EM COMBATE – 203 – por José Brandão

QUINTA-FEIRA, 29 DE NOVEMBRO DE 1973 (cont.)

Uma réstia de sol amarelo-esbranquiçada escondia-se por detrás do horizonte, quando a coluna, por fim, atingiu, sem percalços, as portas da vila do Zóbué. Foi quando uma sinfonia desconexa de buzinadelas dos klaxons das viaturas militares anunciou a chegada da coluna, no seu habitual ritual do dia-a-dia. À passagem pelo hospital, os indígenas aproximavam-se da berma do caminho de terra batida – ao alcatrão ainda não foi dada oportunidade para visitar estas paragens – ladeada por enormes e centenários plátanos. Esquecendo por instantes as suas penas, dores e canseiras, a população batia palmas e acenava à passagem dos carros. Duzentos metros à frente, lá estavam o quartel com placas em madeira, sinalizando LISBOA – 20000 Km; PISCINA – 150 mts; MALAWI – ao lado. Eufóricos, soltando urras e vivas, a “velhice” correu ao encontro dos heróis do dia, não só para vitoriar os companheiros de ofício, mas também para saudar e desejar as boas vindas à Companhia que lhes vem render. Numa enorme faixa branca, colocada ao lado da porta de armas podia ler-se: BENVINDOS AO ZÓBUÈ. A rendição de uma Companhia em zona de guerra tem um valor imensamente grande para quem vai partir dentro de um par de dias. Como um farol de salvação para o náufrago ou o balão de oxigénio para o moribundo, este acto significa o visto no passaporte do prisioneiro a caminho da liberdade. No caso presente, assinala o cumprimento de metade da comissão para os rendidos. A recepção aos portugas, com notícias frescas da terra e o camuflado cheirando a naftalina, prolongou-se pela noite dentro. Trocaram-se abraços, ganharam-se novos conhecimentos, conquistaram-se novas amizades, contaram-se dezenas de histórias, verdadeiras umas, nem tanto, outras.

SEXTA-FEIRA, 30 DE NOVEMBRO DE 1973

O primeiro dia neste quartel, onde tudo é novo, diferente e estranho. Aqui, estamos, a maioria, jovens quase imberbes, lançados às feras, no circo da guerra, pela nação que deveria protegê-los e prepará-los para a vida activa. Pobre país que seus filhos despreza! O dia foi destinado à descoberta do quartel e à instalação das nossa acomodações. Afinal, a velharia transfere-se dentro de quatro dias, para outro local.

DOMINGO, 30 DE DEZEMBRO DE 1973

O sinal foi dado por dois tiros de pistola, pelas 15 horas e 15 minutos. Acto imediato, uma granada de bazuca estoirou de encontro à porta do lado direito do Unimog, quando este contornava a derradeira curva do Morro da Mosca. O soldado condutor, ferido, conseguiu deter a viatura por entre os tiros de Kalashnikov e os disparos de G-3, misturados com a vozearia grave dos homens, donde sobressaíam vozes indecifráveis e gritos de dor. O sangue, às golfadas, desatou a correr rápido por entre os destroços do que fora uma viatura militar. A terra amarela empapou-se, escurecida pelo sangue, pelo suor e pelas lágrimas dos indefesos filhos desta ingrata nação. A areia dos sacos de protecção misturou-se com a terra lamacenta do chão. Num ápice, o inferno transferiu-se para aquele local do mundo. No chão frio, envolvidos num misto de lama e sangue, jaziam cinco homens. No interior da vala, à beira da picada, o soldado Cruz, prostrado sobre a arma, a cabeça metida numa pequena cova, tentou controlar a respiração, na ânsia de não fazer sequer um único movimento em falso. De bruços, ao lado do rodado traseiro da viatura acidentada, o furriel Felismino Gomes, com o braço direito rasgado, apercebeu-se da gravidade da situação, mas deixou-se permanecer imóvel, com a cabeça pousada num pequeno charco de sangue. Dois negros, do IN, aproximaram-se, disparando em rajada. Com o cano da arma, rodaram, entre 90º e 180º, os corpos prostrados por terra. No outro lado da picada, o soldado Vilela, acordando do pesadelo, gritou: – Ai! Ai! Socorro! Mãe! Mã… Logo, um dos negros da Frelimo, apontando a arma, disparou-lhe dois tiros na cabeça, silenciando para sempre aquela voz de falsete. Acto contínuo, despejou quase um carregador nos corpos que ainda se encontravam prostrados sobre o resto da carroçaria, enquanto o outro se inteirava do estado do furriel Felismino Gomes, do cabo Cruz e do soldado Silva, rodando-lhes o corpo com os pés. Sem vislumbrar qualquer sinal de reacção, apoderaram-se das G-3 e penetraram no mato, tão rápido como apareceram sempre disparando para a retaguarda. Choveram morteiradas e as granadas de mão distribuíram, em chuveirinho, os seus estilhaços no interior do capim. A reacção das NT, dispersas pelo grosso da coluna, obrigara os atacantes a debandar em retirada. A chegada de duas viaturas com reforços de Capirizange, a cerca de três quilómetros, contribuiu para a rápida retirada do inimigo que, perseguido, ainda teve maneira de deixar espalhado pelo terreno pedregoso, coberto com espesso capim, pedaços de algodão ensanguentado.

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