SALAZAR E A I REPÚBLICA – 7 – por José Brandão

Muito se escreveu, e escreve, sobre o 1.º de Fevereiro de 1908. Alguns desses registos são de eloquência extrema como a seguir se verá:

Logo após a desdita, Francisco Manuel Homem Cristo, que na opinião de Raul Rêgo, era um jornalista de «temperamento virulento, o seu feitio avinagrado expressava-se numa prosa pitoresca e malcriada, insultando toda a gente, monárquicos e republicanos», escreve no jornal O Povo de Aveiro um artigo, a que dá o título «Justiça», com o seguinte tom:

 «A tragédia do Terreiro do Paço foi a última demonstração da miséria moral e intelectual dessa canalha. Foi a derradeira prova de que todos os partidos políticos, todos, são verdadeiras quadrilhas.

Monárquicos e republicanos afirmaram, propagaram, enraizaram as mais pavorosas heresias. Uns e outros, umas vezes directamente, outras vezes indirectamente, umas vezes conscientemente, outras inconscientemente, uns sabendo, outros não sabendo o que faziam, estabeleceram e afirmaram nesta terra o regime do arbítrio. Uns e outros puseram de parte, em absoluto, por completo, os princípios. Que dizíamos? Desprezaram-nos, chasquearam-nos, cem vezes, mil vezes lhes cuspiram. Uns e outros só tiveram em mira os interesses materiais e imediatos de facção. Uns e outros foram baixos, foram grosseiros. Para uns e outros só houve uma razão e um culto: a razão e o culto da força, a razão e o culto da violência. Foram todos valentões, espadachins, desordeiros, homens dos últimos extremos. Nunca homens de verdade, de Justiça, de princípios.

Todos os inimigos eram salteadores enquanto inimigos. Todos se convertiam em patriotas logo que passavam a ser amigos.

Sem nos descobrirmos, olhamos com recolhimento sentido, e piedade, todos esses cadáveres. Porque se o rei foi o único que, dentre os monárquicos, teve plano e coragem para executar esse plano, os que o mataram foram os únicos que, dentre os republicanos, tiveram plano e coragem para executar esse plano. O rei foi vítima do desvairamento monárquico. Os que o inalaram foram as vítimas do desvairamento republicano. O rei foi o resultado da propaganda de força e violência dentro da monarquia. Os outros pregaram. E ele executou. Os que o mataram foram o resultado da propaganda de força e violência dentro do campo republicano. Os outros pregaram. Eles executaram. Tiveram o seu plano. Plano monstruoso, mas plano em todo o caso. Cansados de conspirações estéreis, aborrecidos de revoluções sempre prometidas e sempre adiadas, audaciosamente, terrivelmente, se abalançaram às últimas ilações. Morta toda a família real a república seria um facto indiscutível. E a família real estava ali, toda, naquela tarde de tragédia, reunida É horrível. Mas… Mas é o facto! Eu detesto os fanáticos. De qualquer igreja, religiosa ou política. Mas sinto respeito por todas as vítimas. Os desgraçados que mataram foram vítimas, como o rei, das quadrilhas políticas. Como o rei, mais do que Ele, tiveram coragem dos iluminados. Porque fizeram voluntariamente o sacrifício da vida. A minha revolta não é contra eles. É contra a canalha que atira a pedra escondendo a mão. É contra os hipócritas. É contra os miseráveis que, incapazes de arriscar um cabelo, excitam aqueles temperamentos. Em fim, é contra as quadrilhas políticas, que têm sido, e continuam sendo, a ruína deste país. Oxalá que esta verdade chegue a ser compreendida.»

 Francisco Manuel Homem Cristo nascera em Aveiro em 1860, variando a sua actividade ao longo da vida, muitas vezes em função das circunstâncias, notabilizou-se como oficial do exército, como professor universitário, deputado, escritor e jornalista, mas principalmente como fundibulário, condição em que é considerado paradigma dos maiores da vida portuguesa.

Fundou e dirigiu O Povo de Aveiro, jornal que rapidamente ganhou nome nacional, atingindo algumas edições números retumbantes. Exilado em Paris, após a Revolução de 1910, o jornal passou a circular com o título Povo de Aveiro no Exílio, e no seu regresso a Aveiro, suprimido pela governação, o título transformou-se em O de Aveiro, mantendo as características fundamentais de um temperamento insubmisso.

Homem Cristo chegou a fazer parte do Directório do Partido Republicano aquando da revolução do 31 de Janeiro de 1891, vindo mesmo a ser preso pelos monárquicos por participação nessa revolta.

Condenado, mas também aplaudido, o regicídio de 1908 teve um impacte no estrangeiro raramente visto com acontecimentos políticos portugueses. Não só a imprensa internacional deu grande destaque a este evento, como a ele se referiram importantes figuras da época, como é o caso de Miguel Unamuno.

Unamuno, logo após o regicídio, em 1908, viaja até Portugal onde conta com a amizade de algumas das mais destacadas figuras da vida cultural e política.

Salazar 1928

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