O PATO ALGEMADO – VI – por Sérgio Madeira

O Pato algemado VI

SUGESTÃO DE UM CARTAZ PARA OLIVENÇA:

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O ESTRANHO CASO DO PASTOR ALEMÃO – A Sapateira Prodigiosa e não só – por Sérgio Madeira

Naquela manhã, no café da Duque de Loulé, Filipe Marlowe meditava e o Pais, cansado do silêncio, enquanto deitava a garra a um terceiro pastel de bacalhau, perguntou: – O Lopes da Verga, em Madrid? Deve ser coisa ordinária.  Não conheço. Estive foi num teatro da Gran Via, um musical com gajas nuas… Filipe não ouvia, imerso que estava em cogitações lorquianas … – Tenho de ir a Madrid… – O Pais palitava os dentes – Só se for à sua custa. A polícia não paga ajudas de custo. Para mais para ir ver esse tal Lopes.  Mas Filipe insistiu, o Pais lá arranjou uma verba especial.

Para ser mais económico, tomou o Lusitânia em Santa Apolónia às nove e meia de uma noite outonal. Chegou a Chamartin às 8 e meia da manhã seguinte e, tomou o metro para a Gran Via, mudando de linha em Alonso Martínez. Um jurista do século XIX que redigira o código civil… tentou recordar-se do ano. Ao contrário do que Pais dissera, a cultura era para a cabeça de Marlove o mesmo que tapetes e capachos eram para os pés. O seu raciocínio caía frequentemente em alçapões de conhecimentos inúteis.

O teatro estava fechado, mas descobriu uma porta lateral aberta e encetou um diálogo complicado com uma empregada de limpeza. Ficou de voltar pela tarde, hora a que poderia falar com o encenador de La zapatera prodigiosa. Num quiosque da estação de Chamartin comprara o El Pais. Veio ler para um café perto do teatro. Mas em Lisboa a vida não parara.

Marília que morava em Almada, vinha de barco até ao Terreiro do Paço e depois subia a Rua do Ouro e tomava um café na Chineza. Naquele dia em que o patrão fora a Madrid viera mais cedo. Ao balcão da Chineza, tomando a bica,  vira marido e o amante de Maria Teresa Corsselle entrarem conversando amistosamente. Foram para a sala do fundo.  Como não a reconheceram (ela vira-os no cemitério e assistira à cena de pugilato), veio sentar-se numa mesa próxima na sala com porta para a Rua dos Sapateiros. Passados poucos minutos  viu chegar um tipo… Discretamente, Marília telefonara ao inspector Pais relatando-lhe o ar cordial com que os dois conversavam e o aspecto suspeito do terceiro homem. Alto e forte, cabelo abundante de um louro escuro, atado em rabo de cavalo. Marília fingia ler o livro que lhe servia de distracção durante a travessia do Tejo, não perdia nenhum dos movimentos dos três homens. Em dada altura, marido e amante de Teresa passaram para as mãos do terceiro homem cada um deles um envelope. Fora este pormenor que a levara a ligar ao inspector. Em pouco mais de um quarto de hora o Pais chegava, entrando com dois agentes pela Rua do Ouro, enquanto outros dois se postavam na porta da Rua dos Sapateiros.

Os três homens foram detidos.  Apertados nos interrogatórios, rapidamente o Pais tinha a história toda – marido e amante tinham-se posto de acordo para suprimir a industrial e tinham pago a um mafioso de Leste para fazer o trabalho. Filipe desistiu da entrevista no Lope de Vega. Tinha pela frente muitas horas até que o Lusitânia para Lisboa partisse.

No táxi que o trazia da Portela á Baixa, chegado da viagem a Frankfurt, Marlove recordava este caso. Mas como pulga teimosa, a recordação do pastor alemão não o largava.

A seguir – O Lobo da Alsácia e a bola de Berlim

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