SALAZAR E A I REPÚBLICA – 2 – por José Brandão

Antecomeço

António de Oliveira Salazar tem 21 anos quando em 5 de Outubro de 1910 um pequeno grupo de revoltosos chefiado pelo dirigente carbonário Machado Santos faz implantar a República em Portugal.

A Revolução estivera por um fio, principalmente quando chega ao acampamento revolucionário a notícia da morte do almirante Cândido dos Reis a quem estava atribuído o comando militar da revolta. O conceituado militar republicano e chefe carbonário aparecera morto, para os lados de Arroios. Suicidara-se ao julgar que a Revolução voltara a falhar.

Os oficiais presentes decidem reunir em conselho. Concluem que não há nada a fazer e votam por abandonar o local. Há apenas um voto contra: Machado Santos.

Vestem-se à civil e partem cada para seu lado. Um é teimoso e fica: Machado Santos.

Os que partem alegam que o plano geral tinha falhado e que o Governo podia dispor de forças mais que suficientes para esmagar a concentração da Rotunda. Os 4 470 soldados e os 3 771 polícias controlados pelo estado-maior monárquico chegavam e sobravam para dar cabo das três ou quatro centenas de carbonários civis e militares que estavam no Parque.

Agora sem oficiais, Machado Santos manda tocar a sargentos. Respondem nove. Estão para o que der e vier. São todos carbonários. O reduto revolucionário dispõe de oito peças para sustentar a sua defesa pesada. As barricadas são aquilo que se pode arranjar: toscas, improvisadas, incapazes de resistir a um ataque a sério das forças monárquicas.

Ao meio-dia e meia hora começam a chover as primeiras granadas que anunciam a chegada do capitão Paiva Couceiro à frente das baterias de Queluz fiéis ao Governo. A pontaria não é de aprendiz de artilheiro. Caem em cheio sobre a primeira linha de fogo. O duelo de peças é feroz e intensa a fuzilaria que envolve por completo a Rotunda.

Por volta das quatro da tarde, as baterias de Queluz entendem que o melhor é voltarem para as frescas bandas da Serra de Sintra e com este ânimo põem-se a caminho da respectiva unidade.

Ao romper da alvorada de dia 5 já a República podia ser dada como certa em Portugal.

*

É em plena revolução republicana que o jovem Salazar chega a Coimbra com o objectivo de estudar Direito. Aproveitando-se dos cursos livres, que acabavam de ser criados pelo novo governo republicano, matricula-se logo na velha Universidade frequentando também na Faculdade de Letras as cadeiras de Língua e Literatura Inglesa e Curso Prático de Inglês.

Oriundo de um meio rural e sem grandes futuros facilitados, António de Oliveira Salazar nasceu às 15:00 horas do dia 28 de Abril de 1889, no Bairro Novo da freguesia do Vimieiro, próximo da estação ferroviária, no concelho de Santa Comba Dão, na Beira Alta.

Filho mais novo, de cinco irmãos, António é o único rapaz e último filho de uma família de pequenos proprietários agrícolas. O pai, António Oliveira, ascendera a feitor agrícola dos Perestrelos, os proprietários mais ricos e influentes da região. A mãe, Maria do Resgate Salazar, trabalhava na casa, no campo e num pequeno negócio de comes-e-bebes que tinham aberto numa parte da casa.

António Salazar teve quatro irmãs pouco mais velhas. A Marta, nascida em 1882, ensinou Contas e Gramática às crianças do Vimieiro durante 43 anos. A Elisa, nascida um ano depois em 1883. A Leopoldina nascida passados dois anos, em 1885 e um ano depois, nascia a quarta irmã: Laura.

Em Agosto de 1882 é inaugurado o caminho-de-ferro da Beira Alta. Com ele, nasce o Bairro da Estação de casinhas brancas e de pedra esmerada.

A casa onde Salazar nasceu ficava mesmo à beira da estrada por onde passavam os almocreves com as bestas de carga. António Oliveira e Maria do Resgate, por altura do nascimento da segunda filha, em Abril de 1883, transformaram parte da casa em hospedaria e taberna. Ele continuou como feitor da rica casa agrícola dos Perestrelos, enquanto a mulher tomava conta do negócio.

Foram estes Perestrelos padrinhos de baptismo de Salazar mas que não compareceram à cerimónia na igreja de Santa Cruz, fazendo-se representar, com respectiva procuração, pelo carpinteiro Francisco Alves da Silva e sua mulher Luísa da Piedade.

O Vimieiro é uma terra amena rodeada de densa vegetação que fica entre o perfil altivo da Serra da Estrela e do relevo volumoso da Serra do Caramulo. O nome Vimieiro terá derivado dos vimes existentes ao longo do rio e dos ribeiros. Nestes tempos, a electricidade ainda era uma miragem e em todas as casas havia a luz dos candeeiros, o que dava à povoação um aspecto algo diferente.

Em 25 de Novembro de 1890 é dia da abertura à exploração da Linha do Dão (Santa Comba Dão e Viseu) que vem trazer o inevitável desenvolvimento.

Vimieiro é uma das nove freguesias que constituem o concelho de Santa Comba Dão, do distrito de Viseu. O concelho encontra-se a meio do caminho entre Coimbra e Viseu. Está limitado a Norte pelo concelho de Tondela, a Oeste por Mortágua, a Este por Carregal do Sal e a Sul pelo distrito de Coimbra. Os primeiros documentos que referem a existência das terras deste concelho são cartas de doação ao Mosteiro do Lorvão, datadas de 974 e 975.
No século XI, estas terras foram muito devastadas pela Reconquista. Posteriormente, em 1102, foi outorgada uma carta de foro aos moradores de Santa Comba pelo Mosteiro do Lorvão.

No coração de Portugal, Santa Comba Dão tem uma história que se perde no tempo. As escarpas acidentadas desenhadas pelos rios Dão, Mondego e Criz que fazem deste concelho uma península, obrigam o Homem a uma constante luta com a Natureza. Mas é a água que molda o espírito e a montanha que transforma o corpo! A orografia marca bem a paisagem. Os rios e as inúmeras ribeiras ligam-nos à água fonte da vida e cura de todos os males.

Salazar nasce num meio profundamente religioso. No Vimieiro tem a Igreja Matriz, também denominada Igreja da Santa Cruz, a Capela de Nossa Senhora da Agonia, a Capela de São Simão e a Capela de São Bartolomeu.

No concelho Santa Comba Dão não faltam procissões e romarias como manifestações populares de fé, sendo de destacar a festa de Nossa Senhora da Conceição, que ocorre a 8 de Dezembro, a festa de Nossa Senhora da Assunção, que ocorre a 15 de Agosto, a festa de S. Sebastião, em Janeiro, a festa de Santa Cruz, em Maio, a festa de S. Lourenço, em Agosto, as festas da vila, também em Agosto, a festa de Santa Eufémia, em Setembro, e a romaria de Nossa Senhora do Pranto, realizada em Setembro.

Como curiosidade será de mencionar a lenda ligada ao topónimo, que evoca a abadessa beneditina Columba (Comba), que terá sido martirizada, juntamente com outras freiras, durante um dos sangrentos ataques de Almançor (cerca de 987), derivando daí o topónimo Santa Comba (Columba) do Dão.

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