PLANEAMOS A CIDADE A PENSAR NA CRIANÇA? Por clara castilho

Edifícios de betão, uns a seguir aos outros, passeios cheios de carros estacionados, pequenos recantos, que pretendem ser jardins, com equipamentos ultrapassados, decadentes, e por vezes estragados…Não, não pensamos a cidade a pensar nas crianças. Deixar espaço para elas se movimentarem corresponde a menos prédios que podem ser vendidos e menos dinheiro nas contas bancárias dos construtores.

Só um poder local forte e ciente do que pretende consegue impor medidas que tenham em conta os factores necessários a um bom desenvolvimento infantil. E porquê infantil? Porque tudo o que resulta de dificuldades neste momento da vida vai ter repercussões no futuro, muitas delas também do foro económico.

Por exemplo, a uma infância sedentária frente à televisão corresponde, muitas vezes, obesidade com as consequências de saúde que lhe correspondem.

E qual é a imagem que a própria criança tem dessa mesma cidade? Ela é sempre o resultado da vivência, do envolvimento físico e emocional com os espaços urbanos, e da participação na vida da mesma.

Maria João Malho estudou o ponto de vista da criança sobre este assunto, numa tese de mestrado defendida em Julho de 2003, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, a que tive o prazer de assistir, com o título A criança e a cidade – independência de mobilidade e representações sobre o espaço urbano”. Dela saiu um artigo publicado na revista Noesis (nº83 (Out.-Dez.2010), p.52-57), do qual retirei algumas informações.

 A investigação teve por base a criança como actor social e a cidade como cenário social. Os métodos da pesquisa partiram da “construção da realidade” feita pela criança, expressa pela escrita.

 Foi perguntado às crianças “O que é para ti uma cidade?” e pedido a 53 crianças (dos 9 aos 12 anos), de duas escolas da zona de Lisboa, que escrevessem um texto livre. Para além disso, foi aplicado um inquérito por questionário que abordava a identificação e caracterização sócio-familiar da criança, as suas rotinas de vida (gestão do tempo, das actividades, dos espaços e das actividades informais), a mobilidade da criança em meio urbano e a percepção e a representação dos espaços da cidade.

Podemos ver que:

–  As actividades mais realizadas em companhia da família são “passear e fazer compras de alimentos/ roupas”, para 56,6% das crianças; “passear” apenas é mencionado por 20,8%; e 13,2% vão às “compras de comida e roupas” e não passeiam.

– Quanto ao local onde gostariam de ir ao fim-de-semana, o mais referido é “parque de diversões”, para 15,1%, seguido, e com peso idêntico, por “passear” e ir à praia/piscina”; há 11,3% que afirmam querer sair de Lisboa; ir a “casa de família” e ir a “casa de amigos” é citado pelo mesmo número de crianças, com um valor igual a 9,4%.

–  Os locais de eleição para a brincadeira e o jogo, nos dias de semana, são o recreio da escola e, ao fim-de-semana, o espaço doméstico. As meninas brincam mais durante todo o dia e os meninos têm uma maior variedade de comportamentos e escolhas lúdicas. As práticas desejadas estão relacionadas com o “ar livre” e com o “movimento corporal”. Mas estas não são iguais nos meninos e nas meninas. Enquanto estas preferem actividades de lazer e brincar, os meninos escolhem actividades desportivas e actividades que exijam mais força física. Independentemente do sexo, as crianças andam pouco a pé, conhecem a cidade através da viatura da família, brincam pouco durante a semana, quase não brincam na rua, o “brincar à descoberta”praticamente não acontece. Como refere Carlos Neto (1999), está a criar-se uma criança “corporalmente passiva”.

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