«Sei muito bem o que quero e para onde vou»
Introdução
Muito tem sido escrito sobre Salazar e muito tem sido escrito sobre a I República. A vida de Salazar e a obra da I República estão espalhadas por milhares de páginas que fazem destes dois temas motivo de eleição para centenas de autores de História.
Contudo, quer Salazar, quer a I República, têm sido vistos e apresentados como algo demasiado separado, escasseando, ou mesmo inexistindo, quem trate de abordar os dois temas numa visão de conjunto.
Neste Salazar e a I República que aqui se apresenta procura-se alcançar esse objectivo dando forma a uma leitura aberta a novas perspectivas.
O Salazar militante católico dos últimos anos da Monarquia, o Salazar activista político durante os anos da I República é parte de um perfil pro-monárquico que se detecta por vezes com alguma tibieza, e de um anti-republicanismo que se revela sempre com toda a clareza.
Das palestras do jovem seminarista de Viseu às opiniões do expedito jornalista de Coimbra existe um Salazar que se desdobra em múltiplas acções de combate pela defesa de ideias em que empenha todo o seu saber.
Numa República que não estima e em que não vê qualquer virtude coloca a religião católica no centro do seu pensamento e tudo o que faz é como fiel servidor da igreja católica apostólica romana.
A Igreja serve-lhe de ponto de encontro para amizades que irá manter por toda a vida. Gonçalves Cerejeira é uma dessas amizades. No CADC – Centro Académico da Democracia Cristã e no jornal Imparcial travam a mesma luta e defendem os mesmos ideais.
O ex-seminarista de Viseu e o futuro cardeal de Lisboa vivem juntos numa mesma casa em Coimbra onde conspiram em permanente ascenso.
Salazar não tem dúvidas acerca do que quer. Com a mesma facilidade com que odeia o dirigente republicano Afonso Costa confessa-se entusiasta do presidente da república Sidónio Pais.
Os motivos são óbvios: Costa fechara igrejas e prendera padres. Sidónio abrira igrejas e assistira a missas.
Era a chamada «República Nova» que tantas esperanças traziam a monárquicos e católicos, e também a muitos republicanos insatisfeitos com a política dominante do partido democrático de Afonso Costa.
Mas Sidónio foi Sol de pouca dura e, com o seu assassinato, tudo volta à primeira forma para desespero dos que já sonhavam com o regresso da realeza. Ficava a recordação do «presidente-rei», como lhe chamou o poeta Fernando Pessoa.
Mas a República que Salazar abominava nascera ferida de morte e parecia ter os dias mais que contados. Tudo o que era contra ela não se poupava a esforços para lhe apressar o óbito.
Salazar aprecia esses esforços e com eles colabora assiduamente.
Em 1921 quer fazer chegar a sua voz aos ouvidos mais influentes da Nação republicana e acaba por ir parar à Assembleia Constituinte.
Eleito deputado pelo círculo de Guimarães, integrado nas listas do Partido Católico, não aquece o lugar, abandonando o cargo logo após a primeira sessão.
Os seus gostos não iam para a canseira dos debates parlamentares.
Provavelmente já sabia «o que queria e para onde ia».
Queria ser energicamente anti-republicano sem ser explicitamente monárquico. Ia para onde pudesse ser ele próprio sem ter de prestar contas e receber ordens.
Nem a Monarquia que impunha um rei por descendência, nem a República que implicava um presidente por eleição estavam nos planos de Salazar.
A descendência real inata não lhe era possível, a eleição presidencial democrática não lhe estava previamente garantida.
Entusiasmavam-no outros meios de ascender ao Poder sem ter de passar por um Rei ou um Presidente de quem dependesse.
Para governar Salazar só precisa de Deus no céu e dos católicos na terra.
Na Igreja encontra a inspiração divina para a cobertura dos seus actos.
A política anti-clerical da I República é para Salazar um bom pretexto para se fazer notar ante os sectores que batalham para pôr fim ao regime saído da Revolução de 5 de Outubro de 1910.
A nova ordem republicana parecia não ser capaz de satisfazer os apoiantes e muito menos de conquistar os adversários. Desde os primeiros dias do novo regime, que os principais dirigentes republicanos eram vistos com preocupante desconfiança por um cada vez mais numeroso lote de críticos de indiscutível autoridade e de comprovado passado histórico em prol da causa republicana.
O rumo que estavam a dar à República trazia profunda consternação e gerava grandes inquietações entre todos os que queriam sentir a necessidade de cumprir melhor a «promessa» de 5 de Outubro de 1910.
Ainda durante o ano de 1910, aparecem lamentos e protestos de toda a ordem. De todo o lado surgem agoiros da pior sina.
Com pouco mais de meia dúzia de semanas a República era já vista como uma causa perdida e para estar por dias.
Para Oliveira Salazar quanto mais depressa a I República desaparecesse melhor era o seu futuro.
Quando Gomes da Costa sai de Braga em 28 de Maio de 1926 para pôr fim à moribunda democracia republicana já Salazar tem como certo que vai ser alguém na nova ordem que passa a dispor das cadeiras do Poder.
Sabe que pode ensaiar alguma hesitação inicial até ter a certeza de que a velha República está definitivamente sepultada e de que a nova Ditadura está devidamente assegurada.
Oliveira Salazar chega ao Poder num país que o deseja e nele acredita. Cansada de tantas hipocrisias, de tantos embustes e de tantas desilusões, muita gente apoiou este homem distante e reservado, a quem não se vislumbravam grandes ambições políticas porque sempre proclamara que as suas ambições se limitavam às aulas e ao convívio com os amigos.
Atravessara toda a vigência republicana com a convicção de uma certeza que irá manter inabalável por muitos anos.
Durante quase meio século reina como um rei que nunca pôde ser e preside como um presidente que não precisou de ser.
António de Oliveira Salazar será nome que os portugueses vão passar a ter presente e omnipresente em todos os aspectos da sua vida.
O país é o que Salazar quer. Salazar é o que Portugal tem de querer.
Da I República ficavam as romagens aos cemitérios nos dias 5 de Outubro e que a Policia aproveitava para lembrar que quem mandava era Salazar.

bom texto cheio de e bons sofismas , espera-se agora um digno desta animação democratica !