Tonino Guerra – Itália
( 1920 – 2012 )
CANTO SEGUNDO
Esta manhã mal saí do portão
parecia-me ter esquecido alguma coisa em casa.
Dois passos até ao damasqueiro
e toca a regressar.
Agora que nada resta para fazer
fico sentado diante da janela
e pergunto-me a mim mesmo: Queres isto? Queres aquilo?
Deitei fogo a páginas de livros, a calendários
e mapas. Para mim a América
já não existe, a Austrália igualmente,
a China na minha cabeça é uma fragrância,
a Rússia uma alva teia de aranha
e a África o sonho de um copo com água.
Há dois ou três dias sigo os passos de Pinela, o camponês,
que procura o mel das abelhas selvagens.
(de “Il Miele”, trad. de Mário Rui de Oliveira)
A sua fama internacional provém sobretudo da sua actividade como argumentista cinematográfico, colaborando com Fellini, Antonioni, Tarkovsky e outros. A sua obra poética, escrita em dialecto romagnolo (da Emilia Romagna) reparte-se por “I bù” (1972), “Il Miele” (1981), “La Capanna” (1985), “Il Viaggio” (1986). Em português podemos dispor de “O Mel” (Assírio & Alvim, 2004), trad. de Mário Rui de Oliveira.

