EM VIAGEM PELA TURQUIA – 27- por António Gomes Marques

Kemal Atatürk

(Continuação)

Impossível referir o dia e o mês do nascimento de Mustafá Kemal, dado não ser “prática dos muçulmanos otomanos registar essa data”, podendo ter ocorrido no período “de 13 de Março de 1880 a 12 de Março de 1881” (v. José Pedro Teixeira Fernandes, “Turquia: Metamorfoses de Identidade”, Instituto de Ciências Sociais, 2005). Se fizermos fé na Wikipédia, podemos então dizer que nasceu na Primavera de 1881, na cidade de Salónica, actualmente Tessalónica, na Grécia, mas antiga cidade “otomana estreitamente associada ao nascimento do movimento dos «Jovens Turcos» (Jönturkler, a partir do francês Jeunes Turcs).” (v. José Pedro Teixeira Fernandes, o. c.). Seguindo a tradição de não dar apelido aos filhos, os seus pais deram-lhe o nome de Mustafá. Posteriormente, o seu professor de matemática juntaria um segundo nome: Kemal, o que, em turco, significa perfeição, em reconhecimento da sua excelência como aluno. Podemos dizer que este seu professor adivinhava o que o futuro reservava para o seu pupilo.

Por pressão da sua mãe, frequentou uma escola religiosa (Mahalle Mektebi = escola da vizinhança), tendo depois sido transferido pelo seu pai, passado pouco tempo, para a escola Şemsi Efendi, um estabelecimento de ensino bem mais moderno. Frequentou de seguida a Escola Militar de Selânik e, a partir de 1896, a Escola Militar de Manastir, agora cidade da República da Macedónia com o nome de Bitola, matriculando-se, três anos depois, no Colégio de Guerra de Constantinopla, actual Istambul, concluindo o curso em 1902, formando-se também, passados mais três anos, pela Academia Militar, após o que é graduado no posto de 1.º Capitão, sendo colocado em Damasco, onde vai fundar, com alguns dos seus companheiros, uma associação clandestina, Vatan ve Hürriyet («Pátria-Mãe e Liberdade»), com o objectivo de lutar contra o despotismo do Sultão. No ano seguinte, 1906, sabe-se que fez uma viagem clandestina a Salónica, sendo promovido a Major-Ajudante em 20 de Junho de 1907, com colocação em 13 de Outubro do mesmo ano, no Quartel-General do 3.º Exército em Salónica

Entretanto, passa a integrar o CUP – Comité para a União e o Progresso, cujos membros eram conhecidos como os Jovens Turcos, participando com estes, em 1909, na queda do sultão Abdul-Hamid, sendo de seguida chamado para Ministro da Guerra, distinguindo-se nas guerras turco-italiana da Líbia, em 1911, e turco-balcânica, em 1912/13, tendo combatido o exército búlgaro em Galípoli (Helesponto, nos tempos antigos) e Bolayir, na costa da Trácia. Neste ano de 1913, foi nomeado adido militar em Sofia, sendo promovido em 1 de Março de 1914 a Tenente-Coronel.

Na I Guerra Mundial, iniciada com a declaração de guerra da Áustria em 28 de Julho de 1914, a Turquia está contra ao Aliados, colocando-se ao lado da Alemanha, assinando uma aliança secreta com este país logo em 2 de Agosto. Sob o comando alemão, bombardeia alvos russos em 29 de Outubro, o que leva a Rússia a declarar guerra ao Império Otomano em 2 de Novembro, no que é seguida pela Grã-Bretanha e pela França três dias depois.

Embora não sendo o nosso objectivo falar da I Guerra Mundial e das suas causas, não resistimos a fazer aqui um interregno dentro do outro interregno no descrever da nossa viagem para falar de Mustafá Kemal, remetendo mesmo o leitor mais interessado na história desta Guerra para o livro de Norman Stone, «Primeira Guerra Mundial – Uma História Concisa», editada em português pela D. Quixote, numa tradução de Miguel Mata (Lx. Fevereiro de 2011). Na página 35 podemos ler: “Só sabemos verdadeiramente o que se passou em Berlim, em 1914, por causa do conteúdo de baús esquecidos em sótãos e de um documento extraordinário, o diário de Kurt Riezler, o secretário judeu de Bethmann-Hollweg. O diário inclui uma entrada devastadora referente ao dia 7 de Julho de 1914. À noite, o jovem senta-se com o chanceler von Bethmann-Holweg, de barba grisalha. Conversam e Riezler compreende, enquanto ouve, que está cara a cara com o destino. O argumento central é: «a Rússia não pára de crescer. Transformou-se num pesadelo». Os generais, conta Bethmann-Hollweg, dizem que tem de haver uma guerra antes que seja tarde demais. Se for agora, existem boas probabilidades de tudo correr pelo melhor.” Pensem agora os leitores como a acção estúpida e acidental dos jovens terroristas sérvios facilitou o desejo de guerra que os alemães tinham, constituindo o assassinato do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono, «o acidente inevitável» de que a Alemanha necessitava. O assassino, Gavrilo Princip, viria a dizer mais tarde que “os Alemães teriam encontrado outra desculpa”, como pode ler-se na obra que acabamos de citar (pág. 34).

Vejamos o que se diz na página 26 desta obra de Norman Stone: “Se o Império Otomano estava à beira da desintegração – e quase ninguém esperava que durasse -, então a rivalidade estaria mais perto de casa e envolveria ligações terrestres e exércitos. Para a Rússia, eram vitais o estreito entre o mar Negro e o mar de Mármara ou o Dardanelos, entre o Mármara e o Egeu: eram a traqueia da economia russa, por onde passavam 90% das exportações de cereais e chegava praticamente tudo o que mantinha em funcionamento as indústrias do Sul da Rússia. Durante a guerra contra a Itália, em 1911-1912, os Turcos tinham fechado o Dardanelos, provocando a paragem económica imediata do Sul da Rússia. Garantir a segurança do estreito era uma questão vital para a Rússia, e no princípio de 1914 as potências da Entente forçaram a Turquia a conceder um estatuto de quase autonomia às províncias parcialmente arménias da Anatólia Oriental. Este acontecimento (e o interesse anglo-francês paralelo nas províncias árabes) poderia ter decidido facilmente o fim do Império Otomano, dado que os Arménios, que eram cristãos, poderiam tornar-se instrumentos da Rússia. Mas antes da ratificação do tratado, a Turquia virou-se para Berlim.”

Mais à frente, quando falarmos da batalha que tornou Mustafá Kemal no grande herói turco, perceberemos melhor tudo, a começar pela razão de tantas vidas humanas ali se terem perdido, se recordarmos o que acabo de transcrever do livro de Norman Stone.

Voltemos à pequena biografia de Mustafá Kemal.

Em 20 de Janeiro de 1915, deixa Sofia para organizar e comandar a 19.ª Divisão do 5.º Exército em Galípoli, mais concretamente em Rodoposto, hoje Tekirdağ, no mar da Mármara.

Em 24 de Abril, uma força anfíbia composta por britânicos, franceses, australianos e neozelandeses iniciaram o desembarque na península de Galípoli para tentarem derrotar a Turquia e, assim, afastá-la da guerra. Esta invasão constituiu um desastre para os aliados ao substimarem as forças turcas na sua capacidade para defenderem o seu território. Mustafá Kemal, que tinha experiência militar na região de Galípoli, previu o local onde os aliados desembarcariam, detendo o avanço destes até à retirada final.

(Continua)

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