FAZ HOJE 91 ANOS – A NOITE SANGRENTA DE 19 DE OUTUBRO DE 1921 – por Carlos Loures

 Em 19 de Outubro de 1921, eclodiu em Lisboa uma insurreição de forças da Marinha e da G.N.R., criando uma situação descontrolada no decurso da qual foram assassinados o chefe do Governo, António Granjo, Carlos da Maia, Freitas da Silva e Machado Santos, o herói da Rotunda.

O governo de Granjo (ao centro de chapéu e barba). Onze anos após a proclamação da República os republicanos matavam-se entre si. A semente do pusht de 28 de Maio de 1926 estava lançada. O fim da I República aproximava-se.

A Guerra deixara a Europa devastada e desmoralizada. Com as democracias liberais desacreditadas, os regimes autoritários iam ganhando peso. Em Itália, Benito Mussolini e os camisas negras estavam a um passo do poder. Na Alemanha, digeria-se com dificuldade a humilhação imposta pelo Tratado de Versalhes – o nazismo crescia num caldo de incontida raiva. Em Portugal, ultrapassado o episódio  sidonista, vivia-se uma particular instabilidade – os golpes revolucionários, sucediam-se e os governos eram derrubados uns atrás dos outros. Raul Brandão caracterizava a situação – «uma marcha heróica para um cano de esgoto». Segundo Carlos Ferrão vivia-se «uma agonia colectiva e declínio nacional». Os grandes vultos da república estavam afastados – Afonso Costa exilara-se em Paris, Brito Camacho fora para Moçambique… António José de Almeida era o presidente da República. O chefe do Governo, desde 30 de Agosto, era António Granjo (1881-1921). Militante republicano, foi deputado, director do jornal República, ministro da Justiça e da Agricultura e quatro vezes presidente do Ministério. Poeta e combatente da Grande Guerra era homem de grande coragem. Quer o presidente da República, quer Granjo, líder do Partido Liberal, tinham derrotado nas urnas o Partido Democrático. E os militares apoiantes deste partido, revoltaram-se. Em 19 de Outubro de 1921, Lisboa acordou com os tiros de mais uma revolução. Desde as cinco e quarenta e cinco que tropas da GNR haviam começado a ocupar pontos estratégicos da capital. Na Rotunda a Guarda, que à época era a força militar mais bem apetrechada, instalou artilharia pesada e obuses, com os quais começou a flagelar alvos hostis. Só na Rotunda, a GNR concentrou 7000 homens. Granjo foi com alguns dos seus ministros para o campo de aviação da Amadora. Apresentou a demissão ao presidente António José de Almeida que a aceitou.

Cerca das cinco da tarde regressou a Lisboa já em poder dos revoltosos e refugiou-se em casa de Cunha Leal, amigo e vizinho e seu ministro das Finanças. A casa estava vigiada e os revoltosos souberam que Granjo ali estava. A situação política estava perdida. A revolta triunfara, com as tropas insurrectas ocupando todos os pontos-chave da cidade. Manuel Maria Coelho, o lendário tenente Coelho da revolução de 31 de Janeiro de 1891, agora  coronel, comandava os revoltoso, mas os acontecimentos trágicos daquela noite escaparam ao seu controlo. Nenhum partido ou organização reivindicou o horror daquela noite em Lisboa; quase todos o condenaram.

A «camioneta fantasma» começava a sua sinistra tarefa, levando António Granjo e Cunha Leal para o Arsenal. José Brandão, o autor de A Noite Sangrenta, um dos melhores livros sobre o tema, descreve de maneira viva o assassínio de Granjo: «O chefe do Governo, vencido, mantém até ao fim a coragem que o abatimento não excluiu. Salta os três degraus e, então, lança as suas últimas palavras, em que há ódio e resignação:

– Já sei o que vocês querem! Matem-me, que matam um bom republicano!

Soou uma descarga; debaixo, corresponderam. António Granjo caiu ao comprido, vertendo sangue por inúmeros ferimentos. Estava ainda nas últimas convulsões quando um dos assassinos, que, no dizer da testemunha ocular, é um clarim da GNR, de desmedida estatura, sacou da espada e a cravou no estômago com violência tal que, atravessando o corpo, ficou presa no sobrado. Depois, friamente, o facínora, pondo o pé sobre o peito de António Granjo, sacou a arma e gritou triunfalmente, mostrando-a aos companheiros:

– Venham ver de que cor é o sangue do porco!».

Sabe-se como tudo aconteceu. O que permanece um mistério, são as razões que conduziram a actos tão horrorosos. Vitoriosa a revolta, tendo Granjo pedido a demissão, por que motivo o eliminaram fisicamente? Li muito sobre o tema e a minha explicação é a de que não há explicação – ódio de classe? Os assassinos eram gente do povo, soldados rasos ou de baixa patente, com leituras apressadas de escritos revolucionários; as vítimas eram senhores, bacharéis, oficiais. A Noite Sangrenta, de José Brandão, vai tão longe quanto possível. A edição de 1991 (Publicações Alfa) está esgotada. Outro trabalho de um argonauta sobre o tema, é a peça de Hélder Costa, A Camioneta Fantasma, publicada pelas Edições Colibri..

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