SER ESTRANGEIRO – por Raúl Iturra

O substantivo estrangeiro passou a ser um conceito caro para a Antropologia, uma Ciência que estuda o pensamento do Outro, como me ensinou o meu antigo professor Claude Lévi-Strauss no Collège de France, universidade criada no Século XVI pelo grupo de semitas que habitavam na França, para se opor à Católica Romana de La Sorbonne, cuja fundação ocorreu no Século XIII. Nos tempos da Inquisição os semitas não eram aceites na universidade católica romana. Tinham apenas as escolas judaicas para aprender o Talmude, o livro sagrado dos judeus, rejeitados em todos os países por serem culpabilizados pela morte do chamado Filho de Deus, ou Jesus Cristo. O Colégio de França é um estabelecimento de ensino superior fundado em 1530, em Paris, pelo rei Francisco I para atender a um pedido do erudito Guillaume Budé. Na Grã-Bretanha,o meu antigo professor e chefe da Cátedra em que eu estava integrado, Sir Jack Goody, ainda vivo e activo nos seus 95 anos, foi o primeiro a falar dos semitas nos seus textos sobre a família, nas nossas conversas e na supervisão das duas teses que orientou para o meu conhecimento da família, o seu tema favorito, sobre este tema, escreveu em 1976 o texto Production and Reproduction, CUP do qual não existe versão em português europeu. Especialmente o de 1983, intitulado na versão original: The development of the family and marriage in Europe, CUP, traduzido para português com o título A lógica da escrita e a organização da sociedade, 1987, Edições 70, Lisboa.

Mencionar estes textos, entre tantos outros que falam do Outro, deve-se à afeição dos meus educadores e amigos, com os quais analisei o núcleo designado em Antropologia como grupo doméstico, base fundamental da interacção social. O pensamento cultural e as formas de interagir são aprendidas em casa, como define o meu antigo docente Meyer Fortes no seu texto de introdução na colectânea organizada por Jack Goody em 1958: The developmental cycle in Domestic Groups, sem tradução portuguesa. Meyer Fortes, fiel semita, semeou este conceito numa frase curta: um sistema social, como definição básica, tem o factor tempo que circula ao longo da história de uma família (página 1 da Introdução ao livro, a tradução é minha e livre). O autor citado não era apenas um grande educador que formara J. Goody, eu próprio e outros, bem como sabia que para pensar nos Outros,era necessário observá-los em trabalho de campo, no convívio com eles, como ele fez entre os Lo-Wiili, cidadãos da actual República do Gana que ele e Jack Goody, enquanto analisava sob a orientação de Fortes os Lo-Dagaba, ajudaram a libertar com a atividade do Partido do Povo, organizado por todos eles. Esses Outros passaram a ser os proprietários e legisladores da sua própria pátria. Acabaram com o substantivo activo de ser estrangeiros. Lévi-Strauss colaborou activamente na criação do conceito de ser estrangeiro, lembrando-nos no seu texto de 1952, Race et Histoire, editado pela Librairie Plon, Paris, escrito a pedido da UNESCO e traduzido para português em 1980 pela Editorial Presença, Lisboa, do conceito de etnocentrismo, definido no capítulo 3, páginas 19 a 29, que diz: parece que a diversidade das culturas raramente surgiu aos homens tal como é: um fenómeno natural, resultante das relações directas ou indirectas entre as sociedades; sempre se viu nela, pelo contrário, uma espécie de monstruosidade ou de escândalo; nestas matérias, o progresso do conhecimento não consistiu tanto em dissipar esta ilusão em proveito de uma visão mais exacta como em aceitá-la ou em encontrar o meio de a ela se resignar, pelo contrário, uma espécie de monstruosidade ou de escândalo; nestas matérias, o progresso do conhecimento não consistiu tanto em dissipar esta ilusão em proveito de uma visão mais exata como em aceitá-la ou em encontrar o meio de a ela se resignar. A atitude mais antiga e que repousa, sem dúvida, sobre fundamentos psicológicos sólidos, pois que tende a reaparecer em cada um de nós quando somos colocados numa situação inesperada, consiste em repudiar pura e simplesmente as formas culturais, morais, religiosas, sociais e estéticas mais afastadas daquelas com que nos identificamos. “Costumes de selvagem”, “isso não é nosso”, “não deveríamos permitir isso”, etc., um sem número de reacções grosseiras que traduzem este mesmo calafrio, esta mesma repulsa, em presença de maneiras de viver, de crer ou de pensar que nos são estranhas. Deste modo a Antiguidade confundia tudo que não participava da cultura grega (depois greco-romana) sob o nome de bárbaro; em seguida, a civilização ocidental utilizou o termo de selvagem no mesmo sentido… (retirado da versão em linha do livro do meu educador, espécie de pai e amigo que perdi no dia em que completava 102 anos, 28 de Novembro de 2010, escrito na página web

http://umapiruetaduaspiruetas.files.wordpress.com/2010/05/levy-strauss-raca-e-historia.pdf

Eis como os meus velhos professores me têm ensinado a aceitar o facto de ser estrangeiro. Eu sempre me senti na minha própria pátria, seja qual for o país em que viva, e que nos meus 71 anos de idade têm sido muitos, com 55 de trabalho de campo para entender o Outro, como refiro no texto publicado neste blogue em setembro deste ano. Visito os meus amigos, convido-os a aparecer na minha casa, falo com eles, habituado como estou às aprendizagens dos mestres e instituições nomeadas neste ensaio. Não critico: falar mal, faz de mim um estranho, um estrangeiro, um perverso, um desconhecido! Exactamente o que não quero ser. Eis porque comecei o texto com a história das instituições, que tenho usado para saber mais, e com a intimidade com os meus mestres. Destes ficam a faltar os mais íntimos, Pierre Bourdieu, falecido em 2002 e Maurice Godelier, que me visita em casa e eu, na dele, em Paris. Assim, todos aprendemos mais nas conversas domésticas e informais, a comer e beber.

 Estrangeiro é quem não aceita outras maneiras de ser. Hoje sou português, a seguir, talvez chileno, só que nasci filho de espanhóis, tendo, ainda, vivido, poucos anos, com família britânica e neerlandesa. Estrangeiro, a ciência da Antropologia explica o pensamento dos outros, as suas formas de ser, que respeito e admiro. Os grandes Mestres ensinaram-me a nunca pretender ser o que não sou nem ocultar o que sou, mas nunca dizer nada de mim, para não ofender ninguém sem intenção. Bem ao contrário do que analiso neste texto escrito propositadamente para definir o EU perante o diferente OUTRO.

 Diferente, sim, mas isso não é pecado. Sou Eu em relação aos Outros.

4 Comments

  1. Escrevi este texto para minha hora semanal de Antropologia, com imenso prazer. Eu sabia que escrevia para o meu melhor editor, Carlos Loures, como não me canso de dizer em todos os meus textos. O erro está na apresentação como texto Geral, após de me ter sido solicitado escrever estritamente sobre Antropologia, o que tenho feito. Este texto pertence a essa minha ciência que pratico, que estuda e analisa o pensamento do OUTRO, denominado por mim Etnopsicologia da Infância, aprendida com George Devereux faz anos, fora de Portugal. Ser estrangeiro, como dizem todos os chilenos exilados como eu, ainda que nos outorguem uma nacionalidade portuguesa pelos serviços prestados a um país que não é meu mas que sinto ser a minha pátria, é delicado para não ofender aos nascidos e criados em Portugal, com essa tradição milenária de ser uma Nação unificada. Muita atenção é necessária para não escrever ideias que ofendam aos nascidos portugueses. A minha solidão na minha velhice, deve-se, como comenta o cineasta chileno Patrício Guzmán, no seu filme Allende, a não ser chileno no Chile nem português em Portugal. A história impregna-se nos nossos cromossomas para nos advertir esse cuidado para nos esmerarmos em sermos prudentes nos nossos textos: qualquer erro, ainda os não calculados, pode criar atritos que não desejamos causar. A Antropologia pura, é o melhor contributo: fala-se apenas de um outro que passamos a conhecer após morar com eles e trabalhar com eles nas suas obras ou literárias ou de construção da vida social

  2. Ser estrangeiro significa, na ciência que eu pratico, não pertencer a sítio nenhum. Os exilados somos estrangeiros na nossa própria pátria, sítio que raramente que raramente visito por sentir a tristeza de não ter crescido com eles o criado história em conjunto, dentro da mesma geografia. Ser estrangeiro e empreender uma batalha contra o neoliberalismo, sabendo que já que é uma batalha perdida. O crédito do estrangeiro esgota-se rapidamente, especialmente no dia em que os amigos tomam conta de nós e nos definem como pessoa que hostiliza e causa trabalho. É esta a ideia que está dentro deste texto, que pertence à Antropologia, definida por mim antes dentro da viagem dos Argonautas, tempos que passam num pestanejar. Eis o motivo pelo que tenciono orientar o leitor num comentário prévio a este, apoiado por vários.

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