TRAFICAR ARMAS, TRADUZIR CARTAS COMERCIAIS, ESCREVER FRASES PUBLICITÁRIAS… – por Carlos Loures

Esta vaga de reflexões (um pouco desordenadas) sobre o destino que os poetas dão ao fogo que a palavra poética significa, sobre a forma como o talento poético se transforma no pão que comem, foi desencadeado por um livro de Dominique de Villepin,  Eloge des voleurs de feu. Partindo da citação de Rimbaud, fala de uma série de poetas, de “ladrões de fogo”. Voltarei a este livro, uma edição de 2003, mas que só agora me chegou (por acaso) às mãos.

                                                                      À volta da mesa, por Henri Fantin-Latour, 1872. Rimbaud é o segundo à esquerda, tendo ao seu lado direito Paul Verlaine.

Transcendência poética e poder visionário obtidos através do “longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos.”, dizia Rimbaud numa carta, revelando a sua receita para viver mais depressa, a uma velocidade superior. Com 16 anos escreveu uma obra que século e meio depois ainda surpreende pela audácia e fulgor das imagens. Mas não é da sua poesia que quero falar – é do mistério que envolve este adolescente genial que se transforma num adulto que em nada corresponde ao que o enfant terrible prometia vir a ser.

 A sua obra foi criada num estado de alucinação – o «desregramento dos sentidos – álcool, drogas, sexo, em doses desmedidas, terá contribuído para proporcionar em meses uma intensa experiência de vida. A ligação amorosa com Paul Verlaine, que deixou a mulher e o filho para mergulhar com o seu jovem amante nas emoções da Comuna de Paris, após o que foram ambos para Londres. A relação acabou mal com Verlaine a tentar matar o rapaz, desfechando-lhe dois tiros que feriram Rimbaud superficialmente.

Rimbaud voltou a casa de sua mãe, em Charleville, nas Ardenas, e completou Une saison en enfer. A tradução óbvia seria Uma estação ou Uma temporada no inferno. Como já referi, a primeira tradução portuguesa foi a de Mário Cesariny de Vasconcelos, em 1960, com o título de Uma Época no Inferno. Depois, Cesariny lançou nova edição com o título de Iluminações – Uma Cerveja no Inferno. Cesariny tinha a convicção de que Saison se referia à marca de cerveja belga que se vendia nas Ardenas – algo como “Uma Sagres, ou uma Super Bock, no Inferno”.

 A obra traduz os alucinantes meses vividos com Paul Verlaine. Poetas malditos, foi como Verlaine  descreveu a si e a Rimbaud. Roubar o fogo do Olimpo para acender um cigarro, matar o pai para poder ir ao baile dos órfãos ou descer ao Inferno para beber uma cerveja, não serão atitudes equivalentes?

Após ter escrito as Illuminations,  deixou de escrever, suscitando várias interpretações – há quem pense que tinha como objectivo enriquecer depressa  para poder voltar a escrever sem se preocupar com a subsistência. Vamos ver no que resultou dessa opção. Em 1876, com 22 anos, alistou-se como voluntário no Exército Colonial Holandês indo para Java, na actual Indonésia. Desertou pouco depois, regressando a França clandestinamente num barco de carga. Em 1878 vamos encontrá-lo em Lanarca, na ilha de Chipre onde trabalhou como capataz numa pedreira. Adoeceu, contraindo uma febre tifóide, e voltou a França. Em 1880 chegou a Aden, no actual Iémen, onde obteve um lugar de responsável pelo escritório da companhia Pierre Bardey. Em 1884, com 30 anos, demitiu-se da Bardey e tornou-se mercador em Harare, na Abissínia (Etiópia). Embora negociasse outras mercadorias, o fulcro do negócio era o tráfico de armas. Tudo corria bem, quando um cancro no joelho direito o obrigou a voltar a França onde em Marselha lhe amputaram a perna. Voltou a África, mas o estado de saúde logo se agravou, forçando-o a um novo regresso a França. Após meses de sofrimento, em 1891, apenas com 37 anos, morreu.

Jean-Arthur Rimbaud – uma poesia magnífica, profética, incendiária – o adolescente que a escreveu, deu lugar a um traficante de armas. O Ladrão de Fogo, o Príncipe Poeta, como se auto-designou, transformou-se num homem que nada tinha a ver com o jovem que passou uma temporada no Inferno ou, segundo Cesariny, ali desceu, apenas para beber uma cerveja. Pessoa e O´Neill pouparam-se à descida aos infernos, mas viveram no Purgatório, traduzindo cartas comerciais ou encontrando frases para vender colchões ou berbequins.

Voltamos ao princípio – esta sociedade deixa liberdade ao poeta para fazer o que quiser. Incluindo a liberdade de não poder exercer a sua arte. Como é minha convicção, a arte constitui o principal traço distintivo entre seres humanos e animais. Ao desprezar a arte, ao transformá-la em mercadoria, em produto comercial, o capitalismo coloca mais longe o objectivo de superarmos a condição animal.

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