. Aquele que diz que a hora de filosofar não chegou ou já passou, assemelha-se ao que afirma que a hora não chegou, ou já passou, para a felicidade. São, por isso, chamados a filosofar o jovem como o velho. O segundo para que, envelhecendo, permaneça jovem em bens por gratidão para com o passado. E o primeiro para que jovem, seja também um antigo pela ausência de receio em relação ao futuro. Devemo-nos, pois, preocupar com aquilo que cria a felicidade, já que com ela possuímos tudo e sem ela tudo fazemos para a obter.»
Mas falemos agora da aventura de Hélder Costa, vivida com as contradições de um qualquer ser humano que nem sempre tem com ele a verdade e, disso consciente, não desiste de a procurar.
Nascido em Grândola, em 1939, teve a habitual vida de estudante, primeiro em Grândola e depois no Liceu Camões, em Lisboa, até à Universidade, onde começa por estudar Direito em Coimbra, com o objectivo de ir para o Corpo Diplomático, o que satisfaria o seu desejo de continuar a viajar pela Europa e pelos outros Continentes, tendo integrado o CITAC – Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, para ali levado em 1961/62 por, pasme-se, ser baterista e vocalista de um grupo musical, mas não um vocalista qualquer, tinha de ser um cantor de charme, apresentando as canções italianas e franceses então em voga. No CITAC o mundo era outro, «era tudo muito politizado», como ele dirá mais tarde. É o tempo da revolução dos costumes, da guerra colonial e do contacto com estudantes africanos que deixaram a Universidade para combater na guerrilha, tempo do desagrado com a posição do PCP sobre a guerra colonial que a muitos de nós, jovens, parecia ambígua. Mas foi chegado o momento da entrada em acção da PIDE e o Hélder foi colocado na prisão correccional de Penamacor por um período de 5/6 meses, após o que vai para Lisboa, indo para a Faculdade de Direito, onde veio a integrar o Cénico de Direito, tendo mesmo sido Presidente da respectiva Direcção, grupo de teatro este que obteve duas menções honrosas no Festival Mundial de Teatro Universitário de Nancy – 1966 e 1967. Neste último ano decide-se por Paris, dado que a alternativa seria de novo a prisão. Nesta cidade, continua a sua acção antifascista, trabalhando no seio dos emigrantes portugueses, vindo a ser um dos fundadores, em 1970, do Teatro Operário de Paris, mantendo-se aqui até 1974, regressando a Portugal após o 25 de Abril.
Já citei alguns filósofos, já me citei, agora há que começar a citar o próprio Hélder, servindo-nos de uma conversa que ele teve com a publicação «Rua de Baixo.com». Sobre esses tempos, para começar:
«É claro que nós agíamos no plano do teatro de urgência e a preocupação estética ficava para segundo plano, era fazer, fazer. Mas depois, a pouco e pouco como frequentávamos tantos festivais, víamos tanta coisa, a estética veio logo a seguir. Uma estética no plano da comunicação, muito desviada do formalismo, era pela via do humor, de uma ideia de sátira popular.»
E, a propósito do seu livro «O saudoso tempo do fascismo», disse ele:
«Escrevi o saudoso tempo do fascismo. O pessoal, os comunistas, a malta fora do PC, fala sempre do fascismo, através do horror e do sofrimento da luta antifascista. E ninguém fala do prazer da luta. Da alegria da luta contra o fascismo. Da alegria de enganar estes cabrões. Porque a questão fundamental para a gente falar com a juventude é isso. Vocês sabem lá o que a gente gozava com estes cabrões?! Depois apanhávamos porrada. Pois apanhávamos. Mas gozávamos. A adrenalina era essa. Falar do sofrimento, eu? Esses gajos estão errados. Eles deviam era falar da alegria da luta.»
Na mesma entrevista que tenho vindo a citar, vamos encontrar uma das razões que fizeram de Hélder Costa dramaturgo. Diz ele: «O teatro tem de estar sistematicamente em crise se não tiver uma dramaturgia contemporânea. Se não há autores a falar dos problemas do seu tempo o teatro tem de ir abaixo. É isso que lhe dá força. As pessoas estão a falar das suas coisas. Temos de meter isto na cabeça.»
Voltaremos a falar das razões que o levaram a escrever para o palco, que não é a mesma coisa que escrever para ser publicado.
Logo nesse ano, em que em Portugal se viveram todas as esperanças, vamos encontar Hélder Costa a colaborar com Luís Francisco Rebello e Luís de Lima na adaptação portuguesa de «Liberdade, Liberdade», de Millôr Fernandes e Flávio Rangel, estreada com grande êxito no Teatro Villaret, em Lisboa.
Do arbítrio e da repressão que o golpe militar de 1964 instaurou no Brasil, nasceu esta peça inconformista, constituído por textos de Sócrates, Marco António, Platão, Lincoln, Luther King, Castro Alves, Cecília Meirelles, Shakespeare, Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade e outros, textos estes ligados por canções interpretadas ao vivo e, segundo Cecília Meirelles, o espectáculo tratava da «liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que entenda», um texto que merecia adaptação para Portugal no tempo que então se vivia e que, para quem o conhece, não poderia deixar de o cativar. O êxito foi retumbante, o que proporcionou ao Hélder um benefício que a sua memória registou e que jamais será esquecido. Reparem nas suas palavras a propósito de tal sucesso:
«Eu como vivi muito tempo durante o fascismo, e as censuras e sabendo que isto era tudo uma adulteração dos factos, fui estudando, fui tentando descobrir a história mal contada. Interesso-me por uma coisa e começo a investigar. Tenho uma coisa que comprei logo com a primeira massa que ganhei com «Liberdade, Liberdade», a enciclopédia Portuguesa Brasileira, uma coisa extraordinária, com entradas bibliográficas.»
É assim o Hélder! Tenho ou não razão para fazer as afirmações que vos li? Querem ter a confirmação? Então, atentem em mais estas suas palavras:
«Sou um tipo que politicamente sou libertário. Para ficar bem esclarecido sou libertário e esquerdo-dependente. O que quero dizer (é) que sou comunista, socialista, social-democrata, católico progressista. Odeio o Ratzinger. Gosto de palavra solta, adoro o humor, a sátira, ando preocupadíssimo em não perder isso…»
É também por isto que ele adora o Gil Vicente e, como poucos, tem prestado tanto do seu talento a pô-lo em cena, fazendo mesmo colagens inteligentes de vários textos daquele genial autor para os vários momentos e as várias crises que vamos vivendo. Disse ele: «Isto da crise é assim: se uma pessoa está interessada em desenvolver o teatro tem de perceber como é que se criam públicos e quais são as responsabilidades do lado cultural. Se eu tiver um interesse social na cultura é evidente que a cultura fica mais social e o social fica mais cultural. Se eu não tiver isso está tudo lixado!»
Mas já vai longa a minha intervenção. Temos de falar agora um pouco da grande aventura que o Hélder abraçou em 1976, aventura essa ainda não terminada e que ficará, naturalmente, na sua biografia como a grande aventura da sua vida.
Nesse ano e passados quase dois anos de «Liberdade, Liberdade», andava o Hélder à procura do que fazer realmente no teatro português, agradecendo mas não aceitando os vários convites que foram surgindo. A 4 de Março desse ano de 1976, estreia, na Incrível Almadense, «A Cidade Dourada», texto colectivo do Grupo de Teatro La Candelaria, de Bogotá – Colômbia, que viria a ser o espectáculo da fundação da Cooperativa de Profissionais de Teatro «A Barraca», cujo objectivo era/é, segundo a própria Cooperativa:
• Realizar um repertório popular, que ajude as pessoas a ver e compreender o porquê e o como da transformação social que as fará passar do estado de necessidade ao estado de liberdade;
• Itinerância, com a preocupação de permitir o acesso ao teatro a um público que nunca o sentiu como coisa sua;
• Contribuir para a abertura de novos locais e espaços: escolas, sociedades de recreio, fábricas, casas do povo.
Entretanto, alguém abriu as portas de «A Barraca» ao Hélder. «Eh, pá!, disse-me ele um dia, estava ali a minha gente, como podia eu dizer não?» E, a 2 de Setembro desse mesmo ano, estreia o colagem de textos de Gil Vicente e Ruzante, feita pelo Hélder, com o título: «Histórias de Fidalgotes e alcoviteiras, pastores e judeus, mareantes e outros tratantes sem esquecer suas mulheres e amantes», com a clara intenção, como se diz no programa, «de falando de histórias e temas do passado, consigamos fazer um pouco de luz sobre o presente.» Evidentemente, o que se pretendia era falar, em especial, das questões dos Descobrimentos e do Colonialismo.
Com intervenção escrita do Hélder, segue-se «Ao qu’ isto chegou», que reúne textos de mais 24 autores, com estreia na Sociedade Nacional de Belas Artes no dia 12 de Dezembro de 1977.
Seguem-se muitos outros textos ao longo de todos estes anos. Havia um programa que «A Barraca» queria cumprir. E os textos que mais interessavam ao Grupo onde estavam? Transcrevamos parte de uma resposta que o Hélder dá a Manuel Geraldo:
«Quanto ao Grupo «A Barraca» surgiu como uma espécie de arma em constante dinâmica, destinada a preparar o público português, amputado por sucessivas censuras, para a verdade histórica e para a luta por um destino mais feliz, progressista e solidário. E foi para dar corpo a esse projecto que se prepararam os trabalhos apresentados por exemplo sobre Gil Vicente, Camões, Zé do Telhado ou D. João VI e se encenaram obras de autores tão referenciais como Dario Fo, Brecht, Fassbinder, Mrozeck ou Woody Allen».
Manuel Geraldo coloca outras questões, nesta mesma entrevista:
«O dramaturgo Hélder Costa teria sido possível sem que primeiro tivesse havido o encenador Hélder Costa? Ou o processo deu-se na inversa?»
Responde o Hélder: «Primeiro surgiu o encenador e o dramaturgo só apareceu depois porque não havia, ou eu não encontrei, textos sobre temas que me interessavam abordar, passando então a ser eu próprio a criá-los.»
Para além das Universidades de Coimbra e Lisboa, o Hélder Costa frequentou também o Institut d’Études Théatrales da Sorbonne, em Paris, o que já estava mais de acordo com ele, esquecido entretanto do sonho da carreira diplomática. Dirigiu mais de 60 espectáculos, em Portugal, naturalmente, e em Espanha, Brasil, Dinamarca, França, Inglaterra, México, Moçambique, Venezuela. Dirigiu acções pedagógicas e participou em congressos e festivais em França, Alemanha, Suíça, Argentina, Cabo Verde, México, Colômbia, Venezuela, EUA, URSS, Chile e Itália. Peças suas têm sido representadas por outros grupos de teatro e, por exemplo, «O Príncipe de Spandau», teve a sua estreia mundial em Viena de Áustria, sendo depois representada na Dinamarca, na Bolívia e em Londres, calculem! É autor de cerca de 60 peças, a última estreada no passado dia 27 de Setembro.
Digam-me lá: estavam à espera que eu analisasse cada uma das suas peças? A que horas iríamos nós sair daqui? Leiam-no e, sobretudo, vejam os seus espectáculos, que é o que eu faço!
E quanto a prémios? Demos exemplos, sem esgotar os que recebeu: Grande Prémio de Teatro da RTP, Damião de Góis; Associação de Críticos; Casa da Imprensa; Prémio da Associação de Actores e Directores da Catalunha e o 1.º Prémio do 1.º Festival Internacional da Ciudad de México com a peça «Dancing».
De referir também que é membro do corpo pedagógico da Escuela Internacional de Teatro da América Latina y Caribe.
Terminemos pois a nossa comunicação nesta homenagem. Mas a aventura de «A Barraca» continua, que com o Hélder conta há já 36 anos! Mas o projecto de «A Barraca» é uma obra colectiva, tendo à sua frente como seus responsáveis não só o Hélder mas também um outro ser maravilhoso que, ao mesmo nível, faz parte do projecto, ela sim, desde o seu início – uma das grandes Senhoras do Teatro Português, a minha querida Maria do Céu Guerra. São dois seres irmanados no mesmo Amor: ao teatro Português, ao Teatro em Portugal e ao Povo de que, com orgulho, são parte! E eu orgulho-me da amizade que nos une!
A toda a plateia, obrigado por me terem ouvido.

