Naquele Tempo
Salazar viera ao mundo numa época em que Portugal atravessava um período negro da sua História.
D. Carlos é rei de Portugal desde 19 de Outubro de 1889. Na velha cidadela de Cascais, assistira ao termo da penosa agonia de seu pai, D. Luís I, e fora sua mãe a rainha D. Maria Pia a primeira pessoa a prestar-lhe a homenagem.
– Abençoo-te, Carlos, para que sejas tão bom rei como foste bom filho – dissera, na mesma altura, ao cobrir-se com os véus de viuvez, a mãe do novo soberano.
Ser bom rei, porém, não seria tarefa muito fácil para aquele príncipe de 26 anos, a quem o pai deixara uma monarquia desacreditada, uma administração pública feita ao gosto dos interesses dos dois partidos que se revezavam alternadamente no Poder – o Progressista e o Regenerador – um défice de 83 400 contos e uma oposição republicana que principiara poucos anos antes, mas que progredia rapidamente.
Começou, aliás, da pior forma o reinado de D. Carlos. Logo em Janeiro de 1890, a Inglaterra exigiu, em termos brutais, que Portugal renunciasse ao chamado «mapa cor-de-rosa», nome dado ao projecto de se aproveitarem as explorações portuguesas no interior do continente africano para se estabelecer a ligação entre Angola e Moçambique. O Governo cedeu e ordenou a retirada portuguesa de alguns territórios já ocupados.
O Memorando inglês de 11 de Janeiro de 1890, rapidamente transformado na opinião pública em Ultimatum, humilhando os portugueses, serviu para incitar os ânimos dos que defendiam o derrube do regime monárquico.
A cedência de Portugal às exigências inglesas, se bem que inevitável, provocou uma onda de indignação que contribuiria para o descrédito da monarquia e a uma crescente afirmação do movimento republicano.
É ainda nesse ano de 1890 que acontecem os suicídios do jornalista Júlio César Machado, do sertanejo Silva Porto e do romancista Camilo Castelo Branco. No ano anterior (1889) já o escultor Soares dos Reis optara pelo mesmo fim e no ano seguinte (1891) chega a vez de Antero de Quental.
Em 16 de Fevereiro de 1889, Soares dos Reis é encontrado apoiado à sua mesa de trabalho. Após um tiro de pistola que falhou, com serena e intransigente decisão, disparou uma segunda bala. Morreu sorrindo, depois de ter escrito umas palavras explicativas do seu acto: «nestas condições a vida para mim é insuportável».
Desfechara um tiro de revólver contra a cabeça. Na parede branca atrás da cadeira onde ficou sentado, escrevera: «Sou cristão, porém, nestas condições, a vida para mim é insuportável. Peço perdão a quem ofendi injustamente, mas não perdoo a quem me fez mal».
Júlio César Machado. Foi na manhã de 12 de Janeiro de 1890, num gesto premeditado. O escritor e sua mulher, Maria das Dores, arranjaram-se como se fossem fazer uma visita. Júlio César chamou a velha criada, Maria José e mandou-a à Rua do Ouro, comprar o Le Fígaro. Quando a criada regressou com o jornal, um estranho quadro a aguardava: o casal jazia no chão, num lago de sangue – o patrão morto e a esposa moribunda. Ambos tinham golpeado os pulsos com tal violência que se viam os ossos.
Silva Porto na madrugada do dia 1 de Abril de 1890 levanta-se em segredo. Dirige-se ao arsenal, assenta cuidadosamente um barril de pólvora, recolhe a bandeira portuguesa. Envolve-se no pano, senta-se sobre o barril e lança-lhe fogo, explodindo com ele.
Ao ruído da explosão acudiu gente que o transportou para lugar reservado. O corpo do velho sertanejo resistiu ainda três dias aos ferimentos.
«Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego. Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa neste país, durante quarenta anos de trabalho». Escreveu numa carta datada de 21 de Maio de 1890.
A 1 de Junho do mesmo ano, depois do Dr. Edmundo de Magalhães Machado, oftalmologista de renome, o ter examinado cuidadosamente na sua casa de S. Miguel de Ceide, Camilo percebe que a cegueira era irreversível. Despediu-se do médico, saindo este acompanhado de Ana Plácido: «Calmo e decidido, Camilo sacou do revólver, em seu poder há vários anos, e disparou sobre o parietal direito».
E Antero! Como foi?
«…sentou-se num banco de ferro e disparou logo o revólver. Um polícia acudiu, e quando se aproximava ouviu segundo tiro: foi este que lhe atravessou o cérebro: o primeiro foi muito dianteiro e com o revólver muito perpendicular de sorte que a bala veio ao nariz.
«Dois ou três dias, antes de executar aquela fatal resolução, esteve a contar a origem dos seus desgostos, que ele datava do Inverno passado. Chegou finalmente a fatal sexta-feira, 11 Setembro de 1891, vai comprar um revólver.
Nesse dia, foi a ver a irmã, onde se demorou até à noite, e depois saiu para um passeio público, denominado Campo de S. Francisco, e sentando-se numa das banquetas disparou um tiro, tendo a infelicidade de viver ainda 20 minutos da mais cruel agonia. Eram oito horas, quando disparou o tiro». *
*José Brandão, Suicídios Famosos em Portugal, Lisboa, 2007.
Vive-se um período de terrível pessimismo. Portugal é um desespero trágico que aflige os melhores filhos do seu possível orgulho nacional. Alexandre Herculano exclamara: «isto dá vontade da gente morrer!». Rodrigo da Fonseca murmurara: «nascer entre brutos, viver entre brutos e morrer entre brutos é triste»? E no final de um soneto António Nobre apregoa: «Amigos, que desgraça nascer em Portugal! […] Todos nós falhamos… Nada nos resta. Somos uns perdidos. Choremos, abracemo-nos, unidos! Que fazer? Porque não nos suicidamos?»
Um pouco mais tarde, em Novembro de 1908, Miguel de Unamuno dá a conhecer uma carta de Manuel Laranjeira, seu amigo de grande afecto e que algum tempo depois será mais um suicida:
«Neste malfadado país, tudo o que é nobre suicida-se; tudo o que é canalha triunfa.
Chegámos a isto, amigo. Eis a nossa desgraça. Desgraça de todos nós, porque todos a sentimos pesar sobre nós, sobre o nosso espírito, sobre a nossa alma desolada e triste, como uma atmosfera de pesadelo, depressiva e má. O nosso mal é uma espécie de cansaço moral, de tédio moral, o cansaço e o tédio de todos os que se fartaram – de crer.
Crer…! Em Portugal, a única crença ainda digna de respeito é a crença na morte libertadora.
É horrível, mas é assim.»
