Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota
(conclusão)
Já depois deste texto ter sido arranjado para a edição em A Viagem dos Argonautas recebi da Associação Manifeste pour un Débat sur le libre échange e do bureau du Forum Démocratique o seguinte texto crítico ao trabalho de Daniel Gros, críticas estas que subscrevemos globalmente:
O desastre do euro: a culpa é da Suíça segundo un think tank pró-europeu
É bastante patético. Os partidários do Estado-nação Europeu afirmam constantemente que a França é muito pequena para se desenvencilhar sozinha na economia global .
Isso não os impede agora de explicar que as desgraças do euro são devidas… à Suíça!
Esta é a tese central do artigo de Daniel Gros, director think tank Centre for European Policy Studies. Ele não teve problemas em falar de uma guerra monetária que estaria a passar despercebida.
O autor mostra que, de facto, a Suíça compra enormes montantes em euros para tentar manter o Franco suíço em níveis razoáveis (sim, com o Ruanda, a Suíça é um dos países que ainda usa o franco para as suas trocas comerciais ).
A Suíça, um país de que nos temos esquecido de perceber que é demasiado pequeno para existir, está na verdade confrontado com um grande afluxo de capital que sai da zona euro para uma zona económica mais segura, mais rentável. E isso encarece o franco suíço, pelo aumento da sua procura nos mercados cambiais, o que corre o risco de afundar a indústria local.
Então logicamente, a Suíça é um dos maiores detentores de euros. Segundo as estimativas feitas por Daniel Gros, o Banco Nacional Suíço comprou 170 mil milhões de euros contra 270 comprados pela China. Daniel Gros acredita que essas compras passariam, se viessem de um outro país, por ser uma “guerra comercial”.
O resto do artigo tenta fazer-nos acreditar que a Suíça pesa perigosamente sobre a economia da zona do euro.
Será necessário que os eurocratas e os seus não tem mais nenhum outro argumento e seja assim levados a recorrer a argumentos tão desesperados?
Será então que a zona do euro, esta invencível armada para nos salvar da globalização, vacilaria portanto devido a um país de 8 milhões de pessoas (obrigado a este comentador de não falar da Suíça como paraíso fiscal ou será porque considera que o Luxemburgo é um paraíso fiscal bem mais importante? ).
E agora com o franco suíço a estar artificialmente baixo, a Suíça faria deslealmente concorrência com a zona euro, quase tanto como a China, de acordo com Gros. O argumento é perfeitamente caricato.
Tanto quanto a China tem os meios para fazer concorrência com as suas produções, em quantidade e qualidade a todo o conjunto da zona euro, também a Suíça está a proteger a sua indústria de uma subida do franco suíço devido às turbulências monetárias. E a indústria teria dificuldade de conquistar, a nível mundial, mais do que alguns centésimos de quota de mercado à zona euro , dada a falta de capacidades de produção.
Gros permanece aliás artisticamente numa grande zona de indefinição quando se trata de avaliar o custo da concorrência suíça face à zona euro: ” Switzerland’s peg to the euro has thus made the intra-EZ adjustment (elimination of current-account deficit in the south combined with lower surpluses in the North) significantly more difficult. » ( fixar o franco suíço ao euro aumenta as dificuldades de ajustamento na zona do euro (o reequilíbrio das balanças comercias deficitárias dos países do Sul com a existência de menores excedentes dos países do Norte) e aumentou estas dificuldades de uma forma muito sensível”.) Obrigado pela explicação, pela precisão.
Note-se de passagem, que, quando se trata de apontar os defeitos da política da Suiça (para encontrar um bode expiatório, na verdade), as dificuldades da zona da euro resultam então dos saldos comerciais e das questões de paridades monetárias.
Porque é que então Daniel Gros não se questiona sobre as razões que levam a que o euro esteja permanentemente sobrevalorizado em cerca de 30% contra o dólar? Porque é que não se escreve que somos não estamos numa crise da dívida pública, mas sim em face de um problema de ajustamento de paridades entre moedas (o que é impossível na zona euro, entre os seus Estados-membros)?
Porque não se trata afinal de compreender, mas de nos atirar fumo para os olhos. Daniel Gros não tenta descrever todas as desordens monetárias de que sofre a zona euro, ele visa apontar o dedo, à Suíça.
Sagrada homenagem do dogmatismo europeu ao realismo suíço.


