A réplica do caro amigo Carlos Loures ao meu “Hispanidade, Colonização, Brasil“ demonstra definitivamente que os nossos pontos de vista sobre o tema referente ao surgimento histórico do homem brasileiro – e possivelmente somente este – não poderão jamais estar em conexão enquanto uma das partes, que naturalmente não sou eu, continuará a raciocinar sobre tais assuntos a partir exclusivamente de um muito contestado eurocentrismo. O mesmo eurocentrismo característico, em geral, do sistema de pensamentos de um estudioso de alto nível intelectual, como Eduardo Lourenço, citado por Carlos Loures. A propósito do eurocentrismo de Eduardo Lourenço, me vem neste momento à lembrança um episódio ocorrido numa das sessões do I Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas, realizado em Poitiers em data que já vai longe… Então, quando me levantei para comentar criticamente a intervenção de um competente e velho cultor inglês da literatura portuguesa que, tratando de O Primo Basílio, afirmava que Eça de Queirós criara o seu romance a partir de um “adulteriosinho”… Naturalmente o estudioso inglês connhecia suficientemente a obra queirosiana, mas cometia, dela tratando, um dos erros muito típicos de grande parte dos estudiosos estrangeiros das literaturas de língua portuguesa, isto é, uma precária participação com a língua. O seu dizer “adulteriosinho” certamente era o resultado de seu conhecimento mais convencional que profundo da língua portuguesa. Acabada a minha intervenção, levantou-se no plenário Eduardo Lourenço que, com a sua habitual segurança de juizos, procurou consolar o velho estudioso inglês afirmando que os brasileiros eram assim mesmo quando tratavam de coisas portuguesas. Foi quando em seguida se levantou, assumindo a tribuna, a saudosa voz de Alfredo Maragarido que deplorava sentir de Eduardo Lourenço conceitos como aqueles por ele então expressos sobre os brasileiros.
Ah! o eurocentrismo, caro amigo Carlos… Trata-se certamente de um sistema que não pertence ao brasileiro, mesmo aquele fortemente ligado às tradições de suas raízes portuguesas. Mesmo sendo um descendente de um tronco lusitano de antigas tradições. Isto porque, já sob os Felipes, enquanto os portugueses continentais não sabiam bem se participavem de uma hispanidade universal ou se mantinham um lusitanismo fundamental, nas terras novas do Brasil, o utópico indivíduo luso-brasileiro – já então mais que um colono – se transformava lentamente, através de uma democrática mistura de etnias, num novo tipo de homem civil.
Por tudo isso, eu sempre olhei o Brasil como de uma janela aberta para o mundo. O que me permitia de sentir-me, ao mesmo tempo identificado com aquele mundo que me viu nascer e com aquele outro que a cada dia nascia diante de meus olhos.
Por tais razões me aconteceu um dia um poema, “Unidade terciária” (Gira Mu(o)ndo, RJ, 2003):
Unidade terciária
1.
Não me chamo Raimundo
Raimondo,
nem Edmundo:
como certa unidade
fora de qualquer idade
por 1 terço
sou brasileiro,
português por outro,
italiano na comple
mentaridade.
Os meus 3 terços me levam
a fora
em busca
do sentimento do mundo.
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Paro por aqui na citação do poema composto de 3 partes porque esta primeira será a epígrafe do meu próximo livro que tratará dos meus cinquenta anos vividos em Veneza, 50 anos a completar-se justamente em 2013.
Igualmente em 2013 comemoraremos os 50 anos do ensino de Português em Pádua e em Veneza, por mim inaugurado no ano-acadêmico das duas universidades italianas de 1962-63. Nesta oportunidade, como já aconteceu em 1992-93 quando comemoramos os 30 anos do mesmo evento e então o governo quis reconhecer a minha missão de divulgador das culturas de língua portuguesa concedendo-me a condecoração de Grande Oficial da Ordem de Rio Branco, que então pelos 50 anos me viesse de Portugal igualmente uma condecoração. Porém, mais diretamente uma que aspiro como coisa especial: a oficial cidadania portuguesa e o passaporte de Portugal.
