Giuseppe Ungaretti – Itália
(1888 – 1970)
LUCCA
Em minha casa, no Egipto, depois da ceia e de rezado o rosário, minha mãe
falava-me destes lugares.
A cidade tem um movimento entre timorato e fanático.
Ao pé destas muralhas só se está de passagem.
Aqui a meta é partir.
Sentei-me à fresca à porta da pensão com gente que me fala da Califórnia
como de uma propriedade sua.
Descubro-me aterrado nos sinais particulares destas pessoas.
Sinto agora nas minhas veias o correr quente do sangue dos meus mortos.
Também eu peguei numa enxada.
Nas coxas fumegantes da terra surpreendo-me rindo.
Adeus desejos, nostalgias.
Sei quando um homem pode saber do passado e do futuro.
Conheço já o meu destino e a minha origem.
Já não me falta nada que profanar nem que sonhar.
Já gozei e sofri tudo.
Não me resta senão resignar-me a morrer.
Criarei portanto tranquilamente uma prole.
Quando um apetite maligno me impelia atrás de amores mortais louvava a vida.
Agora que considero, também eu, o amor como uma garantia da espécie,
tenho presente a morte.
(de “Allegria di naufragi”, versão de Pedro da Silveira)
Nascido e criado no Egipto (Alexandria), de pais italianos, já vivia em Itália no início da 1ª Grande Guerra. A sua obra poética compreende os volumes “Il porto sepolto” (1919), “Allegria di naufragi” (1919), “Sentimento del tempo” (1933), “La terra promessa” (1950), entre outros. Reuniu a sua poesia na edição definitiva “Vita d’un uomo”. Em português, podemos dispor de 5 poemas traduzidos por Pedro da Silveira (“Mesa de Amigos”, Assírio & Alvim, 2002).

