O homem da tenda – Hannes Pétursson

(Adão Cruz)
Hannes Pétursson nasceu no Norte da Islândia, em 1931. Estudou Literatura Islandesa na Universidade em Reiquiavique e mais tarde Germânicas na Alemanha, em Heidelberga e Colónia. Trabalhou em editoras nos anos sessenta e setenta, publicando obras sobre a história da região de Skagafjordur. Hannes Pétursson é conhecido como poeta, tendo publicado o seu primeiro livro em 1955. De então para cá, publicou várias colecções de poemas, de contos, de ensaios e de biografias. É também tradutor, tendo vertido para o Islandês A Metamorfose de Kafka. O Homem da Tenda é retirado de os “Contos do Norte”, de 1961, incluído numa antologia publicada em Espanha, “Cen Años de Cuentos Nórdicos”. Esta versão portuguesa é traduzida do castelhano e revista por Gudbergur Bergsson, escritor islandês que residiu muitos anos em Espanha e tradutor de alguns textos portugueses para Islandês.

(tradução do castelhano de Luísa Costa Gomes)

(revisão de Gudbergur Bergsson)

Indo pelo planalto deserto para leste durante o Verão, pareciam onze cavalos brancos parados ao lado uns dos outros na colina de rocha, bastante antes de lá chegar. Mas ao aproximarmo-nos, via-se que eram as tendas de campanha dos caminheiros.

As camionetas de carreira que vinham do sul cruzavam o planalto ao entardecer, enfiando-se na estrada estreita, verme retorcido que um rápido riacho dividia a cada estrangulamento. Então, os portos da montanha para oeste e as encostas defronte tinham a pele bronzeada do entardecer, enquanto no barranco por onde seguia a estrada havia uma luz cinza chumbo, também nas tendas.

Mesmo antes de chegar às tendas, os passageiros viam uns homens em mangas de camisa, que se lavavam no rio pedregoso. E quando as camionetas passavam junto ao telheiro, já costa abaixo, travavam um pouco a marcha porque era ali que estavam os miúdos, acabados de lavar e com o cabelo encharcado, esperando para apanhar os jornais que os passageiros já tinham folheado o caminho todo desde o princípio da linha e que agora lhes atiravam.

Diante de cada tenda havia um homem ou vários, olhando as camionetas, embora alguns se contentassem em pôr a cabeça de fora pela abertura da tenda. E à porta do telheiro estavam as mulheres, de avental na barriga, ladeadas por dois – às vezes três – desses homens sempre agarrados às saias delas e que se tinham oferecido para as ajudar a lavar a loiça.

As camionetas nunca paravam; os condutores abrandavam o tempo estritamente necessário para acenar com a mão; e voltavam-se logo para a estrada nova, aceleravam e os passageiros paravam as sacudidelas e diziam: “Que bom, já estamos na estrada nova” e divertiam-se, porque iam a descer a costa e só faltava uma hora de viagem até à paragem.

Mas, embora os passageiros pusessem as cabeças fora das janelas e dessem toda a atenção ao que se abria aos olhos ao redor das tendas, não viam evidentemente mais pessoas que as que estavam ali fora, para se lavarem no rio ou seguir a passagem das camionetas. Por exemplo, nunca viam Gudmundur Stefánsson, porque logo a seguir ao trabalho lavava-se, mudava de roupa e ia ao telheiro comer. Quase não participava nas discussões durante a refeição e nunca ficava muito tempo sentado depois do café, mas ia logo para a tenda. Era o único homem do grupo que tinha tenda individual; era um privilégio antigo, porque trabalhava como jornaleiro há mais verões que todos os outros no planalto, fora o capataz.

Quando Gudmundur voltava para a tenda acendia o fogareiro de petróleo para a aquecer e passava pelas brasas, uns dez minutos. Quando acordava, olhava para o relógio de bolso e via que eram só sete e meia; então, agachava-se na caixa pintada de azul, atrás da cama; ali tinha uma garrafa com uma pinguinha de aguardente com que molhava os lábios ao fim de semana quando não ia a casa, como era hábito, porque há tempos deixara a granja e sua mulher debaixo da erva verde, e não tinha razões para abrir caminho até casa ver os filhos todos os fins de semana. Não se concedia nem uma gota durante a semana, mas pegava num dos livros que levara consigo na Primavera, deitava-se de costas na cama — na tenda estava-se muito quentinho — punha os óculos e começava a ler. Com um ouvido, escutava o murmúrio do rio.

Normalmente, avançara poucas páginas no livro quando se ouviam as camionetas ao longe, e como vinham avançando, cada vez mais perto, e subiam com dificuldade a costa mesmo a oeste da tenda. Então inundava-lhe o espírito, como de costume, um ligeiro mal-estar; despertava-lhe no peito uma sensação estranhamente doce e dolorosa ao mesmo tempo, porque ele nunca na vida fizera uma viagem, nunca fora à capital e provavelmente nunca iria, embora nesse tempo as pessoas lá chegassem num só dia e as camionetas ainda essa manhã lá tivessem estado.

Mas ele continuava a ler. No entanto, podia acontecer levantar os olhos e pôr-se à escuta, às vezes até deixava cair o livro sobre o peito e olhava fixamente em frente quando ouvia que as camionetas tinham chegado às tendas. Mas aceleravam e afastavam-se mais e mais até que o som dos motores morria a leste no planalto deserto.

Quando voltava a ouvir o calmo murmúrio do rio, levantava devagar o livro do peito e continuava a ler.

(in FICÇÕES. Revista de Contos, Nº. 9, Tinta Permanente)

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