EM VIAGEM PELA TURQUIA – 21 – por António Gomes Marques

(Continuação)

           

No meio de dezenas de balões, sobrevoando a fantástica paisagem da Capadócia

Na aterragem, tínhamos à nossa espera umas tantas garrafas de «champagne», forma simpática de nos despedirmos mais pelo gesto do que pela qualidade do vinho que nos foi dado a beber. Que saudades tivemos então do bom espumante português, não tão conhecido como o francês, mas não de inferior qualidade.

O sorriso é demonstrativo do quão agradável foi a experiência

Mas até que se chegasse a um voo tão tranquilo, muita água passou por debaixo das pontes. Lembremos apenas os trabalhos pioneiros do português, embora nascido no Brasil, Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, o que nos obriga a recuar ao início do século XVIII, mais concretamente a 1709, quando conseguiu, em Lisboa, que a sua «passarola» subisse a 4 metros de altura, ficando assim para a história como o primeiro voo conseguido pelo homem. Mais tarde, José Saramago não se vai esquecer do feito, prestando uma verdadeira homenagem ao Padre Bartolomeu de Gusmão numa das suas obras-primas, «O Memorial do Convento», numa edição da Caminho, relembrando também que os tempos não estavam de feição para os que queriam construir um futuro melhor, progressista, como atesta esta pequena transcrição desta prodigiosa obra de Saramago:

«O padre Bartolomeu Lourenço entrou violentamente na abegoaria, vinha pálido, lívido, cor de cinza, como um ressuscitado que já fosse apodrecendo, Temos de fugir, o Santo Ofício anda à minha procura, querem prender-me, onde estão os frascos. Blimunda abriu a arca, retirou umas roupas, Estão aqui, e Baltasar perguntou, Que vamos fazer. O padre tremia todo, mal podia sustentar-se de pé, Blimunda amparou-o, Que faremos, repetiu, e ele gritou, Vamos fugir na máquina, depois, como subitamente assustado, murmurou quase inaudivelmente, apontando a passarola, Vamos fugir nela, Para onde, Não sei, o que é preciso é fugir daqui.»

Ao que parece, hoje já não é necessário «fugir daqui», é o próprio Governo que a emigrar nos aconselha.

Mas nós continuamos na Capadócia, em plena Anatólia Central, admirando as extraordinárias formas que são consequência, como já dissemos, dos dois vulcões extintos,em que as chamadas «chaminés encantadas» – peri bacalari – são as mais famosas e típicas, como se pode verificar pelas fotografias acima inseridas. Esta designação tem origem na crença dos antigos habitantes da Capadócia de que se tratava das chaminés das fadas que viviam no subsolo.

Na antiga língua persa, Capadócia tinha o significado de «terra de belos cavalos», dando naturalmente a sua contribuição para a constituição de grandes exércitos, devendo também a sua prosperidade à terra e, naturalmente, à agricultura. Com origem no valor dos cavalos machos, os romanos, durante a sua ocupação, criaram mesmo um imposto especial que incidia na sua venda.

Foi também terra de hititas nos séculos II e I antes da nossa era.

Se o turismo é hoje a principal fonte de receitas, não deixa de continuar a ser uma zona muito fértil, graças aos depósitos vulcânicos, de excelente produção agrícola, com cultivo de cereais, mas também de uvas – no século IV, por exemplo, há documentos que atestam ter sido já uma zona produtora de vinhos -, óleos vegetais, açucar de beterraba, grão-de-bico e cerejas. Nas paragens que íamos fazendo, tivemos oportunidade de comprar cerejas aos muitos vendedores que ali montam as suas bancas, cerejas essas que comemos deliciados, sabendo-nos a pouco o quilo que comprámos e logo devorámos. (Tenho de abrir este parêntesis para dizer que tive mesmo de me apressar para evitar que o Luís as comesse todas, naquela sua voracidade de comer tudo o que é bom!)

Quase todas as fotografias que ilustram esta parte do nosso escrito foram todas tiradas no Vale de Göreme, sendo também aqui que fizemos a nossa viagem de balão. É um verdadeiro Museu ao Ar Livre.

Para além das casas escavadas no monte vulcânico, que deve ser bem macio como as escavações que vimos o parecem atestar, e de que a fotografia abaixo é uma demonstração.

Há uma grande quantidade de capelas e alguns mosteiros escavados no monte. No que às casas respeita é interessante ouvirmos que a casa ia sendo escavada à medida das necessidades da família, ou seja, quando a família aumentava, escavava-se mais uma divisão que constituiria o quarto do novo membro.

Espantosos são também os frescos que encontramos nas capelas e mosteiros, datando as primeiras do século IX. Comecemos por ver o exterior de um dos mosteiros, um dos mais famosos – Mosteiro de Kizlar – em cujo interior viviam e trabalhavam os monges:

 (Continua)

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