CARTA DE VENEZA – 29 – LIVRO DE OSCAR NIEMEYER EM ITALIANO – por Sílvio Castro

Podemos encontrar sempre muitas manifestações italianas que demonstram uma  constante curiosidade pelo Brasil e pelos brasileiros. Uma das últimas é a publicação neste 2012, pela editora Mondadori , de Milão, de um livro de Oscar Niemeyer: Il Mondo è ingiusto (L’Ultima lezione di un grande del nostro tempo). O volume é o resultado de uma série de entrevistas realizadas nos primeiros meses deste ano com o grande arquiteto brasileiro pelo escritor e jornalista italiano Alberto Riva.

Riva teve a feliz idéia de dar autononia às respostas do entrevistado, formando assim um volume diretamente de Niemeyer. Para mais ainda traduzir a complexidade constante das respostas, para adensar e esclarecer sempre mais as idéias enunciadas por Niemeyer, Valério Riva – grande conhecedor da vida brasileira por ter vivido no Brasil por muitos anos – algumas vezes se serve na definição final dos textos de Niemeyer,  de anteriores correspondentes enunciações presentes em muitos números da histórica revista de arquitetura Módulo ,nos seus números entre 1955 e 1978, bem como do livro do arquiteto veneziano, Lionello Puppi, Guida a Niemeyer (Mondadori, 1987).

 Oscar Niemeyer (1907), assim como outro ativo ultra-centenário de língua portuguesa dedicado à criação artística, Manuel de Oliveira, também chegado aos 104 anos de vida, agora nos permite uma revisão de uma provocadora informação que nos acompanhava desde a infância, isto é, a notícia difundida em muitos textos de crônica e de história do Brasil, da longevidade dos índios habitantes da terra descoberta por Cabral e revelada inicialmente por Caminha. O fato de receber notícias de que eles atingissem com muitas constâncias 110, 120 anos de vida, agora já nos parece muito mais possível, apesar de a contagem dos anos dos indígenas  terem sempre sido feita em luas… Mas, hoje, podemos esperar que tais exemplos se repitam, com muitas e muitas novas luas, para o arquiteto brasileiro e para o cineasta português.

 Oscar Niemeyer, desde a sua  juventude sempre se mostrou um intransigente marxista-leninista. E assim o é ainda hoje, como o confirma o seu atual O Mundo é Injusto. Mesmo diante de seus incontáveis sucessos, a começar de quando o jovem arquiteto carioca, depois do magnífico projeto, com Lúcio Costa, do Pavilhão brasileiro para a Feira Internacional de New York, de 1939, realiza no ano seguinte, 1940, o projeto que o consagrará para sempre, os edifícios ao redor do Lago de Pampulha, em Belo Horizonte, desejado pelo então também jovem prefeito da capital de Minas Gerais, Juscelino Kubitgschek de Oliveira. O gênio político de Juscelino se servirá sempre da colaboração da grande arquitetura feita por brasileiros, e assim poude surgir Brasília, em 1960, por obra de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa..

Desde a sua juventude, Niemeyer não muda jamais de ideologia política, bem como prossegue nos anos na  criação de grandes projetos espalhados por todo o mundo. Destes vão recordados o projeto da nova sede do Partido Comunista francês, de 1965; em 1968, quando de sua estada em Algeri, o edifício da Biblioteca Nacional; neste mesmo ano, o magnífico projeto do palácio da editora Mondadori, em Segrate, Milão; 1972, o inovador projeto para o Centro Cultural de Le Havre. Esta longa cadeia de obras-primas assume como um seu ápice em 1991 com o belíssimo Museu de Arte Conteporânea de Niterói, o Mac, que da capital do Estado do Rio de Janeiro, debruçada sobre as águas da baia de Guanabara, contempla a constante beleza da Cidade Maravilhosa, Rio de Janeiro. E aqui, mais que em qualquer outro momento Niemeyer une a arquitetura à água, confirmando o que ele afirma, quase com ingenuidade, que a presença do elemento água nos seus projetos deriva da sua convicção que mais do que qualquer outro elemento, a água reflete a arquitetura. Digo que se pode receber como uma ingenuidade expressiva tal afirmação porque recordo quando por muitos anos eu me deixava estar com  o meu gato Mino diante das águas noturnas de Veneza a contemplár, com os seus olhos fixos, a beleza dos palácios improvisamente liquidificados e adornados pelos reflexos das muitas estrelas.

Oscar Niemeyer começa o seu livro italiano, na sábia organização de Alberto Riva, com  uma recordação da infância quando, conta ele:

  “Desenhavo sem lapis e sem papel. Desenhavo no ar, com uma das mãos levantada.

Minha mãe me perguntava::<O que é que você está fazeno, ó garoto?>

E eu respondia: <Estou desenhando.>

  A partir daí, Niemeyer passa a exprimir o seu mundo de coerências. Uma coerência moral que se fez desde sempre política. E que soube aliar a esses valores tantas vezes desprezados, a estetica. Para Niemeyer, moral e beleza vivem sempre em estreito contacto.

 O pensamento niemeyriano se desenvolve em muitos capítulos de pequenas dimensões, densos e de grande força de síntese. Os títulos de muitos deles revelam a melhor natureza do grande arquiteteto brasileiro:”La fantasia è” , no qual encontramos conceitos pungentes, como:<Amo repetir que a arquitetura não é importante. A arquitetura é um pretexto. Importante é a vida. Importante é o homem!   Entretanto, a arquitetura pode ter uma função política, justamente porque se ocupa do homem e da sua maneira de viver..>

E ainda: “La maggioranza con cui dobbiamo stare”; “Cosa vogligamo? Cambiare la società”,  “La bellezza serve”, “Inventare il futuro”, “104 anni”: <Penso, em definitivo, que a vida seja uma experiência que se vive contra o mal, contrastando o mal.

Como se faz?  Fixando uma série de princípios.”

  Diante do seu longo percurso de vida, Oscar Niemeyer encontra a serenidade de confrontar-se mesmo com a idéia da morte:

  “Na minha idade, a liberdade continua no lugar em que sempre foi situada, na cabeça; na cabeça começa tudo. Apesar do sentimento da saudade e da consciencia da brevidade da vida, acredito que a felicidade seja conduzir uma vida solidamente presa aos proprios ideais e circundar-se de amigos.””

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