O VINHO DESDE SEMPRE (da antiguidade à Idade Média) por clara castilho

Como nos relacionamos com este líquido, para uns um “néctar”? Que efeitos veio trazer na nossa vida a descoberta de que, a partir do fruto da Vitis vinífera sylvestris,  se podia produzir um sumo especial que trazia modificações no nosso estar, no nosso comportamento ? Sabemos que desde o 7º milénio, no Egipto antigo e na Mesopotâmia esta foi uma vivência concreta.

O vinho vem ocupando  um lugar de destaque entre os hábitos de toda a humanidade.  Podemos associá-lo a regiões de grandes rios, que historicamente permitiram a passagem do nomadismo à agricultura ( Nilo, Jordão, Eufrates, Tigre e os rios do Crescente Fértil).

Se a vinha era silvestre, houve que começar a cultivá-la. E foi associada aos ciclos da natureza, com a morte, a ressurreição. O seu fruto em forma de vinho aquecia no inverno, trazia o estado de espírito capaz de enfrentar os maus espíritos e possibilita uma outra forma de ver e sentir o mundo – para alguns divina – sem desgraças.

 Nos rituais religiosos, os vinhos foi essencial promovendo a integração entre o divino e o profano, a vida e o além.

 

Os egípcios foram os primeiros a saber como registar e celebrar os detalhes da vinificação em suas pinturas que datam de 1.000 a 3.000 a.C. Nas tumbas dos faraós são vistas cenas mostrando como os vinhos eram bebidos. O consumo de vinho estava limitados aos ricos, nobres e sacerdotes. Os vinhedos e o vinho eram oferecidos ao deuses, especialmente pelos faraós, como mostram os registos do presente que Ramses III (1100 a.C.) fez ao deus Amun.

Na Ilíada Homero fala de vinhos e descreve com lirismo a colheita durante o Outono.

Entre as muitas evidências da sabedoria grega para o uso do vinho, são os escritos atribuídos a Eubulus por volta de 375 a.C. : “Eu preparo três taças para o moderado: uma para a saúde, que ele sorverá primeiro, a segunda para o amor e o prazer e a terceira para o sono. Quando essa taça acabou, os convidados sábios vão para casa. A quarta taça é a menos demorada, mas é a da violência; a quinta é a do tumulto, a sexta da orgia, a sétima a do olho roxo, a oitava é a do policial, a nona da ranzinzice e a décima a da loucura e da quebradeira dos móveis.”

O uso medicinal do vinho era largamente empregado pelos gregos e existem inúmeros registos disso. Hipócrates fez várias observações sobre as propriedades medicinais do vinho, que são citadas em textos de história da medicina.

Além dos aspectos comercial, medicinal e hedônico o vinho representava para os gregos um elemento místico, expresso no culto ao deus do vinho, Dionísio ou Baco ou Líber.

O vinho chegou no sul da Itália através dos gregos a partir de próximo de 800 a.C. No entanto, os etruscos, já viviam ao norte, na região da actual Toscana, e elaboravam vinhos e os comercializavam até na Gália e, provavelmente, na Borgonha.. A mais antiga ânfora de vinho encontrada na Itália é etrusca e data de 600 a.C.

Os romanos começaram a investir na agricultura com seriedade e a vitivinicultura atingiu seu clímax. O primeiro a escrever sobre o tema foi o senador Catão em sua obra “De Agri Cultura”.

Tudo que se queira saber sobre a vitivinicultura romana da época está no manual “De Re Rustica” (Sobre Temas do Campo), de aproximadamente 65 d.C, de autoria de um espanhol de Gades (hoje Cádiz), Lucius Columella.

Após a queda do Império Romano seguiu-se uma época de obscuridade em praticamente todas as áreas da criatividade humana e os vinhedos parecem ter permanecido em latência até que alguém os fizesse renascer.

(Trechos extraídos da obra de Hugh Johnson “The Story of Wine” da editora Mitchell-Beazley, Londres, 1989)

 

 

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