EM VIAGEM PELA TURQUIA – 23 – por António Gomes Marques

(Continuação) 

O som produzido pelos vários instrumentos musicais tocados por uns tantos, enquanto a maioria vai rodopiando, num movimento que vai aumentando de velocidade até um ponto em que nos parece que vão todos cair, naturalmente por pensarmos que seria isso que nos aconteceria, com a palma da mão direita voltada para cima, pedindo a graça de Deus, e a esquerda para baixo, passando assim tal graça para o mundo, alcançando desta forma uma exaltação mística e colocando o corpo em harmonia com o Universo, o que exigirá uma grande concentração.

                       

Copiado do folheto

Traduzindo do folheto que nos entregaram antes do espectáculo, «A Sema  é composta por 7 partes com significados diferentes:

 A – A primeira parte começa com um “na’t” ou recitação de uma litania dado ser um elogio ao Profeta, que representa o amor divino. Esta peça, que se chama “Na’t-iSerif”, é também uma oração a todos os profetas anteriores a ele e portanto a Allah, criador de todos eles.

 B – Posteriormente, escuta-se um som de tambor que simboliza a ordem divina da criação universal («Sua ordem, quando quer algo, é tão-somente: Seja!, e é.» – Alcorão s. 36/v. 82).

 C – Segue-se a isso uma improvisação instrumental “tak-sim” de “ney” (flauta) que representa o suspiro divino que dá vida a tudo.

 D – Na quarta parte, ou “Devri Veledi”, os Semazen saúdam-se três vezes entre eles ao mesmo tempo que caminham em círculo ao ritmo do “pesrev” ou prólogo. Com isto, fica verificada a saudação de alma a alma através do corpo.

 E – A cerimónia da Sema é composta por 4 saudações ou “selâm”. Os Semazen tiram a túnica preta, de uma forma simbólica representam o número um que testemunha a unidade de Deus e, beijando a mão do Seyh Efendi pedem-lhe permissão para começar a Sema.

1 – A primeira “selâm” representa, com o nascimento para a verdade, o reconhecimento, por parte do homem, de Deus como criador e do seu próprio estado de criatura.

2 – A segunda saudação, testemunhando a esplêndida criação divina, expressa a admiração perante a omnipotência de Allah.

3 – A terceira saudação representa a transformação do sentimento de admiração e gratidão em Amor por meio do sacrifício da mente. Esta é a entrega total, o encontro submisso com Deus “Fenâfillâh”.

4 – A quarta saudação é, no final da viagem espiritual aceitando o seu destino, o regresso das obrigações de servidor.

Nesta saudação também participam o Seyh Efendi e o Semazen Basi (chefe dos Semazen). Nestes momentos, o Semazen, pela sua fé em Allah, experimenta a felicidade. “O Profeta crê no que o Senhor lhe enviou. Os crentes crêem em Deus, nos seus Anjos, nos seus Livros, nos seus profetas” e, por isso, também se sente feliz.

 F – A sexta parte continua com outra leitura do Corão: “Tanto o levante como o poente pertencem a Allah e, aonde quer que vos dirijais, notareis o Seu Rosto, porque Allah é Munificente, Sapientíssimo.” (Alcorão s. 2/v. 115).

 G – A cerimónia da Sema termina com uma oração recitada às almas de todos os Profetas, os mártires e todos os humanos.»

  

Copiado do folheto

 Antes de encerrar este capítulo, vamos ainda conhecer os:

 Sete Conselhos de Mevlâna

 Sê      como o rio em generosidade e em ajuda.

  1. Sê      como o sol em ternura e misericórdia.
  2. Sê      como a noite cobrindo os defeitos dos outros.
  3. Sê      como um morto em cólera e irritabilidade.
  4. Sê      como a terra em humildade e modéstia.
  5. Sê      como o mar em tolerância.
  6. Sê      visto como és ou sê como és visto.

 A Sema, a dança dos membros da Mevlevi, que me dizem ser também símbolo da dança dos planetas, está registada, desde 2008, na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da Unesco.

 Das leituras que fizemos, ficámos a saber que a Ordem Mevlevi foi banida em 1923 por Kemal Ataturk, o grande modernizador da Turquia e, no dizer do seu biógrafo Andrew Mango, um dos homens de estado mais importantes do século vinte. Mas quem governava em 1950 terá percebido que a Dança dos Derviches constituía e constitui uma grande atracção turística e autorizou a sua realização novamente, não só em Konya mas também em vários locais turísticos da Turquia e até em festivais musicais no estrangeiro, felizmente para mim e para a Fernanda, a Célia e o Luís, de tão maravilhados ficámos com o espectáculo a que, assim, pudemos assistir.

 Como não pudemos filmar nem fotografar o espectáculo, espero que a memória do que vi e algumas leituras que fiz não tenham sido atraiçoadas pelo que deixo escrito.

 E assim terminámos mais um dia desta nossa viagem pela Turquia.

(Continua)

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