Pentacórdio para Terça 23 de Outubro

por Rui Oliveira

 

 

   Nesta Terça-feira 23 de Outubro, como vem sendo hábito, é francamente escassa a oferta cultural e, dentro dela, como mais original destacaríamos o projecto de Rui Pina Coelho e Gonçalo Amorim intitulado “Um espectáculo para os meus compatriotas”, uma co-produção ZDB (Galeria Zé dos Bois)/O Negócio, espaço na Rua do Século nº 9 porta 5 (Lisboa) onde será diariamente apresentado às 21h30 até 28 de Outubro.

   Trata-se de uma criação/colaboração entre os artistas Carlos Marques,   Catarina Barros, Gonçalo Amorim, João César Nunes, José Manuel Rodrigues, Maria Joana Figueiredo,  Raquel Castro, Rita Abreu, Rui Pina Coelho e Vânia Rovisco.

   Explicam os autores : “ Um espectáculo para os meus compatriotas é um desabafo à volta de “A letter to my fellow countrymen”, de John Osborne (1961) e de outras coisas raivosas, tais como uma personagem do John Whiting, uma canção dos Pixies, umas bocas do Bob Dylan, umas cenas dos Sex Pistols e uns versos do Coriolano.

    O mote central é uma carta aberta que John Osborne, dramaturgo britânico, fez publicar no jornal “Tribune”, em 18 Agosto de 1961, onde, do Sul de França, dirige uma invectiva desabrida aos “seus compatriotas”. É uma carta ruidosa, raivosa, um jorro feroz de comentários sobre o Estado da Nação …

… Este espectáculo parafraseia o ódio da carta de John Osborne sobre a Inglaterra do pós-guerra e aponta-o para o Portugal de hoje. Para um Portugal refém da incompetência dos seus dirigentes. Para um Portugal em suspenso. Para um Portugal que parece não sentir necessidade de ter jovens, artistas, cidadãos. Para um Portugal em que a felicidade parece ser um luxo proibitivo. Este é, por isso, um espectáculo de ódio …

… Com este espectáculo continuamos uma interrogação sobre a crise do capitalismo e sobre a relação do indivíduo com as forças sistémicas do modelo capitalista … Mas, por mais respostas que vejamos ensaiadas e por mais caminhos que descubramos, ainda não sabemos o que fazer. Onde é que anda a nossa cabeça? Where is our mind?”

 

 

 

   Resta ao leitor o recurso aos filmes em exibição ou às exposições em mostruário. Como filmes do dia, destaca-se no Doclisboa’12 – Festival  Internacional de Cinema a projecção no Cinema Londres, às 19h15, do filme de Eloy Enciso “Arraianos” (2012). [Atenção: há igualmente projecção hoje Domingo 21 na Culturgest às 21h30]

   Tema : Os habitantes de uma pequena aldeia na fronteira entre a Galiza e Portugal, escondida nas profundezas da floresta, um mundo fora do tempo, vivem e trabalham numa rotina pacífica. Um dia, chega um estranho – a possibilidade de mudança, uma saída, um veículo de purificação …

   Documentam-se momentos da vida diária a par de cenas dramatizadas pelos aldeãos (vejam-se os trailers), entrelaçando-se esse quotidiano com citações da peça “O Bosque” do escritor galego Marinhas del Valle, uma parábola sobre a ditadura franquista. Quando rompe um fogo nos bosques, há sinais crescentes duma apocalipse iminente …

   Arraianos é um filme sobre a memória da vida rural e a sua resistência a desaparecer. Estes dois filmes-anúncio completam-se na reprodução da temática abordada :

 

 

   Outro filme do Doclisboa’12  sobre que há expectativa é o filme “Fogo” da já premiada realizadora mexicana Yulene Olaizola (não um documentário, segundo a autora) que acompanha os gestos minimais da vida de uma pequena comunidade piscatória da ilha do Fogo (no Norte do Canadá) cuja deterioração social força os seus habitantes a partir. Lugares outrora ocupados por humanos estão agora a tornar-se parte da tundra. Mas há residentes que decidem permanecer (em particular Norm e os seus dois cães Thunder e Pech), agarrando-se às suas recordações e chorando pelo passado tão diferente …

 

 

   Também no campo fílmico, o ciclo de cinema “De pata negra : Cine español com sello de calidad” organizado pelo Instituto Cervantes na sua sede (Rua de Santa Marta, nº 43 F) exibe “Solas”(1999), o premiado filme de Benito Zambrano (obteve 5 prémios “Goya”), com María Galiana, Ana Fernández e Carlos Álvarez-Nóvoa.

   Retrata o drama da incomunicação quotidiana numa sociedade patriarcal com a história de “… uma mãe e uma filha que se vêem obrigadas a viver juntas durante um tempo. A filha trabalha eventualmente como empregada de limpeza e, com quase 40 anos, fica grávida de um homem que não a ama. A mãe, uma mulher cheia de doçura, tem passado a vida ao lado de um homem que confunde as caricias com as bofetadas. No andar de cima vive só um idoso com o seu cão. A mãe pouco a pouco vai rompendo a dureza da filha e a solidão do vizinho – três náufragos, até fazer-lhes compreender que únicamente o amor pode ajudá-los…”

   É este o filme-anúncio (mas é já possível vê-lo integralmente … embora anti-cinefilamente em  http://youtu.be/EdyABZOuelM  ) :

 

 

  

   Neste campo ainda não esqueçamos que no Centro Cultural de Belém continua pelo segundo dia o ciclo «CCB no CCB – Camilo Castelo Branco : As paixões juvenis e o Amor de Perdição» o qual, nesta Terça 23 de Outubro, além de uma Conversa do crítico João Lopes com Maria de Medeiros, Margarida Gil e Graça Castanheira sobre “Amor de Perdição : o cinema no labirinto do melodrama” na Sala Almada Negreiros, às 18h, vai exibir no Pequeno Auditório, às 21h, a segunda abordagem cinematográfica ao tema do ciclo ou seja o filme de António Lopes Ribeiro de 1943 “Amor de Perdição”, com Assis Pacheco, António Silva, Carmen Dolores, Eunice Colbert, Barreto Poeira, Igrejas Caeiro, Óscar de Lemos e António Vilar nos principais papéis.

   Damo-vos aqui a oportunidade de o entreverem em versão integral :

 

 

   No campo das exposições e tendo em conta o tempo da sua duração, merece ser visitada a nova mostra do fotógrafo Daniel Blaufuks intitulada “UTZ”, presente na galeria Vera Cortês – Agência de Arte (sita na Avenida 24 de Julho, nº 54 – 1ºE) até 16 de Novembro próximo (de Terça a Sábado, 14h-19h).

   Segundo o crítico Chris Sharp, estes novos trabalhos de Daniel Blaufuks “seguem duas linhas de investigação mutuamente interdependentes : uma é a obsolescência e a outra a aura. Simultaneamente fascinado e perturbado pelo desaparecimento das tecnologias fotográficas analógicas, Blaufuks revisita-as em diferentes fases da evolução histórica da fotografia com o objectivo de determinar até que ponto estas possuem aura – e tudo aquilo que a sustenta, ou seja, autenticidade … Em quase todos os casos, o objectivo revolve em torno de questões específicas à aura e à obsolescência, pois segundo o artista quase poderiam ser lidas como uma espécie de equação: a existência da aura é virtualmente proporcional à obsolescência da tecnologia. Digo virtualmente porque se trata tanto de uma hipótese quando de uma afirmação. Pode-se intuir que Blaufuks age aqui quase como um cientista – é certo que como um cientista com um programa conspícuo, mas suficientemente desinteressado para permitir que esse programa seja desafiado pelos resultados da sua pesquisa…”.

                                 

 

 

   Por último pode ser interessante a visita na Galeria Sul do Museu do Oriente à exposição Sakura” que ali ficará patente até 16 de Dezembro próximo.

   Trata-se de uma colectânea de 220 trabalhos dos 73 melhores ilustradores japoneses que se apresenta pela primeira vez em Portugal, no âmbito da trienal Movimento Desenha 2012. A mostra, que tem vindo a percorrer o mundo, é o resultado da edição de 2012 de um concurso de arte ilustrativa realizado no Japão e cuja inauguração coincide com o florir das cerejeiras (sakura).

   À exposição juntam-se os ilustradores portugueses da revista “Banzai”, Manuela Cardoso, Marta Patalão, Cristina Dias, Rita Marques, Joana Rosa Fernandes, Inês Pott e Mariana Durana, com banda desenhada e ilustração ao estilo manga e anime.

                              

 

 

(para as razões desta nova forma de Agenda ler aqui ; consultar a agenda de Domingo aqui )

 

 

 

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