UMA OUTRA NUVEM NEGRA, A OITAVA, PAIRA ENTRE WASHINGTON E PEQUIM E SOBRE TODO O MUNDO TAMBÉM

Selecção, tradução e nota de leitura por Júlio Marques Mota

2. Precisamos de deixar de acusar  a China e comecemos a discutir  o défice  comercial

Dean Baker , co-director do  Center for Economic and Policy Research, (CEPR).

Paul Krugman e Ezra Klein dizem-nos ambos, seguindo  Joe Gagnon, que “o momento para criticar a China pela  manipulação cambial “já passou.

Em parte, isso é verdade no sentido de que a moeda da China aumentou substancialmente em termos reais em relação ao dólar nos últimos anos.

Isso não significa, porém, ou que o valor relativo do dólar e o yuan está agora a um nível sustentável ou   que a China não está a continuar a tratar o valor da divisa como  uma questão de política continuada para manter  o dólar elevado em relação à moeda chinesa .

Para ver o primeiro ponto, é importante lembrar que a China é um país em desenvolvimento com um crescimento rápido. Normalmente, com os  países nessa situação espera-se que estes tenham normalmente enormes défices.

A ideia é a de que o capital pode ser melhor utilizado em países de crescimento rápido como a China do que nos países de  lento crescimento como é o caso dos países ricos. Desde que o capital passe a ter uma maior taxa de rentabilidade  nos  países em desenvolvimento,  espera-se assim que o capital se desloque  dos países ricos  para os países pobres.

O fluxo de capital implica um défice comercial para os países em desenvolvimento. Efectivamente este défice comercial permitiria aos países em desenvolvimento poderem  sustentar  dados níveis de consumo mesmo quando eles estão ainda em fase de acumular fortemente o seu capital social.

A China, conjuntamente com muitos outros países em rápido  desenvolvimento  está a ter desde há alguns anos  um   excedente  comercial de grande envergadura. Esta situação  não é sustentável. Para se perceber bem este ponto  suponha que temos um país em  desenvolvimento  que está a  crescer a uma taxa de 7 por cento ao ano, a mais baixa taxa de crescimento da China e que é a que se está agora a verificar.  Suponha que esta mantém um excedente  comercial anual de 3,5 por cento do PIB, aproximadamente o montante previsto pelo FMI para os próximos cinco anos. Para simplificar, e apenas por isso, imaginemos os Estados Unidos como  o único país no mundo e em que neste país  temos a economia a   crescer a uma taxa anual de 2,5 por cento.

Se a China e os EUA começam  o processo tendo à partida a mesma dimensão económica, depois de 20 anos o excedente comercial  anual da China será igual a 8,3% do PIB dos EUA. Para manter de forma sustentada este excedente vai ter  de comprar  uma quantidade de activos  que exceda os 100 por cento do PIB dos EUA em 2032. Se mantivermos o sistema a funcionar com este desequilíbrio  e por  mais vinte anos então o défice anual nos Estados Unidos será  de  19,5% do PIB e a  China deterá em activos nas suas mãos cerca de  300% do PIB em  2052 ou mesmo mais ainda. Claramente, isto assim não faz nenhum sentido e não poderemos ver  este tipo de défices a dar-se na direcção  errada  indefinidamente.

E ainda tanto mais quanto  a outra contraparte, a China,  continua a   acumular activos  americanos como parte de uma política oficial em que pretende ancorar  e fixar  a sua taxa de câmbio relativamente ao dólar. Por outras palavras a China  deliberadamente está a fazer apreciar  o dólar contra a sua própria moeda.

A questão  que Gagnon  levanta é que a China não está sozinha neste exercício e nisto não é sequer o maior culpado, em relação à dimensão da sua  economia. Neste sentido,  o ataque à  China  que o governador Romney e outros políticos  têm andado a propor  não  é adequado.

No entanto, nos Estados Unidos deve-se ainda considerar a questão como essencial para conseguir diminuir o valor do dólar contra o yuan e também o valor do dólar face ao conjunto de outras moedas. O yuan é fundamental porque os outros países tendem a seguir o valor do yuan face à sua própria moeda, como o fizeram em 2005, a última vez em que a China realizou uma grande reavaliação do yuan contra o dólar.

Também é importante lembrar que os maus vilões nesta história têm tantas probabilidades de estarem sentados nas cadeiras da administração das grandes empresas americanas nos Estados Unidos como têm de estarem nas administrações de empresas na China ou mesmo noutros países em desenvolvimento. Grandes, muito grandes mesmo, há empresas como Walmart e General Electric que lucraram imenso com o trabalho de baixo custo na China e em outros lugares. Eles têm muito pouco interesse em ver os preços dos bens produzidos no mundo em desenvolvimento a subirem uma vez que esta subida lhes trás uma redução das suas margens de lucro.

(continua)

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