DIÁRIO DE BORDO, 10 de Outubro de 2012

A reeleição de Chávez pode vir a constituir um marco na história mundial.  A rapidez da União Europeia em felicitá-lo pela vitória, através da responsável pela diplomacia Catherine Ashton, em conjunto com elogios sobre o modo como decorreu o processo eleitoral, é sintomática do alívio que representou a sua reeleição. Alguns conselhos paternalistas dados à mistura não chegam para ocultar esse facto. Também o candidato derrotado Henrique Capriles se apressou a felicitar Hugo Chávez; um bom democrata é o que faz, dirão muitos, e que só o próprio saberia o que lhe passava pela cabeça. Na realidade, todas  as pessoas minimamente informadas sabem que se o resultado eleitoral fosse ao contrário se desencadearia na Venezuela um processo violentíssimo de repressão sobre as suas classes populares, e que a sua economia seria alvo de um choque semelhante ao que houve no Chile quando Pinochet tomou o poder, e como agora está a ser aplicado na Europa, nomeadamente em países com uma oligarquia mais reaccionária, como Portugal e a Grécia.

Com certeza que Capriles e Catherine Ashton são pessoas minimamente informadas, embora aparentem não apreciar muito Hugo Chávez. Um factor mais pesa: as eleições norte-americanas. Se Obama desiludiu muita gente, e não dá muitas garantias de melhoras para um segundo mandato, Mitt Romney, caso vença, promete deixar para trás as loucuras imperialistas de Bush, e pôr a nu aquilo que muitos sabem, mas não muitos dizem: os EUA, aliás as suas elites dirigentes, pretendem continuar a mandar no mundo. E desforrarem-se de alguns dissabores sofridos.

A fraqueza da Europa não permite que daqui saiam alguma vez obstáculos importantes ao domínio norte-americano. O pragmatismo chinês (muito determinado pelas limitações militares da República  Popular da China) fará com que a sua influência económica não seja acompanhada por influência política de igual peso. A Rússia está longe de ser a potência que foi a URSS, e tem de acompanhar com muito cuidado o que se passa na Europa de Leste e no Médio Oriente. A Índia está muito absorvida com os seus problemas internos e com a rivalidade com o Paquistão. Numa América Latina disposta de uma vez por todas a deixar de ser o pátio das traseiras do imperialismo norte-americano, com governos de esquerda dispostos a promover os seus povos e a defender o socialismo e a democracia, há hoje em dia oportunidades para reforçar a opção por um caminho novo, que enfrente o furor imperialista norte-americano. O equilíbrio mundial depende muito disso. Se se romper ainda mais, que desvarios mais terão os povos de suportar?

Hugo Chávez pode ser uma peça forte neste xadrez. Muitas dificuldades terá de enfrentar: desde a sua saúde que o pode atraiçoar, os problemas internos do seu país, ainda com muita pobreza, elevadíssima criminalidade, comunidades muito diferentes e onde continua a subsistir uma oligarquia poderosa que o detesta, porque ele lhe faz frente, no exterior amigos e aliados nem sempre muito confiáveis, nem muito confortáveis, como Assad da Síria ou Ahmadinejad do Irão, a incompreensão e a arrogância dos europeus (recorde-se o episódio com Juan Carlos de Espanha, o qual, como pessoa e como dirigente, não lhe chega aos calcanhares). Tem de fazer grandes obras de reestruturação no seu país, para melhorar as infra-estruturas propriamente ditas, que requerem grandes melhorias, diversificar a economia, combater a criminalidade, um flagelo antigo no país, e que a propaganda adversária tem usado para o desacreditar. Se ele tiver êxito, a Venezuela  poderá dar um grande contributo ao mundo como exemplo de país onde o socialismo trouxe a melhoria da vida das pessoas. E ajudar a deter o 7º de cavalaria.

1 Comment

  1. Se os países da bacia do Mediterrâneo tivessem no poder gente mais digna, defensora dos interesses dos seus povos, que deixassem de se submeter à Europa dos ricos, poder-se-ia vislumbrar um bloco mundial com mais força, e capaz de provocar contágio, para fazer frente aos desígnios imperialistas donde quer que venham.

Leave a Reply