VINTE ANOS DEPOIS DA TAL COISA – por Carlos Leça da Veiga

Em 1994, dez anos depois da publicação de “Questões & Alternativas”, revista de que saíram quatro números, um grupo de «resistentes» continuava  a almoçar às quartas-feiras, geralmente no Continental.O Rui de Oliveira, o Leça da Veiga, o Bruno da Ponte, o Jaime Camecelha e eu. A Clara Queiroz comparecia com alguma frequência, mas não sempre. O Pedro Godinho, um dos fundadores da tertúlia, estava ausente por imperativo profissional, pois fora colocado em Paris. O José Francisco Ribeiro aparecia quando podia. O Camilo Maia, acabado de vir de Moçambique, juntou-se à tertúlia e provocou uma temporária mudança de “sede”. Achou o Continental caro e sugeriu a Feira Popular. E assim, naquela Primavera, nas quartas-feiras o ponto de reunião era um restaurante da velha Feira.  Num desses almoços, presumivelmente em Março de 1994, foi deliberado organizar um almoço especial. O Leça da Veiga apareceu com o texto que abaixo transcrevemos. Todos os que referi, assinaram a «convocatória». O preço do almoço era de mil escudos por cabeça – as inscrições com os cheques, segundo se diz no papel, deviam ser remetidos para a morada do Jaime até 5 de Abril.

O almoço de 25 de Abril de 1994, “vinte anos depois da tal coisa”, num restaurante da Feira (mas não o mesmo onde habitualmente comíamos) foi um grande êxito. Mais de uma centena de pessoas. Mostramos apenas duas fotografias. O texto do Leça da Veiga, que vamos ler a seguir, encontrado quase vinte anos depois de ter sido escrito, fez-nos sorrir, emocionou-nos… Vamos ler

Um grupo de amigos que, no seu todo, não monta a uma dezena, desde há anos, semana após semana, de almoço em almoço, prosseguem uma conversa interminável onde as interrogações, dúvidas, contradições, marasmo, má-língua, anedotas ou, tão-somente, o mero entretenimento, têm sido o suporte visível para qualquer coisa mais sólida e profunda que ficou dum passado comum que já não é muito recente.

No meio das palrações fala-se deles e delas. De fulano, beltrano e cicrano. Onde está? Como pensará? No que acredita? O que faz? Estará bem? Será feliz?

A todo o momento também vêm à falação  os acontecimentos passados que, cada qual viveu a seu modo, deu e dá interpretações diversas ou sentiu as consequências mas díspares. Há nebulosas, há certezas, há desencontros, inclusive imprecisões sobre as coisas, os factos, sobre os actores mais intervenientes, sobre as argumentações melhor ou pior conseguidas e, palavra puxa palavra, graçola após graçola, vai-se ao ponto de questionar sobre as próprias realidades. Terão acontecido?

No meio duma confusão saudável, a ironia chega a todos os limites e refaz todos os cenários. Terá havido o 25 de Abril? Sim, não ou talvez. Vive-se em Portugal ou no Cavaquistão? Perplexidade terrível! Confusão diabólica! Mobilizem-se as memórias; abram-se os baús das recordações. Procurem-se testemunhos; alguém haverá que saiba qualquer coisa sobre a matéria.

És capaz de vir testemunhar?

És capaz de vir almoçar?

Que tal fazer as duas coisas?

No próximo 25 de Abril gostávamos de fazer uma almoçarada e dar dois dedos de conversa. Para saber como vai essa bizarria e, comedidamente, beber uns copos.

Lá em casa, aos mais novatos, podes dizer-lhes que venham. Vai haver dinossauros, múmias, espécies em vias de extinção ou figuras de cera. Enfim, peças dum museu aberto que, a seu tempo, foi um laboratório de esperança, dádiva, revolta, camaradagem, história, asneira, fantasia, loucura e, é bom não esquecer, de algum acerto.

Lisboliqueime, vinte anos depois da tal coisa,

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