EM COMBATE – 204- por José Brandão – ÚLTIMA PARTE

O furriel Alberto Araújo, ao chegar à cabeça da coluna, deparou-se com um quadro deveras sinistro. Não se conteve e, levando as mãos à cabeça, chamou pelos seus homens. Disparou várias rajadas para ambos os lados do mato e, de seguida, atirou-se ao rádio transmissor a fim de transmitir a horrível notícia e pedir auxílio: – Alô! Alô! Aqui Charlie do Zóbuè. Enviar moscas com máxima urgência. Temos vários foxtrots. Repito: enviar moscas. Temos vários foxtrots e amarelos. A FREAC – grupo de combate da 6ª Companhia do Batalhão de Comandos, também recém-chegada de Capirizange, embrenhou-se no interior do capim, fazendo uma batida ao terreno. Passada uma longa hora, – no mato, os ponteiros do relógio capricham em não avançar – é que foi, então, possível vislumbrar, rasgando o espaço aéreo, de azul pintado, os helicópteros para as evacuações. Apesar da segurança montada em redor, pelas NT, foi ainda escutada uma derradeira rajada, disparada bem das entranhas do capim, em direcção do último hélio, em manobras de descolagem. Perante a necrófila situação, o furriel Carlos Marques, como graduado mais antigo ali presente, sentiu-se na obrigação de passar a comandar a coluna. Para o furriel Gabriel Medeiros um apertado nó sufocou-lhe a garganta. A pedido do soldado Vilela, fora incumbido de colocar nos correios, na cidade da Beira, uma carta para a sua família. Que fazer, agora que o companheiro só chegará a casa num caixão de chumbo? As cinzas do mato, por certo, que tragaram as palavras simples e afectuosas do nortenho, amassadas com a seiva da vida. Para a história, fica o registo da morte dos soldados Vilela, Álvaro Santos, Adão, Manuel Santos e o condutor do Unimog 404, Domingos M. Carrazedo, pertencente à CCS. A estes, acrescente-se o furriel Felismino Gomes, o 1º cabo Manuel Alberto, os soldados Silva Gomes, Teixeira (Lixa), Aguiar Pereira e ainda dois civis, feridos em combate. – Honra e glória às suas almas!

DOMINGO, 17 DE MARÇO DE 1974

Ontem, em Portugal Continental, um grupo de oficiais revoltou-se, nas Caldas da Rainha. Opunham-se ao regime vigente. Quem não se opõe a tão famigerada ditadura? Os revoltosos acabaram atrás das grades. Mas na panela já começou a fervura. E qualquer dia transborda.

SEXTA-FEIRA, 26 DE ABRIL DE 1974

Toda a gente acordou a respirar a liberdade. Os rostos confirmavam a alegria que invadia o coração. Fez-se uma enorme caça às notícias difundidas sobre os acontecimentos que tinham lugar em Lisboa. Portugal encetou uma nova era, uma nova forma de vida. A democracia nasceu, ontem. É preciso criá-la e fazê-la crescer em segurança para o bem de todos os portugueses. Quem não deve ter gostado da mudança? O Administrador Civil e o chefe da PIDE-DGS com o seu séquito de bufos, pois amiúde, entrando e saindo no quartel e com reuniões sistemáticas com os oficiais, não estão muito seguros com a situação presente. Será que lhes pesa a consciência pelos crimes praticados sob a capa da ditadura? Será que os eventos narrados pela população, de homens e mulheres atirados a soco e a pontapé, sem dó nem piedade, para dentro do braseiro das cubatas, não foram, nem são do conhecimento das ditas altas esferas governamentais? Ou nada foi provado? Ou será que ainda se alimenta o conceito que o preto é o pobre diabo por oposição ao mezungo que é suposto saber o que é bom como um deus na terra africana? Pobres deuses com pés de barro! Para comemorar a queda da ditadura fascista, de manhã, o capitão ordenou que a bandeira nacional fosse içada no mastro com as devidas honras militares. Com toda a Companhia em formatura na parada e ao som do toque de corneta, lentamente, a bandeira verde rubra, ostentando as cinco quinas portuguesas, galgou o mastro e, impelida pelo vento, permaneceu todo o dia, desfraldando uma vertiginosa dança sob os raios dourados do sol africano.

“IREMOS ATÉ ONDE A PÁTRIA FOR”Esta foi a divisa do Batalhão Expedicionário 5014.

Convém lembrar que, nas mais diversas e adversas condições, os nossos militares fizeram o que melhor souberam e puderam, perante as condicionantes político-militares reinantes à época. É também imperioso recordar algumas palavras de um dos mentores da Revolução de Abril 1974:

“…fica claro que, a generalidade dos que fizeram a guerra, a fizeram porque a isso foram obrigados e não porque sentissem ser esse o seu dever.” – (Vasco Lourenço, capitão de Abril).

Este trabalho tem por base o Diário de Guerra da 2ª Companhia do Batalhão Expedicionário 5014, durante o período de comissão militar obrigatório no Zóbuè, província de Tete – Moçambique, de Novembro de 1973 a Dezembro de 1974, escrito pelo ex-furriel Araújo.

http://bravosdozobue.blogspot.com/

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